Por que a pandemia afeta mais profissionais de saúde negras

Estudo mostra que elas têm menos apoio no local de trabalho e se consideram menos preparadas para a crise. Impactos na higiene mental de médicos, enfermeiros e agentes impactam na qualidade do serviço

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Um estudo da FGV (Fundação Getulio Vargas) com um grupo de profissionais da saúde mostra que a pandemia do novo coronavírus afetou a rotina e o bem-estar de todos, mas, entre as pessoas consultadas, as mulheres negras são as que mais sentem impactos negativos decorrentes da crise.

O trabalho, feito em parceria com a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e a Rede Covid-19 Humanidades e publicado na quarta-feira (16), mostra que profissionais de saúde negras estão com a saúde mental mais debilitada pela crise, sentem-se menos preparadas para trabalhar durante a pandemia e sofrem mais com assédio moral.

Elas também sentem mais medo do novo coronavírus, tanto pela possibilidade de se infectar quanto de infectar seus familiares e colegas. São ainda as que mais estão tristes na pandemia. Entre as razões para a tristeza estão a exaustão no trabalho e a queda da renda familiar na crise.

84,2%

das profissionais de saúde negras dizem sentir medo do novo coronavírus, índice maior que de homens negros (73,2%), de homens brancos (69,7%) e de mulheres brancas (80,3%)

44%

das profissionais de saúde negras dizem ter recebido treinamento para trabalhar durante a pandemia, índice menor que de homens negros (52,6%), de homens brancos (58,7%) e de mulheres brancas (50,8%)

38%

das profissionais de saúde negras dizem ter passado por situações de assédio moral durante a pandemia, índice maior que de homens negros (32%), de homens brancos (25%) e de mulheres brancas (34%)

O estudo, realizado a partir de um survey (método de coleta de dados) online feito em setembro e outubro de 2020 com 1.263 profissionais de saúde do país, buscou analisar de que modo gênero e raça afetam as formas como os profissionais que atuam na linha de frente vivenciam a pandemia.

Enquanto as mulheres negras têm a saúde mental mais afetada pela crise, no outro extremo, homens brancos registraram os menores índices de impacto na pandemia, segundo o estudo. Mulheres brancas e homens negros também tiveram resultados melhores que das mulheres negras, embora piores que dos homens brancos.

O trabalho reúne os resultados da terceira fase de pesquisas da FGV, da Fiocruz e da Rede Covid-19 Humanidades sobre a percepção dos profissionais de saúde a respeito do trabalho durante a pandemia. Os dois primeiros estudos foram publicados ao longo do ano. A FGV também examinou a situação de outros profissionais do serviço público durante a crise.

A adoção da perspectiva de gênero e de raça nesta edição do trabalho busca mostrar a desigualdade dos impactos da pandemia sobre profissionais de saúde que vêm de diferentes grupos sociais. Em todos os setores, a crise do coronavírus revelou e agravou as disparidades de gênero, raça e classe no país.

O que explica os dados

O primeiro fator que contribui para que profissionais de saúde negras sejam mais vulneráveis à pandemia do novo coronavírus é a posição que essas mulheres costumam ocupar no sistema de saúde do país, geralmente com as carreiras menos valorizadas no setor, segundo o estudo.

Os médicos, que são os profissionais mais prestigiados do sistema de saúde, são formados, na maior parte, por homens e mulheres brancos, enquanto outras carreiras, como enfermeiros, agentes de combate a endemias e agentes comunitários de saúde, têm uma maioria feminina e negra.

Os agentes comunitários de saúde, que mais concentram mulheres negras, são pessoas que atuam em serviços de prevenção, participando de ações domiciliares para verificar o quadro de saúde das famílias da comunidade. Os agentes de combate a endemias também fazem visitas a casas, mas na busca por focos de doenças endêmicas, como a dengue.

A professora na Fundação Getulio Vargas e coordenadora do Núcleo de Estudos da Burocracia, Gabriela Lotta, afirma que essas profissões são mais precárias e vulneráveis, se comparadas com médicos e enfermeiros. “Os agentes recebem salários menores, têm menos nível educacional, são menos valorizados. Essa condição mais precária cresce durante a pandemia”, disse ao Nexo.

Ela afirmou que a grande presença de mulheres nessas profissões, chamadas de profissões de cuidado, não é trivial. “A sociedade se estrutura, em geral, com mulheres ocupando profissões que pagam menos e lidam com o cuidado — até porque vemos a profissão do cuidado muitas vezes como uma extensão do trabalho doméstico”, disse.

70%

dos profissionais de saúde no mundo são mulheres, segundo dados de 2020 da OMS (Organização Mundial da Saúde)

“O que está acontecendo aqui é um processo de interseccionalidade: raça, gênero e classe mostram que o estrato social de mulheres negras que ocupam profissões do cuidado hierarquicamente menos valorizadas estão em uma condição mais precária durante a pandemia”

Gabriela Lotta

professora na Fundação Getulio Vargas, coordenadora do Núcleo de Estudos da Burocracia e autora do estudo sobre profissionais de saúde negras, em entrevista ao Nexo

Outro fator que agrava os efeitos da pandemia sobre as mulheres negras é a dupla ou tripla jornada, que soma o trabalho no sistema de saúde e o trabalho doméstico. O aumento do trabalho não remunerado afetou não só profissionais de saúde, mas a maioria das mulheres brasileiras na pandemia. “A pandemia exacerbou desigualdades estruturais que já existiam”, segundo Lotta.

A situação é mais grave, no entanto, no caso das profissionais que estão na linha de frente do enfrentamento da pandemia. “Elas estão no limite em termos de aumento de demanda, de excesso de trabalho e sobrecarga, e também no limite em termos emocionais. Elas saem para trabalhar e, no fim do dia, ficam com a sensação de que podem levar a covid-19 para casa”, disse Lotta ao Nexo.

Como o estudo foi feito

O estudo se baseou em dados de profissionais da saúde de todos os estados do país que responderam a um questionário preparado pelos pesquisadores disponível online entre setembro e outubro de 2020. Todos os participantes do trabalho tiveram que necessariamente informar seu gênero e raça.

O trabalho afirma que essa é uma amostra coletada por conveniência, ou seja, ela não é probabilística. Ela se delimita a partir de respostas voluntárias ao questionário e não permite fazer generalizações para todo o universo de profissionais da saúde do país.

Os pesquisadores optaram por esse método por causa das dificuldades que a pandemia impõe para a pesquisa de campo. O estudo também cita a necessidade de conseguir respostas rápidas para os problemas da crise sanitária e, assim, fazer recomendações para a melhoria das políticas públicas.

A falta de inferência estatística, no entanto, não invalida os dados, apenas limita a análise a um universo específico, segundo o estudo. O trabalho, porém, buscou aproximar, em termos percentuais, as informações da sua amostra ao universo dos profissionais de saúde do país, desagregando dados por região, profissão, gênero e raça.

Qual o quadro da saúde

Os dois estudos anteriores da FGV, da Fiocruz e da Rede Covid-19 Humanidades já apontavam que os profissionais de saúde se sentiam despreparados para a pandemia, abandonados por governos e com medo de se infectar pelo novo coronavírus.

A chegada da segunda onda da pandemia no país pode agravar o quadro, segundo pesquisadores. A pressão sobre os sistemas de saúde, que voltaram a ver UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) cheias em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, tende a aumentar o estresse e o medo dos profissionais.

Os efeitos negativos da pandemia não só afetam os trabalhadores de saúde, mas podem prejudicar a qualidade de seu serviço. O estresse causado no período levou parte dos trabalhadores de hospitais a abandonar seus empregos durante a crise, por exemplo.

O estudo publicado pela FGV na quarta-feira (13) recomenda que os sistemas de saúde criem políticas de suporte emocional aos profissionais, disponibilizando psicólogos para tratar de problemas de saúde mental, e ampliem mecanismos de denúncia ao assédio moral no ambiente de trabalho, entre outras sugestões.

Para reduzir as desigualdades de gênero e raça no sistema de saúde, o estudo sugere que os governos produzam dados sobre o tema, incluam essas perspectivas em seus planos de ação e incorporem mulheres nos processos de tomada de decisão. O trabalho também recomenda inserir profissionais do cuidado como grupo prioritário nos planos de vacinação da covid-19.

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