Como 3 especialistas vão proteger a família nas festas de fim de ano

Ao ‘Nexo’ pesquisadores da área da saúde contam como vão passar o Natal e o final de 2020 e quais recomendações estão dando a familiares para se prevenir da covid-19

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O Brasil registra desde novembro um novo avanço da pandemia do novo coronavírus. Epidemiologistas e pesquisadores da área da saúde temem pelo que pode acontecer ao país em janeiro, depois das festas de fim de ano. Celebrações de Natal e Réveillon, com reuniões familiares ou grandes aglomerações em eventos privados ou públicos, podem fazer os números de casos e mortes, que já estão em alta, explodirem.

Na quarta-feira (16), o Ministério da Saúde registrou 70.574 novos casos de covid-19 em 24 horas, a maior marca diária desde o início da pandemia, em março. O país também voltou a contabilizar mais de mil mortes por dia na quinta-feira (17), o que não acontecia desde setembro.

Por causa do agravamento da crise sanitária, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, onde os sistemas de saúde estão superlotados, o Observatório Covid-19 BR, que congrega 80 técnicos e pesquisadores, divulgou uma nota na quinta-feira (17) cobrando prefeituras e estados a tomarem “ações imediatas que diminuam o número de contatos potencialmente contagiosos”.

A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) lançou na quarta-feira (16) uma cartilha com uma série de orientações para as pessoas evitarem o contágio durante as reuniões de fim de ano. As dicas são baseadas nas recomendações feitas pelo Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos para pequenos encontros entre familiares e amigos.

As festas de fim de ano têm sido uma preocupação mundial. A Alemanha, tida como um exemplo na contenção da pandemia, decidiu fechar fronteiras e impor um lockdown até 10 de janeiro. “Se não diminuirmos os contatos e esse for o último Natal que passamos com nossos avós, vamos ter falhado. Temos que endurecer as medidas”, afirmou a chanceler alemã, Angela Merkel, ao anunciar as restrições, no domingo (13).

Nos Estados Unidos, o imunologista Anthony Fauci, chefe da força-tarefa da Casa Branca contra a covid-19, anunciou que irá passar o Natal sozinho com a esposa, sem a visita das três filhas, como forma de desincentivar as comemorações. Ele completa 80 anos em 24 de dezembro. “É doloroso e não gostamos disso. Mas é apenas uma das coisas que teremos de aceitar para atravessar esse período de desafios sem precedentes”, afirmou.

Para saber como as reuniões familiares podem ser mais seguras, o Nexo ouviu três pesquisadores e pediu dicas para minimizar os riscos de contaminação pelo novo coronavírus.

O ideal seria cada um celebrar localmente

Rômulo Leão Silva Neris

biofísico e virologista, pesquisa pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) mecanismos de resposta do sistema imune à infecção pelo novo coronavírus

Moro com minha família, numa casa com cinco pessoas: meus pais, minha irmã e minha avó materna. A gente costumava fazer o Natal com a família e o Ano Novo com amigos. Historicamente foi assim, mas neste ano a gente vai celebrar as duas datas só a gente, em casa. Até agora, nenhum de nós foi acometido pela covid-19. Conseguimos conter por ora e queremos manter assim. Minha avó tem 85. Meu pai tem diabetes, e tanto a minha mãe quanto eu temos hipertensão. São múltiplos grupos de risco em casa.

O cenário ideal seria que cada um pudesse celebrar localmente, com a família ou amigos com quem mora ou pessoas relativamente próximas com quem você convive todo dia, mas por vezes esse cenário não é tão viável. Tem gente que mora em outra cidade, passa férias no final do ano com a família, precisa de uma maneira ou outra se juntar a outras pessoas no final do ano e já tem isso programado. Nesse contexto, o que a gente recomenda é que as pessoas tentem ao máximo restringir a frequência de indivíduos nos eventos, evitem fazer festas mais amplas, com convidados do condomínio, do bairro, da comunidade.

Além disso, se for possível, diminuir a frequência de outros cenários de exposição. Quem puder, por exemplo, diminuir a frequência de saídas e trabalhar em home office no final do ano, isso também aumenta a potencial segurança. E, claro, não aglomerar, não se reunir com ninguém se tiver manifestado algum sintoma do coronavírus pelo menos nos 14 dias anteriores à festa, que são casos suspeitos de infecção.

E não aglomerar em festas de celebração pública. Algumas cidades têm o hábito de fazer eventos no final do ano que costumam aglomerar muita gente. É difícil rastrear contatos, filtrar quem teve contato com gente infectada, quem pode estar infectado. A gente não recomenda esses cenários.

‘Não existe um número mágico de participantes

Vitor Mori

doutor em engenharia biomédica e pós-doutorando na Universidade de Vermont, nos Estados Unidos

Moro só eu e minha esposa em Vermont, nos Estados Unidos, então o Natal vai ser em casa, sem contato com outras pessoas. No último Natal, voltei para o Brasil e passei com a minha família. Neste ano, meus pais e minha irmã vão passar as festas separados, com quem já moram. Meu pai e minha mãe numa casa, minha irmã e o namorado dela em outra. Eles não vão levar pessoas que moram em outras residências para fazer a festa juntos.

Tenho dado, em geral, quatro recomendações. A primeira é fazer a festa com o menor número possível de pessoas. O melhor dos cenários é fazer só com quem já habita a mesma residência. Se for trazer pessoas de fora, o ideal é que traga o menor número possível e, mais do que isso, que misture o menor número de residências possível. Se a festa tiver seis pessoas, por exemplo, é melhor que três morem numa casa e as outras três em outra do que seis pessoas morando cada uma numa casa diferente. Não existe um número mágico de participantes, se menos que dez ou menos que cinco. Depende muito. Se o ambiente for aberto, ao ar livre, bem ventilado, até daria para trazer um pouco mais de pessoas. Num ambiente fechado é mais difícil.

A segunda recomendação é em relação à ventilação: tentem fazer esse encontro em local aberto, ao ar livre. No quintal, no jardim, na laje, se for possível até alugar no Airbnb uma casa que tenha um espaço aberto, onde é possível manter um bom distanciamento das pessoas. Se não for possível, recomendo mais cuidados, como ventilar bem o espaço, manter todas as janelas abertas e usar ventiladores para aumentar a circulação de ar. É importante usar o ventilador em conjunto com as janelas. Coloca próximo da janela, com a parte de trás do ventilador para dentro de casa e a parte da frente empurrando para fora. Se tiver outra janela e ventilador, pode fazer o contrário: abre uma janela oposta e coloca o ventilador puxando o ar de fora para dentro. Isso para garantir uma troca de ar constante.

A terceira dica é usar máscara o tempo todo e só tirar no momento de comer. A gente tem o costume de, como está com pessoas que a gente conhece e confia, descuidar e acabar tirando a máscara quando vai falar, porque abafa a voz. Quando a gente está falando, a gente está justamente emitindo mais partículas potencialmente contaminadas. É importante evitar falar alto sempre que estiver conversando com a máscara e nunca tirar a máscara para conversar. Isso é crítico na hora da refeição. Nessa hora, todo mundo tem que tirar a máscara. Então, evitem conversar na hora da refeição, tente talvez até fazer um rodízio: um grupo tira a máscara e come, enquanto o outro fica de máscara. Se acabar acontecendo de todo comer ao mesmo tempo, todo mundo deve aumentar o distanciamento e a ventilação do ambiente, e comer em silêncio.

A última dica que eu dou é, se possível, fazer uma quarentena antes da festa de Natal. O ideal é que seja pelo menos de 14 dias. Todo mundo que for participar da festa precisa se isolar para fazer o Natal mais seguro. Sei que as pessoas trabalham e é um pouco difícil isso. Quem puder fazer isso, faça, especialmente se o encontro envolver pessoas do grupo de risco. Até dá pra fazer uma quarentena menor, com no mínimo sete dias. Mas quanto menor a quarentena, maior o risco.

Uma coisa importante é que as dicas são para diminuir os riscos, mas nenhuma delas vai zerar os riscos. Não existe risco zero. Qualquer atividade que você faz aumenta um pouco o risco. Estamos falando em redução dos riscos, não em garantir segurança.

‘Não faça reunião de Natal, não faça festa de Ano Novo’

Natália Pasternak

microbiologista e presidente do Instituto Questão de Ciência

Evitem reunir a família nas festas de final de ano. A gente precisa que as pessoas estejam vivas para receber a vacina no ano que vem. Então, o mais interessante é que, realmente, a gente tenha paciência. Ainda estamos vivendo uma emergência de saúde pública, a situação no Brasil está grave. A gente pode chegar a um momento de ter que escolher quem vai ter leito de UTI e quem não vai. Não acho que um almoço de Natal valha tudo isso. Não vale a angústia de um médico de UTI, de um intensivista ter que escolher para quem ele vai dar o leito.

É nisso que a gente tem que pensar um pouco neste fim de ano. Quando a gente pensa: Mas eu não aguento mais, tenho que ver meus parentes, quero fazer festa, preciso socializar, tudo isso pode custar a vida de alguém. E eu acho que está muito mais do que na hora disso ser dito: você quer passar o Natal com a sua família? Você pode estar matando o Natal da sua e de outra família. E o Natal do ano que vem, porque nunca mais eles vão ter o avô, o pai, a tia. A gente precisa ter um pouco mais de solidariedade e entender quais as consequências dos nossos atos. O que eu diria, muito sinceramente, é: não faça. Não faça as reuniões de Natal, não faça as festas de Ano Novo, vamos deixar para fazê-los no ano que vem com segurança, com todo mundo vacinado, quando a gente vai poder fazer quantas festas a gente quiser.

Se eu não consigo convencê-los a não fazer, então as recomendações são as seguintes: se você vai se reunir, reúna poucas pessoas. Poucas pessoas mesmo: quatro ou cinco. As pessoas da família mais próxima. Não é para fazer festa para dez, 15 pessoas. Dessas pessoas, se você vai encontrar com seus pais, que moram em outra casa ou cidade, todo mundo que vai se encontrar deve fazer um auto-isolamento de 14 dias. Auto-isolamento mesmo: pedindo comida no delivery, sem sair para o mercado ou a farmácia. Para garantir ao máximo que você não esteja contaminado quando for encontrar os seus parentes.

Ao encontrá-los, mesa no jardim, ao ar livre, sentem-se longe um dos outros, usem máscara o tempo todo que não estiverem comendo e bebendo e não façam reuniões de fim de semana, não passem finais de semana ou feriados na casa de alguém. Façam reuniões realmente pontuais: almoço, jantar, algumas horas para confraternizar com todos esses cuidados. Isso deve minimizar os riscos.

Mas para realmente minimizar os riscos e garantir as festas de final de ano do ano que vem, o ideal é que você passe só com as pessoas com quem você já convive: as pessoas do seu entorno familiar, que moram com você. Como o resto pode fazer uma festa pelo Zoom, pelo Skype, pelo Google Meet. A gente aprendeu bastante a usar essas ferramentas neste ano e elas servem para isso, para que a gente possa estar um pouquinho mais perto de quem a gente gosta sem colocar a vida de ninguém em risco.

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