O sinal duplo no discurso de Bolsonaro sobre a vacinação

Após dizer que não iria se vacinar contra a covid-19, presidente prega união para garantir imunização da população

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Em cerimônia de lançamento do plano nacional de vacinação contra a covid-19 nesta quarta-feira (16), o presidente Jair Bolsonaro fez um discurso conciliador ao se dirigir aos governadores presentes no evento. “Se algum de nós extrapolou, foi no afã de buscar solução”, disse, numa alusão aos confrontos com o governador de São Paulo João Doria (PSDB-SP) em torno da Coronavac, vacina chinesa que está sendo desenvolvida pelo instituto Butantan.

O plano federal prevê vacinar grupos prioritários até junho de 2021 e imunizar toda a população até a metade de 2022. A Coronavac foi incluída no plano junto a outras vacinas das quais o governo afirma que comprará 350 milhões de doses. No documento, é mencionado um memorando de entendimentos para aquisição do imunizante do firmado entre o Ministério da Saúde e o governo de São Paulo que havia sido desautorizado por Bolsonaro em outubro. Doria não estava presente na solenidade, que contou com a participação de Ronaldo Caiado (DEM-GO), Fátima Bezerra (PT-RN) e Helder Barbalho (MDB-PA), entre outros.

“Nós todos estamos na iminência de apresentar alternativa concreta para nos livrar desse mal, que é o plano de operacionalização da vacinação contra covid-19”

Jair Bolsonaro

presidente da República, em evento de lançamento do plano federal de vacinação contra a covid-19 em 16 de dezembro de 2020

O tom ameno de Bolsonaro no evento desta quarta-feira (16) e os apelos por união na viabilização da imunização coletiva no país contrastam com as suas declarações públicas que põem em xeque a confiabilidade das vacinas.

Bolsonaro já disse em diversas outras ocasiões que não se vacinará contra a covid-19 quando o imunizante estiver disponível. A mais recente ocorreu em entrevista ao jornalista José Luiz Datena na terça-feira (15). “Eu não vou tomar vacina e ponto final”, disse, durante o programa Brasil Urgente, da TV Bandeirantes. Na mesma entrevista, o chefe do Executivo disse ter pedido ao ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, para mostrar a bula da vacina para a população.

“Lá no meio dessa bula está escrito que a empresa não se responsabiliza por qualquer efeito colateral. Isso acende uma luz amarela. A gente começa a perguntar para o povo: você vai tomar essa vacina?”

Jair Bolsonaro

presidente da República, em entrevista ao programa Brasil Urgente da TV Bandeirantes em 15 de dezembro de 2020

Campanha de comunicação e termo de consentimento

No lançamento do plano de vacinação, o Ministério da Saúde anunciou que irá desenvolver uma campanha de comunicação com a população para tranquilizar a população sobre a eficácia das vacinas.

Bolsonaro, no entanto, atua recorrentemente para desacreditar a Coroanavac, uma das vacinas incluídas no plano. Além de ter mandado cancelar o compromisso para comprar a vacina em outubro, ele afirmou que não compraria o imunizante nem mesmo com aprovação da Anvisa, já que acreditava que ela não “transmitia segurança suficiente para a população” e que a China, país de origem do laboratório Sinovac, sofre de “descrédito” junto à população. A fala corrobora uma série de teorias conspiratórias das redes bolsonaristas a respeito do país asiático.

Além disso, o plano federal impõe um termo de consentimento àqueles que quiserem se imunizar contra a covid-19 enquanto uma vacina — chinesa ou não — estiver sob autorização emergencial da Anvisa, a Agência Brasileira de Vigilância Sanitária. O documento isenta a União de qualquer responsabilidade caso a vacina traga efeitos colaterais graves.

Especialistas criticam a medida, alegando que ela desestimula a adesão à vacinação ao alimentar o temor da população com relação à vacina e tentar transferir uma responsabilidade do Estado para as pessoas.

Por fim, Bolsonaro é um opositor da vacinação obrigatória, garantida pela legislação brasileira. Nesta quarta-feira (16), o Supremo Tribunal Federal começa a julgar ações a respeito da obrigatoriedade da imunização contra a covid-19.

As críticas às falas do presidente

As falas de Bolsonaro sobre os supostos perigos da vacinação já foram criticadas por especialistas.

“Qualquer fala, principalmente do representante do país, que remete ao suposto não benefício da vacinação é um imenso desserviço”, disse ao Nexo a infectologista Raquel Stucchi, vice-diretora do Hospital de Clínicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), em setembro.

“Causa confusão sobre a segurança e benefício de vacinas e pode abalar a confiança da população em vacinas como um todo, não somente para a covid-19”, corroborou Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência, que falou ao Nexo na mesma ocasião.

“Um dos requisitos para crime de responsabilidade, impeachment, é violar direito social. Uma atitude como a dele é a de violar o direito à saúde da população, porque está atrapalhando as medidas que deveriam ser tomadas para garantir o direito à saúde”, afirmou ao Terra o médico e advogado sanitarista Daniel Dourado, referindo-se à fala de Bolsonaro nesta terça-feira (15).

A confiança da população na vacina

As declarações de Bolsonaro na TV Bandeirantes chegaram dias depois da divulgação de um levantamento feito pelo Datafolha que mostrou que aumentou o número de brasileiros que não pretendem se vacinar.

Ao todo, foram 2.016 pessoas entrevistadas. Dessas, 22% afirmaram que não vão se vacinar quando um imunizante estiver disponível, um aumento de 144% em relação a um levantamento feito pelo instituto em agosto, quando 9% diziam que não se vacinariam.

Daqueles que disseram que não se vacinarão, 33% afirmaram sempre confiar em Jair Bolsonaro. Já 16% do grupo disse não confiar nunca no chefe do Executivo. O restante do grupo confia no presidente “às vezes”.

Por que se vacinar vai além de uma questão individual

Para a médica Isabella Ballalai, vice-presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), a vacinação não é uma questão de liberdades individuais. “A vacina não é uma ferramenta individual: eu me vacino, eu me protejo. É uma responsabilidade coletiva”, disse ao Nexo em outubro.

Segundo ela, numa população em que 95% das pessoas foram vacinadas, uma parcela de 5% pode não conquistar imunidade, pois nenhuma vacina é 100% eficaz e existe a chance de pessoas se vacinarem e não ficarem protegidas. “Isso vai variar de menos de 1% a 5%, na pior das hipóteses”, afirma. Ainda assim, mesmo os desprotegidos estariam seguros, por não encontrar quem passe a doença para elas. Uma ampla cobertura geraria, portanto, uma imunidade coletiva. Por isso a importância de grande parte do público-alvo ser imunizado.

Apesar de a obrigatoriedade para a vacinação no Brasil estar prevista em lei desde 1975, na prática, “ninguém sai correndo atrás de um adulto para ele se vacinar”. “A última vez que isso aconteceu foi com a vacina da varíola que gerou uma revolta [em 1904]. De lá para cá a gente conseguiu conscientizar melhor as pessoas, as vacinas ficaram mais seguras. Essa medida [de obrigar a se vacinar] seria fora do comum”, afirmou Ballalai.

Discutir a obrigação, para ela, só piora a confiança da população. “Quanto mais eu falo nisso, mais parece que [a vacina] é uma coisa perigosa. Não existe essa discussão para nenhuma outra vacina. Por que com a covid-19? As vacinas não vão ser licenciadas se não se mostrarem seguras. Só aumenta a dúvida e a insegurança da população que está sendo atacada com tanta desinformação”, afirmou.

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