Por que a proteção da vacina é melhor que a imunidade natural

Ideia de que contágio seria preferível a esperar imunização tem alimentado o descaso com medidas de prevenção. Percepção é perigosa e vai na contramão de estudos  

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Mesmo com o aumento das restrições de circulação diante da alta de casos de covid-19 em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, cenas de aglomerações em bares, ruas e mesmo festas tornaram-se comuns. Na capital paulista, muitos dos frequentadores de bares disseram ao site UOL não temer a infecção pelo vírus. Alguns dos jovens dizem acreditar que ficar doente poderia trazer proteção, pois forçaria o aparecimento de uma imunidade natural.

Pessoas infectadas produzem anticorpos e células de defesa que carregam uma “memóriacontra o novo coronavírus. Elas adquirem imunidade e ficam protegidas contra novas infecções — casos de reinfecção por covid-19 vêm sendo registrados, mas ainda são raros. Cientistas ainda não sabem dizer por quanto tempo dura a imunidade natural, mas concordam que a maneira mais segura de se proteger contra a doença não é ser infectado pelo vírus, mas se vacinar, como começou a ser feito no Reino Unido e nos Estados Unidos. No Brasil, o início da vacinação deve acontecer em 2021.

A possibilidade de alcançar imunidade coletiva por vias naturais, além de resultar em um número elevado de mortes e sequelas inesperadas, foi colocada em dúvida por um estudo de pesquisadores brasileiros publicado na revista Science na terça-feira (8). A pesquisa mostrou que, mesmo que grande parte da população seja infectada e adquira imunidade, o vírus continua circulando. A pandemia perderia força apenas quando quase a totalidade da população tivesse tido contato com a covid-19.

Por que a vacinação é mais segura

As vacinas funcionam de forma a enganar o sistema imune. Elas fazem com que o organismo produza anticorpos e células de proteção contra o vírus sem que o vírus esteja realmente presente. Quando a pessoa é infectada de verdade, a resposta já está montada, e a doença não evolui. A imunidade natural, por sua vez, é conquistada após a infecção acontecer, e ela pode causar danos irreparáveis a vários órgãos.

Para serem liberadas para uso humano, as vacinas precisam passar por uma série de testes rigorosos, com a avaliação de seus efeitos adversos. São autorizadas para aplicação e comercialização apenas quando se mostram seguras. A vantagem é que seus efeitos são previsíveis. Deixar uma pessoa se infectar para adquirir imunidade não é seguro pois a doença não evolui igualmente em todas as pessoas.

A estratégia também pode sobrecarregar os sistemas de saúde e ocasionar a morte de pacientes, inclusive com outras doenças, devido à falta de vagas em hospitais ou UTIs (Unidades de Terapia Intensiva).

Ainda não se sabe se a imunidade natural contra a covid-19 é mais robusta do que a adquirida pela vacina. Alguns imunizantes geram uma resposta mais consistente do que a resposta natural do organismo, como os que combatem bactérias que causam meningite. Há casos, porém, em que a proteção natural é mais potente do que a vacina, a exemplo do que acontece com doentes que tiveram caxumba — a infecção gera uma imunidade para o resto da vida, mas se corre o risco de haver sequelas graves, como problemas de fertilidade em homens.

Especialistas recomendam que pessoas que já tiveram covid-19 e se curaram recebam a vacina mesmo com a proteção natural contra o vírus já adquirida. Eles argumentam que o imunizante poderia estimular ainda mais o sistema imune, garantindo uma resposta ainda melhor ao vírus.

Para garantir uma imunidade coletiva a partir de vacinas, especialistas estimam ser necessário imunizar de 60% a 70% da população, mas a proporção vai depender da eficácia das vacinas adotadas — e de sua capacidade de evitar a transmissão do vírus entre as pessoas, algo ainda em aberto.

A imunidade coletiva em dúvida

O conceito de imunidade coletiva — ou de rebanho — chegou a ser usado no país para explicar a queda no número de casos e mortes por covid-19 em Manaus, por exemplo, onde a pandemia colocou os sistemas de saúde e funerário em colapso. Vítimas da doença chegaram a ser enterradas em valas coletivas na capital do Amazonas.

Segundo esse conceito, doentes deixam de transmitir o vírus facilmente porque passam a ter contato, em sua maioria, com pessoas que já tiveram a infecção e já estão protegidas naturalmente. Por isso, o número de casos começa a cair e a pandemia perde força.

O pico de casos e mortes na cidade ocorreu entre maio e junho, segundo os dados oficiais das secretarias de Saúde. Na época, era registrada uma média (em relação aos sete dias anteriores) de cerca de 650 novos casos por dia. Em julho, esse número já havia caído pela metade.

Amparados por um estudo publicado na revista Science no final de junho, especialistas cogitaram, na época, que a imunidade de rebanho poderia ser adquirida caso algo entre 20% e 40% da população já tivesse se contaminado. Em junho, estimava-se que cerca de 46% dos moradores de Manaus haviam sido infectados — o que seria suficiente para frear a doença.

Mas o que se viu foi que o vírus continuou — e ainda continua — circulando na cidade. Em outubro e novembro, o número de casos voltou a subir, embora não tenha alcançado a mesma marca de maio e junho. Em 23 de outubro, a média dos últimos sete dias foi de 566 casos.

Pesquisadores brasileiros publicaram em 8 de dezembro, também na Science, um estudo estimando que 76% dos habitantes de Manaus foram infectados pelo novo coronavírus entre março e outubro e que, mesmo assim, a doença continua afetando a população.

Até então, cientistas consideravam que a imunidade de rebanho poderia ser alcançada com algo entre 60% e 70% de infectados na população. Para os autores da pesquisa sobre Manaus, porém, esse efeito só ocorreria se mais de 90% das pessoas ficassem doentes. Isso significaria muito mais mortes e pessoas com sequelas.

“Manaus é um exemplo do que ainda pode acontecer em outras capitais. Estamos muito longe de uma situação em que o número de infectados seja suficiente para conter o avanço da pandemia”, afirmou a pesquisadora Ester Sabino, da USP (Universidade de São Paulo), ao jornal da universidade. Ela é uma das autoras do estudo.

1,6 milhão

de pessoas tiveram contato com o novo coronavírus em Manaus, segundo pesquisa; população da cidade é de 2,2 milhões

74.709

casos de infectados pelo novo coronavírus em Manaus foram confirmados pelo estado do Amazonas até 13 de dezembro

Para chegar a esses resultados, os pesquisadores analisaram amostras de sangue de doadores em hemocentros (como o sangue nesses locais é guardado por seis meses, foi possível identificar a quantidade de anticorpos ao longo do tempo).

Por meio de modelos matemáticos, os dados foram analisados considerando que o nível de anticorpos cai com o tempo e que muitos doadores de sangue podem ter contraído a doença meses antes sem que os exames tenham apontado a infecção.

Segundo a pesquisa, os dados da capital do Amazonas indicam o que pode acontecer a uma população caso a transmissão do vírus não seja mitigada. As altas taxas de infecção na cidade ocorreram devido à ausência de adesão da população às medidas de isolamento social. O estudo também estimou a porcentagem de infectados na cidade de São Paulo, de 29% em outubro, bem abaixo do observado em Manaus.

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