Por que efeitos colaterais em pessoas vacinadas são comuns

Reino Unido registrou dois casos leves de reação alérgica à vacina da Pfizer entre profissionais de saúde, que já se recuperaram. Casos graves são raros

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O Reino Unido começou na terça-feira (8) a administrar a vacina contra a covid-19 desenvolvida pelos laboratórios Pfizer e BioNTech em trabalhadores da saúde e idosos. Um dia depois, o governo britânico divulgou que dois funcionários do sistema público de saúde do país tiveram reação alérgica após a imunização. Um terceiro caso suspeito de reação ainda estava sob análise. Todos os vacinados se recuperaram, mas a agência reguladora britânica recomendou que pessoas com histórico de reação a imunizantes, remédios e comidas não recebam a substância.

Não é possível afirmar que a causa da reação tenha sido o agente ativo da vacina ou algum outro ingrediente adicionado à sua fórmula para conservá-la, por exemplo. “A anafilaxia [reação do organismo ao antígeno introduzido pela vacina] é um conhecido, embora muito raro, efeito colateral de qualquer vacina. A maioria das pessoas não terá anafilaxia, e os benefícios de proteger a população contra a covid-19 superam os riscos”, afirmou June Raine, a chefe executiva da MHRA, agência reguladora de saúde do país.

A maioria das pessoas que são vacinadas no mundo não apresenta efeitos colaterais, mas eles são esperados de forma leve e passageira. Os mais comuns são dor, inchaço e vermelhidão no local da aplicação, febre leve, calafrios, cansaço, dor de cabeça ou muscular. Efeitos sérios são extremamente raros. Segundo o Departamento de Saúde dos Estados Unidos, uma ou duas pessoas podem apresentar reação alérgica grave a cada um milhão de doses aplicadas.

Segundo a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), “é muito mais provável que uma pessoa adoeça gravemente por uma enfermidade evitável pela vacina do que pela própria vacina”. A entidade lembra que doenças como a poliomielite podem causar paralisia, e o sarampo, cegueira. “Embora qualquer lesão grave ou morte causada por vacinas seja muito relevante, os benefícios da imunização superam em muito o risco, considerando que muitas outras lesões e mortes ocorreriam sem ela”, afirma a entidade.

A agência FDA (Food and Drug Administration), ligada ao Departamento de Saúde americano, divulgou no início de dezembro que mais de 55% dos participantes da última fase de testes da vacina da Pfizer/BioNTech tiveram dores de cabeça, e 14%, febres. Todos os casos foram leves.

Por que os efeitos colaterais acontecem

Eles são sinais de que o corpo humano está começando a criar uma imunidade contra a doença. O sistema imune é formado por células, tecidos e órgãos organizados numa rede e que atuam de forma conjunta para proteger o corpo de bactérias, vírus ou outros germes que invadem o corpo e tentam se reproduzir, causando infecções e doenças.

Quando um germe entra no organismo, o corpo gera uma resposta imune. São produzidos anticorpos e células de defesa para tentar destruí-los, num processo que pode levar dias. O sistema imune possui uma memória que permite reconhecer invasores antigos.

A vacina não causa a doença em si (por não conter o vírus todo ou por carregar o vírus morto ou enfraquecido, dependendo do tipo de tecnologia usado), mas engana a rede de proteção do corpo para que ele produza anticorpos e células de defesa, criando a chamada imunidade. Quando a pessoa for realmente infectada por um vírus, a resposta já estará pronta, evitando a doença ou suas manifestações mais graves.

As febres, por exemplo, são um sinal de que o corpo está tentando combater uma infecção. A maioria dos vírus e bactérias sobrevive bem com o corpo em sua temperatura natural (entre 36ºC e 37,5ºC), mas começam a ter problemas quando ela se eleva acima dos 38ºC, que é o limite a partir do qual se delimita um quadro febril.

As dores de cabeça também são causadas pela infecção e acontecem nos vasos sanguíneos e músculos que revestem a cabeça. Esses músculos e vasos se dilatam ou se enrijecem estimulando e botando pressão sobre os nervos próximos, que por sua vez disparam mensagens para o cérebro gerando a sensação de dor de cabeça.

A segurança das vacinas

Vacinas são extremamente seguras e só são liberadas para o uso em humanos depois de passar por testes de segurança e eficácia, mesmo numa corrida por um imunizante — como tem acontecido na pandemia do novo coronavírus.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças nos Estados Unidos estima que, em 20 anos, as campanhas de imunização tenham prevenido 21 milhões de hospitalizações e 732 mil mortes apenas entre crianças.

Desde 1988, funciona nos Estados Unidos um programa nacional para compensar pessoas que dizem ter sofrido danos e prejuízos de saúde após terem sido vacinados. Ao longo de 30 anos da iniciativa, apenas 6.600 pessoas foram compensadas financeiramente por danos entre bilhões de doses aplicadas em centenas de milhares de pessoas. As autoridades do programa, porém, não encontraram evidências suficientes de que a causa do prejuízo tenha sido a vacina em 70% dos casos.

Segundo reportagem do jornal The New York Times publicada em 2019 sobre o programa, foram registradas 520 mortes por vacinas no país em 30 anos, mas quase metade delas estavam associadas a uma vacina antiga contra a coqueluche que não era mais utilizada havia 20 anos.

A ligação entre os efeitos e o imunizante

Em uma coluna publicada no início de dezembro no site da revista Science, o químico Derek Lowe chama a atenção para um fato que poderá se tornar comum uma vez que a vacinação contra a covid-19 já começou: a falsa associação entre efeitos colaterais e os imunizantes.

Segundo ele, num grupo de 10 milhões de pessoas, é comum que, num período de dois meses, 4.000 sofram ataques cardíacos, 9.000 sejam diagnosticados com câncer e 14 mil morram de variadas causas. Estatisticamente, esses são acontecimentos comuns num grupo tão grande de pessoas. Eles ocorrem o tempo todo sem ninguém notar.

O problema é que, a partir de agora, supondo que 10 milhões de pessoas sejam vacinadas contra a covid-19, pode acontecer de as pessoas associarem incorretamente um ataque cardíaco ou diagnóstico de câncer, que estatisticamente já ocorreria, à imunização.

“Se você alcança uma grande população, você literalmente terá casos em que alguém tomou a vacina e morreu no dia seguinte (assim como morreria se não tomasse a vacina). Será difícil, entretanto, convencer os amigos e familiares da pessoa da falta de conexão [entre os fatos]”, escreve.

O aumento de mortes num grupo que recebeu a vacina só seria provado se os números estivessem acima do que normalmente se registra. Até o final de novembro, por exemplo, o Brasil teve 177 mil mortes além do esperado, um excesso de 24% em relação aos anos anteriores. Esse excesso foi justamente causado pela covid-19.

Para Lowe, porém, o mais provável é que a vacinação em massa reduza as mortes e empurrem os números de volta para as médias registradas nos anos anteriores em que não havia uma pandemia.

O que diz a bula da Pfizer

Segundo a bula divulgada pelo governo britânico, as pessoas devem receber duas doses do imunizante no intervalo de 21 dias. A proteção contra a covid-19 é gerada uma semana após a segunda dose.

O imunizante precisa ser mantido em freezers específicos que alcançam temperaturas abaixo de 70ºC negativos. Uma vez descongeladas, as doses podem ser armazenadas por cinco dias em temperaturas que variam de 2ºC a 8ºC, mas só duram duas horas em temperaturas ambientes acima de 25ºC. Por isso precisam ser aplicadas nesse intervalo. O laboratório não recomenda que a primeira dose seja combinada com uma segunda de uma vacina de outra empresa.

Segundo o laboratório, ainda não se sabe os efeitos do produto em jovens menores de 16 anos, pois esse grupo não participou dos ensaios clínicos. Não é recomendada a aplicação do imunizante em pessoas que estão recebendo terapias com anticoagulantes ou imunossupressora (que diminui a resposta do sistema imune e é usada para prevenir a rejeição de transplantes ou em doenças que atacam o sistema imune, como lúpus e artrite reumatóide, por exemplo).

Também há contraindicação para grávidas (a gravidez deve ser evitada por mulheres que foram vacinadas por até dois meses após a segunda dose) por falta de dados e para lactantes, pois o laboratório não sabe se a vacina é excretada no leite humano, o que poderia ter efeitos para bebês e crianças.

Segundo a Pfizer, as reações adversas mais observadas nos ensaios clínicos foram dor no local da aplicação (acima de 80%), cansaço (acima de 60%), dor de cabeça (acima de 50%), dor muscular (acima de 30%), calafrios (acima de 30%), dor nas juntas (acima de 20%) e febre (acima de 10%). Todos os casos foram leves e moderados e se curaram em poucos dias. O laboratório recomenda o uso de analgésico ou antitérmico como paracetamol para tratar os efeitos.

As vacinas a serem usadas no Brasil

O Ministério da Saúde já fechou acordo de encomenda tecnológica com a Universidade de Oxford e com o laboratório anglo-sueco AstraZeneca para a produção de sua vacina no Brasil pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). O governo federal também aderiu ao programa Covax Facility, coordenado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e que prevê o acesso à vacina que primeiro se mostrar viável entre nove opções. A previsão inicial da pasta era começar a vacinar profissionais de saúde e idosos apenas em março, o que gerou críticas devido à lentidão.

No início de dezembro, o governo do estado de São Paulo anunciou um plano regional para vacinar idosos, profissionais de saúde, indígenas e quilombolas a partir de janeiro com a vacina chinesa da Sinovac, o que jogou ainda mais pressão sobre o Ministério da Saúde. Por isso, na quarta-feira (9), o ministro Eduardo Pazuello mudou o discurso e disse em entrevista que a imunização no país poderia começar ainda em dezembro ou em janeiro, com a vacina da Pfizer/BioNTech. O governo anunciou que negocia a compra de 70 milhões de doses com os laboratórios.

Por lei, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) poderia aprovar o uso, dentro de um prazo de 72 horas, de qualquer imunizante que já tivesse o registro de agências reguladoras estrangeiras, antes de conceder o registro final, num processo que é mais demorado. O governo de São Paulo prometeu divulgar os resultados de sua vacina e pedir a liberação na Anvisa até 15 de dezembro. Não há data prevista para o mesmo pedido da vacina de Oxford.

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