Qual será o papel dos juros na economia em 2021

Comitê de Política Monetária do Banco Central mantém taxa Selic em 2% ao ano. O ‘Nexo’ conversou com economistas para entender os rumos da política econômica na virada do ano

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    O Comitê de Política Monetária do Banco Central anunciou na quarta-feira (9) que a taxa básica de juros vai ficar em 2% ao ano. A Selic permanecerá no menor patamar da história, no qual está desde o início de agosto de 2020.

    MAIS BAIXO DA SÉRIE

    Trajetória da meta para a taxa Selic. Em 2% na virada de 2020 para 2021

    Em 2020, a taxa Selic passou por diversas quedas, pensadas para tentar estimular a economia brasileira em meio à crise por meio do aumento de liquidez. O movimento deu sequência aos cortes iniciados no final de julho de 2019, quando o Banco Central optou por baixar os juros depois de eles passarem 16 meses no mesmo patamar.

    O que é a taxa Selic

    A taxa Selic é a taxa básica de juros da economia. Ela serve de referência para a definição dos juros cobrados pelos bancos em empréstimos, o retorno de títulos do Tesouro e até o rendimento da caderneta de poupança. O vídeo abaixo explica como funciona a Selic e como o Banco Central a opera.

    A Selic é o principal instrumento da política monetária do Banco Central. Ela pode ser usada para estimular ou frear o ritmo de crescimento da economia, barateando ou encarecendo o custo do crédito.

    Ao mesmo tempo, ela também serve para o controle da inflação – que é seu principal objetivo. Desde 1999, o Brasil adota um regime de metas de inflação. O Banco Central estipula metas para a variação de preços em um ano, com uma margem para mais e outra para menos – as chamadas bandas. Ele age para manter a inflação dentro desse objetivo, usando a taxa de juros como instrumento.

    Quando há sinais de que a inflação pode aumentar, o Banco Central eleva a taxa básica de juros com a intenção de esfriar a economia e conter um eventual aumento dos preços. Se a inflação está num patamar baixo e não sinaliza aumento, há margem para estimular a economia com um corte de juros, sem grandes riscos inflacionários.

    Além do papel como instrumento da política monetária, as mudanças na taxa básica têm outras implicações. Uma delas é a rentabilidade de investimentos de renda fixa indexados à Selic. Quanto menor a Selic, menos atraentes ficam esses investimentos – e, por comparação, mais rentáveis ficam investimentos de renda variável, como ações na bolsa de valores.

    Outro fator que pode ser influenciado pelos juros é o câmbio. Os juros de um país são importantes para demarcar quanto um investimento vai render no local. Se os juros brasileiros estão mais altos, por exemplo, isso significa que uma aplicação terá um rendimento mais alto aqui do que em países com juros mais baixos. Assim, o patamar ajuda a atrair ou não dinheiro de fora. Se entrar mais moeda estrangeira no país, a tendência é a que a taxa de câmbio caia; se sair, a tendência é de aumento.

    A política monetária na pandemia

    Quando se fala que os juros são o principal instrumento da política monetária de um país, é porque eles são uma das mais importantes variáveis para definir a oferta de moeda em uma economia. A política monetária é composta pelo conjunto de ações tomadas pelo Banco Central para controlar a quantidade de dinheiro que circula na economia. No Brasil, o objetivo principal dessa política é evitar inflação muito alta ou até negativa.

    Na crise da pandemia em 2020, os juros foram reduzidos para tentar fazer mais dinheiro circular. Mas outras medidas também foram tomadas – somando mais de R$ 1 trilhão em aumento de oferta de moeda.

    Para aumentar a liquidez, o Banco Central diminuiu a taxa de depósitos compulsórios, que são um mínimo de dinheiro que tem que ficar retido nos bancos para dar segurança ao sistema financeiro. Se essa taxa diminui, uma parte desses compulsórios é liberada para circular na economia.

    Outra medida foi a criação de uma linha de empréstimos do Banco Central para os bancos, tendo como lastro letras financeiras garantidas por operações de crédito. Isso significa que os bancos, que têm carteiras de crédito, podem emitir títulos com base nessas carteiras. Esses papeis servirão de garantia para que os bancos peguem empréstimos no Banco Central.

    Em 2020, o cenário inflacionário brasileiro passou por diferentes movimentos. Nos primeiros meses da pandemia, a inflação permaneceu em baixa – ficando por cinco meses, entre abril e agosto, abaixo do piso da meta do Banco Central. Mas ao longo do segundo semestre, os preços no país aceleraram, puxados principalmente por alimentos como carne, arroz e óleo de soja. A trajetória chegando no final do ano é de alta, como mostra o gráfico abaixo.

    CENÁRIO INFLACIONÁRIO

    Trajetória da inflação e metas no Brasil. Em novembro de 2020, ultrapassou o centro da meta, mas continua abaixo do teto. Em outros momentos, como 2015 e 2016, a inflação esteve por bastante tempo acima do teto da meta.

    Em novembro de 2020, a inflação acumulada em 12 meses ficou acima do centro da meta pela primeira vez desde fevereiro do mesmo ano. Mas a variação de preços ainda está abaixo do teto do objetivo do Banco Central – ou seja, está dentro das bandas da meta.

    Os gastos do governo na crise e o cenário para 2021

    A política monetária não é a única forma de atuação do poder público na economia de um país. Além dela, o governo tem à disposição a política fiscal, que é baseada nos instrumentos de arrecadação e gastos do governo. Ou seja, enquanto a política monetária opera pela via da oferta de moeda, a fiscal atua pelo gasto público e recolhimento de impostos.

    Em 2020, a crise sanitária e econômica obrigou o poder público a aumentar as despesas – seja aumentando repasses à Saúde ou pagando o auxílio emergencial articulado pelo Congresso. Isso só foi possível porque as regras fiscais que normalmente se aplicam sobre o Orçamento foram flexibilizadas, o que ocorreu com a aprovação do orçamento de guerra e o decreto de calamidade pública até 31 de dezembro.

    Esse aumento de despesas foi na contramão das diretrizes de redução de gastos defendidas pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, desde a campanha eleitoral de 2018. Com a expansão fiscal de 2020, a dívida pública cresceu e o deficit do governo deve bater recorde no ano.

    Para 2021, a expectativa é que haja um retorno às regras fiscais anteriores à pandemia. O assunto segue sendo discutido em Brasília, mas a equipe do presidente Jair Bolsonaro sinaliza que o espaço para os gastos deve ser reduzido, levando a uma retração substancial das despesas do governo. Como consequência, o auxílio emergencial, principal política pública durante a pandemia, deve ser encerrado.

    Duas análises sobre a política monetária

    O Nexo conversou com economistas sobre a manutenção da taxa Selic em 2% ao ano e os rumos da política econômica na virada para 2021:

    • Fernando Ribeiro Leite, professor de economia do Insper
    • Celina Ramalho, economista da FGV-Eaesp (Escola de Administração de Empresas de São Paulo)

    Como avalia a decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) de manter a taxa Selic em 2% ao ano?

    Fernando Ribeiro Leite A taxa Selic é um instrumento de política monetária dentro do regime de metas de inflação. Os canais de transmissão da política monetária via taxa Selic se dão fundamentalmente (mas não apenas) pelos efeitos que a taxa de juros tem sobre aquilo que chamamos de demanda agregada.

    Ou seja, sobre o nível de gasto agregado da economia. Taxas de juros reduzidas tendem a estimular os gastos das empresas na forma de investimentos de capital fixo, de equipamentos. E tendem a aumentar os gastos das famílias mediante crédito, especialmente no que diz respeito a bens de consumos duráveis. Uma taxa de juros baixa também estimula a tomada de crédito no geral, o que atua no sentido de amplificar a atividade econômica. A taxa de juros elevada atua no sentido inverso.

    Dado isso, o Banco Central manter a taxa de juros reduzida – no menor nível nominal da história do Brasil – significa que ele está vendo neste momento que os eventos inflacionários que estão acontecendo, puxados por alimentos e nos transportes, são localizados. E que mais à frente (ao longo de 2021), a economia deve ficar com uma taxa de inflação próxima ao centro da meta.

    Entendo que o BC está vendo este episódio, com o IPCA de novembro sendo o mais alto desde 2015, como momentâneo. E que no prazo relevante para a política monetária – ao longo do ano que vem –, a taxa de inflação vai convergir para a meta. O que deixa o BC confortável para deixar as taxas de juros reduzidas.

    Celina Ramalho Considero essa decisão sensata, por conta do momento econômico que estamos passando em função da pandemia. A taxa de juros de 2% é favorável a este momento. É uma taxa historicamente baixa – nunca o Brasil teve uma taxa básica de juros tão baixa como essa – e é exatamente o remédio que precisávamos para o sintoma econômico da crise que vivemos. É uma recessão adversa, atípica e sem precedentes. Precisávamos, no modelo macroeconômico, de taxas de juros baixas.

    A OMS decretou a pandemia em março, e abriu-se um precedente importante no Orçamento público. O papel do Estado na economia e o resgate da teoria keynesiana eram importantes. Na economia, somente o Estado suportaria a situação de necessidade da economia naquele momento.

    Entramos em calamidade pública e veio orçamento de guerra. O governo precisou ser recorrido como a solução da circunstância – o que é certo, porque não é a sociedade civil que vai resolver toda essa problemática.

    Através da política monetária, consegue-se injetar moeda na economia, como forma de estímulo de curto prazo para a situação das pessoas ficarem sem trabalho, das empresas encerrarem as atividades. A economia era suportada por um fluxo monetário que deixou de existir, e que o governo ajustou. Na pandemia, a política monetária e a política fiscal – ou seja, a política econômica, na íntegra – precisaram ser expansionistas, pela circunstância.

    Com a expectativa de uma forte redução dos gastos em 2021, qual será o papel dos juros – e da política monetária como um todo – na condução da política econômica do governo no ano que vem?

    Fernando Ribeiro Leite Creio que 2021 vai consolidar um quadro claro de crescimento econômico para a economia brasileira. Não sei com qual número ou velocidade, mas ela vai recuperar. A política monetária está primariamente associada ao controle inflacionário, e não ao controle da atividade econômico.

    Os juros estão baixos porque a inflação estava dando alento, por conta da redução de demanda que ocorreu com a pandemia. A política monetária tem como foco a estabilidade dos preços, a manutenção do IPCA dentro da meta e das suas faixas. A política monetária não tem como meta nenhuma taxa de crescimento do Produto [Interno Bruto] e nenhuma taxa de desemprego. E é bom que assim seja, porque a política monetária serve justamente para ancorar as expectativas de inflação.

    Do outro lado, há a questão fiscal, onde está o risco. Na medida que o clima de crise se mantém por alguns meses à frente – ainda deve estar aí no primeiro trimestre de 2021 –, e se houver a vitória dentro do Ministério da Economia de uma narrativa segundo a qual é necessário um orçamento flexibilizado para 2021, aí acho que podemos correr o risco de ter um deslocamento da taxa de inflação. Seria uma desancoragem da expectativa da taxa de inflação, que levaria, aí sim, a política monetária a ficar restritiva ao longo de 2021. Ou seja, tudo depende da coisa fiscal. Se o fiscal desandar, a âncora da expectativa de inflação pode ficar fragilizada, e isso vai pedir um aumento dos juros. E aí você acaba abortando um crescimento que poderia acontecer.

    A acomodação à crise na economia brasileira se deu via política fiscal, via transferência de renda. Houve também medidas de legislação de mercado de trabalho. Meu ponto é que se durante a crise a gente tivesse tido um descolamento das expectativas de inflação, creio que o Banco Central teria subido os juros – mesmo com o PIB caindo e toda a crise. Porque o BC tem um comprometimento com a meta de inflação, e não com meta de produto ou emprego.

    Celina Ramalho Com a chegada da pandemia, houve gastos indiscriminados no curto prazo. Mas podemos considerar a entrada em 2021 como um médio prazo – daí, é contagem regressiva para o longo prazo da situação de crise. Passados oito, nove meses, estamos começando a viver o médio prazo. E no médio prazo precisamos também olhar para a conta e o controle de gastos do governo.

    Foi ele [o controle de gastos do governo] o recurso de primeira instância, mas agora precisamos cuidar desse desgaste à situação fiscal. Há limite para os gastos, e a partir de 2021 entra na análise de política econômica a questão da situação fiscal. Agora precisamos gerenciar o gasto emergencial que foi feito; houve uma subtração do orçamento público, que precisa aparecer no equilíbrio de longo prazo. Em 31 de dezembro, acaba o auxílio emergencial, o que sinaliza que o governo já mostra preocupação com a questão fiscal. Há dois anos, quando Bolsonaro assumiu a presidência, o Ministério da Economia já perseguia [melhorar] as contas públicas.

    Ao contrário de emitir moeda e deixar os juros baixos, esse ajuste fiscal necessário deve requerer aumento da taxa de juros a partir do próximo ano [2021]. A expectativa do mercado é que a taxa de juros fique mais elevada.

    Além disso, no curto prazo, houve alguma reação favorável da economia. Esse movimento de retorno das empresas e da sociedade, até com o fator sazonal de final de ano, levou mais pessoas ao comércio. E aí houve um sintoma de inflação importante. Então já se fala em um movimento de alta de juros no começo de 2021, exatamente para conter a inflação, Mas não tenho essa preocupação de inflação no curto prazo. O dólar valorizado trouxe inflação, mas o câmbio agora está um pouco mais controlado. A inflação é circunstancial e não é nada que traga alguma condição mais prejudicial à economia. Mas sempre há o alerta.

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