O estrago da pandemia para os agentes culturais brasileiros

Pesquisa realizada entre junho e setembro em 472 municípios mostra a percepção sobre a queda econômica do segmento

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    O setor cultural do país viu sua renda diminuir significativamente em 2020: 48,8% dos agentes culturais perdeu 100% da sua receita entre maio e julho. Os dados são da pesquisa Percepção dos impactos da covid-19 nos setores cultural e criativo do Brasil, divulgada nesta terça-feira (8).

    As consequências das medidas de isolamento para as atividades do segmento foram duras no mundo todo. A particularidade brasileira está na demora para criar uma política nacional de cultura em meio à pandemia, que só foi proposta no fim de junho com a Lei Aldir Blanc — com recursos que estão aos poucos sendo repassados à classe artística—, e na inércia da secretaria especial da Cultura, que sofreu constantes mudanças na chefia da pasta — em menos de dois anos de governo a secretaria já teve cinco titulares.

    De acordo com os dados do IBGE de 2018, 44% dos trabalhadores do setor cultural eram autônomos, sem salário fixo ou carteira assinada. Antes da pandemia, a previsão era de que, até 2021, o setor pesquisado contribuísse com US$ 43,7 bilhões para o PIB nacional.

    As áreas mais afetadas

    O levantamento apresentado na terça-feira (8), coordenado pelos pesquisadores Pedro Affonso, André Lira e Rodrigo Amaral, com apoio da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), da USP (Universidade de São Paulo), do Sesc e do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura, contou com 2.667 respostas de pessoas jurídicas e de empreendedores de 472 municípios brasileiros.

    Entre eles, 17,8% não tiveram alteração na receita durante os meses de março e abril. De maio a julho esse número diminuiu para 10%. Os profissionais mais afetados entre os que perderam o total de suas receitas nesse período foram os que trabalham com circo (77%), casas de espetáculo (73%) e teatro (70%).

    IMPACTO DA PANDEMIA

    Gráfico com linhas horizontais que mostram o impacto da covid-19 nas receitas dos agentes culturais

    Considerando o mesmo período de maio a julho, o Distrito Federal foi o que mais registrou perdas totais de receita (59,2%), enquanto o Mato Grosso do Sul registrou o menor percentual (16%).

    “Há mais vulnerabilidade entre quem tem menos escolaridade e isso cria um certo funil para entendermos quem ficou mais fragilizado nesse período, ainda que o impacto econômico tenha sido sentido em todos os estratos”, afirmou o pesquisador Rodrigo Correia do Amaral.

    Desesperança de recuperação

    As projeções para o segundo semestre entre aqueles que responderam a pesquisa são pessimistas. A maior parte acredita que não receberá nada (38,6% entre agosto e outubro, e 30,6% entre novembro de 2020 e janeiro de 2021). Apenas 1,8% projeta um aumento de 100% na receita nesse último período.

    O setor mais incrédulo com a recuperação é o das artes cênicas. No período de novembro de 2020 a janeiro de 2021, 44% dos participantes desse segmento acredita que irá perder o total de suas receitas. Entre os indivíduos, 29,7% dos participantes acreditam que perderão a totalidade da receita no período de novembro de 2020 a janeiro de 2021, enquanto que, entre os coletivos, esse percentual se eleva para 35%.

    COMO SAIR DA CRISE

    Gráfico com linhas horizontais que mostram as necessidades apontadas por profissionais da cultura para a recuperação do setor

    Sem previsão para retomada

    “O segmento [cultural] foi um dos primeiros a parar, em virtude das necessidades de distanciamento impostas pela pandemia, e certamente será uma das últimas cadeias produtivas a retomar as atividades por completo. Estamos longe de recuperar os postos de trabalho perdidos”, afirmou Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural.

    Em novembro, o Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural, que monitora a evolução econômica da indústria criativa no Brasil com dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, mostrou que um em cada dois profissionais da cultura perdeu trabalho neste ano. Em uma comparação entre junho de 2019 e o mesmo mês de 2020, houve uma queda de 49% de indivíduos trabalhando no segmento: de 659,9 mil profissionais ligados ao setor, o número caiu para 333,7 mil postos.

    Os trabalhadores de cinema, música, fotografia, rádio e TV perderam 43.845 postos de trabalho (uma retração de 38,71%). O setor editorial perdeu 7.994 postos (queda de 76,85%), e o setor de artes cênicas e artes visuais viu 97.823 postos de trabalho sumirem (encolhimento de 43%).

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