Quais os rumos da inflação na virada de ano em meio à crise

Puxados por alimentos, preços sobem em novembro e alta acumulada supera o centro da meta do Banco Central. O ‘Nexo’ conversou com economistas para entender o movimento e o que esperar de 2021

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    A inflação brasileira teve nova alta em novembro de 2020, segundo dado divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na terça-feira (8). Foi o maior resultado para o mês desde 2015.

    0,89%

    foi a inflação de novembro de 2020

    A variação de preços é medida pelo IPCA – o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, publicado mensalmente pelo IBGE. O IPCA é um dos principais índices de inflação do Brasil, e tem foco no efeito da variação sentida por consumidores com renda de entre 1 e 40 salários mínimos. Para isso, o indicador mede os aumentos de preços de centenas de produtos todo mês.

    Os produtos que entram na conta do índice de inflação são escolhidos com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares – feita pelo próprio IBGE –, que revela onde os brasileiros estão gastando seu dinheiro. Cada produto ou bem entra no cálculo do índice com um peso diferente, definido a partir dos resultados da pesquisa.

    O que causou a alta em novembro

    Em novembro, os preços de produtos ligados ao transporte tiveram papel importante para puxar a inflação. Dentro desse grupo, a maior parte do avanço ficou por conta da gasolina. Outros combustíveis, como o etanol, também subiram em um contexto de maior circulação de pessoas pelas cidades brasileiras em meio ao processo de reabertura econômica. Nos primeiros meses da pandemia do novo coronavírus, decretada em março pela Organização Mundial da Saúde, os preços de combustíveis ficaram em baixa no Brasil e no mundo após o crash do mercado de petróleo e a imposição de restrições de movimentação.

    Os transportes responderam por parcela significativa do avanço inflacionário em novembro, mas não foram o conjunto com maior contribuição para a alta do IPCA.

    O grupo com maior peso na inflação do mês foi o dos alimentos, que respondeu por mais da metade da elevação do índice. Produtos como batata e tomate tiveram alta significativa. A carne também subiu bastante, mantendo a tendência dos meses anteriores.

    Outros bens que já estavam com preço alto há meses continuaram em patamares elevados. É o caso do arroz – cujo saco de cinco quilos, vendido normalmente a cerca de R$ 15, chegou perto de R$ 40 no início de setembro – e do óleo de soja.

    A alta do preço de alimentos tem sido uma das marcas da inflação brasileira no segundo semestre de 2020. A disparada do dólar deixou os produtos brasileiros mais atraentes no mercado externo. Com isso, as exportações de alimentos aumentaram, diminuindo a disponibilidade de bens para serem vendidos no Brasil, gerando um desequilíbrio do lado da oferta.

    Ao mesmo tempo o auxílio emergencial articulado pelo Congresso em março garantiu a parcela significativa da população um poder de compra mínimo para enfrentar a crise da pandemia – aumentando a demanda por bens básicos. Milhões de brasileiros saíram da pobreza temporariamente por causa do benefício, o que ajudou a dar força para a demanda de alimentos. Além disso, com uma parcela maior da população passando mais tempo em casa, o consumo de alimentos tipicamente caseiros, como o arroz, cresceu.

    Esse descompasso entre oferta e demanda ganhou ainda um agravante ao longo do ano. O Brasil vive uma forte seca em 2020, o que dificulta e encarece o processo de produção de alimentos. Essa mesma seca foi usada pelo governo como justificativa para aumentar a conta de luz em dezembro, uma vez que os reservatórios das usinas hidrelétricas estão em níveis baixos.

    A inflação acumulada e as metas

    Com o resultado de novembro, o IPCA acumula alta de 4,31% em 12 meses. Isso significa que do início de dezembro de 2019 até o fim de novembro de 2020, o nível de preços no Brasil cresceu 4,31%.

    É a primeira vez desde o início de 2020 que a inflação acumulada em 12 meses fica acima do centro da meta do Banco Central.

    ACIMA DO CENTRO, ABAIXO DO TETO

    Trajetória da inflação e metas no Brasil. Em novembro de 2020, ultrapassou o centro da meta, mas continua abaixo do teto. Em outros momentos, como 2015 e 2016, a inflação esteve por bastante tempo acima do teto da meta.

    Desde 1999, o Brasil adota um regime de metas de inflação. O Banco Central estipula metas para a inflação em um ano, com uma margem para mais e outra para menos – as chamadas bandas. Então, ele deve se esforçar para cumprir os objetivos, utilizando como instrumento principal a taxa de juros – a conhecida taxa Selic.

    No final de 2020, a inflação ainda está dentro das metas do Banco Central. O centro da meta é 4%; o teto é 5,5% e o piso é 2,5%. Com o resultado de novembro, a inflação chegou mais perto do teto do que do piso, mas segue dentro dos limites tolerados pela autoridade monetária. A última vez que a variação do IPCA em 12 meses superou a banda superior da meta foi no final de 2016, quando o Brasil enfrentava uma forte crise econômica.

    Em 2020, a inflação chegou a passar cinco meses abaixo do piso da meta do Banco Central, entre abril e agosto. Isso se deveu principalmente à forte queda da atividade econômica nos primeiros momentos da pandemia. Mas com a reabertura a partir de junho e os preços de alimentos subindo com força a partir de agosto, a inflação voltou a crescer a um ritmo alto.

    Duas análises sobre a inflação no final do ano

    O Nexo conversou com economistas para entender a trajetória e as tendências da inflação na virada de 2020 para 2021:

    • Rafael Ribeiro, professor de economia do Cedeplar-UFMG (Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais)
    • Vivian Almeida, economista e professora do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais) do Rio de Janeiro

    A inflação ultrapassou o centro da meta do Banco Central pela primeira vez desde o início do ano. Qual o significado disso?

    Rafael Ribeiro O ideal é que você fique dentro das bandas da meta, porque a inflação ajuda a ancorar as expectativas dos agentes e serve para ajustar contratos e fazer planejamentos para o futuro. Acertar a meta é muito difícil, porque a autoridade monetária não controla uma série de choques de oferta, como as quedas de safras em várias regiões do país que acontecem em 2020. É muito difícil o Banco Central conseguir puxar a inflação para o centro da meta até o final do ano sem fazer choques muito bruscos de taxa de juros.

    O que isso mostra é que, de fato, tivemos choques de oferta neste ano. [A inflação em 12 meses] está um pouco acima do centro da meta, e isso significa que não estamos conseguindo puxar a inflação para o centro da meta em função de choques de oferta, que neste momento se manifestam principalmente pela escassez de alimentos.

    Vivian Almeida Quando olhamos do ponto de vista macroeconômico, isso não é uma boa notícia. Estamos falando de um indicador que ultrapassou o centro da meta. Mas a estratégia do Banco Central do forward guidance [uma espécie de orientação olhando para frente] é justamente para tentar de alguma forma acomodar essas variações e apontar para o futuro – para ancorar as expectativas.

    Mas, obviamente, existe um risco [de aumento inflacionário]. Inclusive, a discussão sobre o teto de gastos fala justamente sobre a ideia de como mitigar esses efeitos. Para além da pressão inflacionária que já estamos vendo, um eventual descontrole dos gastos públicos poderia piorar esse cenário. É rápida a variação para um descontrole fiscal impactando negativamente a inflação.

    Do ponto de vista micro, dos indivíduos, também não é uma boa notícia. Sabemos que a inflação sempre afeta muito a população, especialmente a com renda menor. E este resultado [de novembro] é ainda pior que o normal. Diferente, por exemplo, do que acompanhamos em 2019 ou em outros períodos, houve uma pulverização do aumento dos preços. Com relação à alimentação, por exemplo, percebemos o aumento em vários itens. Isso faz com que não se tenha escapatória.

    No ano passado [2019], tivemos um aumento dos alimentos concentrado na carne. É algo problemático, mas você consegue encontrar substitutos. Quando você tem uma pulverização desse aumento de gastos, e por vários canais diferentes – seja comércio internacional ou aumento da demanda por mais alimentação em casa em função da pandemia –, não há para onde escapar. E isso acaba afetando muito o orçamento das famílias, que têm ainda uma outra pressão que é via mercado de trabalho.

    A inflação nos últimos meses tem sido puxada por alimentos e, agora, transportes. Em dezembro, a conta de luz também vai aumentar. Essas altas devem se manter por muito tempo? Qual o impacto de ter inflação alta durante uma crise tão forte?

    Rafael Ribeiro Para 2021, a expectativa é que [a inflação] não suba tanto. A expectativa é que o dólar se mantenha razoavelmente no mesmo nível – não esperamos hoje que o dólar continue subindo. Isso significa que os bens importados e as commodities devem se manter razoavelmente constantes, em termos de cotação. A expectativa é de um aumento de safra no ano que vem, o que pode arrefecer um pouco essa escassez de alimentos – sempre contingente a eventuais mudanças climáticas, claro, mas temos a expectativa de uma safra maior em função do maior plantio.

    O que vai “pegar” no ano que vem talvez sejam os preços administrados. São preços controlados pelo governo, como energia elétrica (que já vai aumentar agora em função da escassez de chuvas); cotação de transportes e plano de saúde. [Esses produtos] provavelmente vão sofrer ajustes altos no início do ano. Há também a questão da inflação de alugueis. O IGP-M [índice normalmente usado para ajustar alugueis] teve um aumento acumulado até novembro de mais de 24% em 12 meses.

    Na questão da renda, sabemos que a inflação que tem crescido mais rapidamente é a inflação das classes mais baixas. É justamente a população que está com o trabalho mais precarizado nesta pandemia. Se há um aumento daqueles bens que são de consumo essencial – como gás de cozinha, combustíveis e energia (os últimos dois afetam a cadeia inteira de produção) –, você tem um aumento da inflação de bens que são insubstituíveis. É muito difícil uma família de classe baixa – mas mesmo famílias de outras faixas de renda – conseguir substituir o consumo de energia, de combustível e de gás de cozinha.

    Isso pressiona ainda mais a renda dessas pessoas. A expectativa, então, é que haja uma redução de consumo dessas pessoas. Mas as classes mais baixas neste momento já estão fragilizadas em função da precarização do emprego, queda salarial e fim próximo do auxílio emergencial. A expectativa é que de fato a gente tenha um cenário muito ruim de queda forte do consumo dessa população, que já está muito carente.

    Vivian Almeida O impacto da inflação numa crise é mais uma pressão sobre a vida das pessoas. Associando com o mercado de trabalho, estamos vivendo um cenário dramático, com uma parcela significativa da população sem trabalho. Abrindo para outras faces desse mercado de trabalho, a situação fica ainda pior: há um aumento de desigualdade de participação de homens e mulheres, de população preta e parda e população branca. São grupos que já estavam em vulnerabilidade e que ficaram em um cenário pior nesta pandemia.

    Toda essa pressão passa pela necessidade de uma recuperação econômica, que agora vemos que vem de canais diversos. Vem desse xadrez que o governo tem com relação ao teto de gastos – precisa salvaguardar a população, mas estourar o teto pode ter impactos inflacionários. Passa também pela vacina, que é uma coordenação entre ciência, tecnologia e o governo na distribuição.

    Sobre a alta de alimentos, conta de luz e combustíveis, esperamos que não [continuem por muito tempo]. Essas altas recentes estão correlacionadas com o cenário que estamos vivendo. A inflação dos alimentos está relacionada ao cenário externo e dos gastos internos. Na economia, a demanda responde mais rápido que oferta. Para os preços se acomodarem nessa nova demanda, é necessário ampliar a oferta, mas é mais difícil. De alguma forma, essa reacomodação é o que esperamos para superar essa crise. É claro que a condução das políticas econômicas auxiliam, mas a superação da crise sanitária também é uma condição primordial para que a gente possa estabilizar as expectativas para 2021.

    O ministro Paulo Guedes falou recentemente em risco de hiperinflação. Como avalia a possibilidade?

    Rafael Ribeiro Acho que essa possibilidade é praticamente nula. O mecanismo que se argumenta é que se os gastos do governo aumentarem muito, você pode ter uma fuga de capitais em função de um eventual temor de descontrole das contas públicas. Com essa fuga de capitais, você teria uma valorização do dólar, que puxaria a inflação. Também se argumenta que o aumento dos gastos via emissão monetária vai virar inflação.

    Isso não acontece, primeiro porque muitos setores da economia – principalmente o industrial – têm muita capacidade ociosa. O fator capital ainda está subutilizado. Ou seja, a indústria pode produzir mais, ao preço vigente. Isso significa que mesmo com o eventual aumento dos gastos ou continuidade, por exemplo, do auxílio emergencial, dificilmente a indústria teria pressão de custos.

    Além disso, é muito difícil que você tenha uma expectativa de fuga de capitais que gere um repasse para os preços, porque o Brasil possui um estoque de reservas internacionais muito grande. E as expectativas de inflação estão ancoradas. Ou seja, os agentes ainda acreditam na capacidade do Banco Central de cumprir a meta de inflação. Com expectativas ancoradas e com reservas internacionais, fica muito difícil que você tenha um processo de hiperinflação gerado por fugas de capitais e desvalorização cambial.

    Vivian Almeida Óbvio que é um diagnóstico mais duro. Mas está dentro do contexto do xadrez do governo. Um descontrole fiscal poderia rapidamente desencadear um risco inflacionário. Me parece que o risco hiperinflacionário no curto prazo é um cenário pouco provável. Mas as previsões são sempre olhadas enquanto a história está sendo contada, é preciso ter cautela.

    Mas a questão do descontrole fiscal é um risco para a inflação. Por isso essa discussão toda com relação ao teto de gastos, e por isso a fala do ministro de que poderia haver um risco de hiperinflação.

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