A relutância dos russos diante da vacina Sputnik-V

Pesquisa mostra que 59% da população do país prefere esperar para tomar a substância contra a covid-19. Imunizante está sendo aplicado em profissionais de saúde e em pessoas consideradas vulneráveis

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Autoridades sanitárias da Rússia deram início no sábado (5) a uma campanha de imunização contra a covid-19, começando pela capital, Moscou, mas 59% da população do país diz que não pretende tomar a substância agora, nem que ela seja dada de graça.

O Sputnik-V, como foi batizado o imunizante desenvolvido pelo Centro de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya, da Rússia, promete 95% de eficácia contra o coronavírus, mesmo que a substância não tenha concluído ainda todas as fases de testes – a Sputnik-V está na terceira e última fase, assim como outros imunizantes similares, desenvolvidos por grandes laboratórios de outros países.

Até esta terça-feira (8), a única vacina a passar por todas as fases de testes que está sendo usada em campanhas nacionais, no caso, no Reino Unido, é a da farmacêutica Pfizer, elaborada conjuntamente com a empresa BioNTech.

O anúncio da descoberta do imunizante russo foi feito no dia 11 de agosto de 2020 pelo presidente Vladimir Putin, em tom ufanista e nacionalista. Na ocasião, o presidente russo proclamou que seu país havia sido o primeiro do mundo a desenvolver um imunizante eficaz contra a covid-19, mesmo que, à época, a substância não tivesse passado por todas as fases de testes.

O nome escolhido, Sputnik-V, faz referência ao primeiro satélite artificial lançado pelo homem em órbita, em 1957, quando a Rússia impôs derrota aos americanos na corrida espacial que se estabeleceu durante a Guerra Fria (1945 a 1991).

O tom politizado do anúncio, feito de forma precoce por Putin, pode ser um dos fatores que despertam desconfiança na população russa em relação à Sputnik-V, como demonstram depoimentos colhidos pelo correspondente do jornal americano The New York Times em Moscou, Anton Troianovski, numa reportagem publicada na segunda-feira (7).

“Eu não pretendo tomar a vacina, porque metade da população diz que isso não é uma boa ideia. Não tem a menor chance de que essa vacina seja testada normalmente”, disse uma das entrevistadas, a musicista Valery Patrin.

Alexei Navalny, o mais conhecido detrator do presidente russo, tem manifestado desconfiança com a Sputnik-V, o que aumenta o clima de polarização política em torno da substância no país.

Navalny foi internado em agosto após entrar em coma por ingerir o que médicos alemães e governos europeus terem dito ser um agente nervoso desenvolvido na Guerra Fria pelo antigo serviço secreto soviético, a KGB, órgão de origem de Putin.

O que diz a pesquisa de opinião

A pesquisa de opinião feita pelo instituto Levada Center, de Moscou, entre os dias 22 e 28 de outubro, com 1.600 entrevistados em áreas urbanas e rurais de todo o país, detectou um alto índice de desconfiança em relação à vacina anunciada por Putin.

A pesquisa não detectou sinais significativos de negacionismo em relação à doença em si, muito menos uma resistência generalizada a campanhas de vacinação como tal. O problema é com a Sputnik-V.

Entre os entrevistados, 92% dizem, por exemplo, usar máscaras em locais públicos, o que demonstra adesão às regras sanitárias em geral. Do total de pessoas que responderam à pesquisa, 64% dizem temer contrair o vírus. Mais de 60% concordam com as restrições impostas pelo governo às viagens dentro e fora do país e mais de 50% apoiam o fechamento do comércio para barrar a transmissão da covid-19.

Só 1% dos entrevistados diz ser contra vacinas de forma geral. Porém, quando a pergunta é se os russos pretendem se vacinar agora, 59% dizem não. Em muitas entrevistas publicadas pela imprensa, cidadãos russos dizem preferir esperar que outras pessoas tomem o imunizante primeiro.

Na Rússia, a Sputnik-V está sendo dada de graça, mas por enquanto vacinação é restrita a profissionais de saúde e outras categorias consideradas especialmente expostas ao vírus, excluindo os maiores de 60 anos.

A Sputnik-V deve ser administrada em duas doses. A agência de notícias estatal russa, que também se chama Sputnik, diz que “o processo [de imunização] toma cerca de uma hora: dez minutos para exame médico antes da administração da vacina, cerca de 15 minutos para preparar o medicamento e 30 minutos nos quais o paciente deve ficar sob observação médica”. Em seguida, o paciente recebe um SMS quando é chamado para a segunda dose.

A agência informa ainda que o imunizante custará US$ 10 a dose no exterior, o que, de acordo com o governo, é um preço “duas vezes inferior ao dos concorrentes” similares.

Regras excepcionais na pandemia

A campanha de vacinação que teve início no sábado (5), em Moscou, é apresentada pelo governo local como o início da administração em massa de uma substância segura e eficaz. Porém, ela ainda faz parte da terceira e última fase de testes, na qual o imunizante é administrado a um grande número de pacientes, em grupos temáticos restritos e sob monitoramento.

A excepcionalidade da pandemia da covid-19 – que, até terça-feira (8), havia matado 1,5 milhão pessoas no mundo, 44 mil delas na Rússia – fez com que regras sanitárias fossem simplificadas, em caráter emergencial, em várias partes do mundo, não apenas na Rússia, possibilitando a administração em massa de substâncias que, em circunstâncias normais, ainda teriam circulação restrita.

A autorização para o uso de imunizantes em caráter emergencial é uma saída excepcional. Ela tem sido usada por muitos países e por muitos laboratórios do mundo durante a pandemia. No Brasil, por exemplo, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) anunciou na quarta-feira (2) um pacote de regras especiais para regular o uso de imunizantes, a partir de 2021, que ainda estejam na terceira fase de testes.

Essas regras determinam, por exemplo, que a aplicação do imunizante deve ser feita em grupos restritos da população (profissionais de saúde e idosos, por exemplo). Além disso, essas substâncias não podem ser comercializadas na rede privada, e precisam de autorização estrita da Anvisa para entrar no país.

Regras excepcionais semelhantes foram adotadas pelo Reino Unido e pela China, que saíram na frente com seus programas de imunização. A diferença está nos critérios de transparência ao longo das pesquisas e nos mecanismos de controle externo para aferir se essas substâncias são seguras e eficazes como seus fabricantes dizem ser.

No caso russo, as garantias apresentadas pelo governo Putin são recebidas com desconfiança pela maioria da população, mas é possível que uma campanha que se mostre exitosa na imunização dos moradores da capital termine por fomentar uma imunização extensiva no país inteiro na sequência, o que colocaria a Sputnik-V em condição competitiva para exportação.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que a vacina russa Sputnik-V começaria a ser dada a grupos vulneráveis, incluindo idosos. A campanha de vacinação em Moscou, no entanto, exclui maiores de 60 anos. A informação foi corrigida às 6h23 do dia 9 de dezembro de 2020.

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