Por que a bolsa de valores já recuperou as perdas da pandemia

No início de dezembro, Ibovespa registra mesmo patamar da segunda metade de fevereiro. O ‘Nexo’ conversou com um professor de finanças para entender o movimento

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    A bolsa de São Paulo está em alta no final de 2020. Quase dez meses após o início do tombo histórico causado pela pandemia do novo coronavírus, o Ibovespa – principal índice da bolsa brasileira – retornou na primeira semana de dezembro ao patamar da segunda metade de fevereiro.

    RECUPERAÇÃO

    Trajetória do Ibovespa em 2020. Forte queda em fevereiro e março, recuperação gradual até em dezembro retornar ao mesmo patamar de antes da crise

    O Ibovespa é um índice que reúne as principais ações num pacote pensado para representar a bolsa brasileira, a Bovespa (ou B3). Sua composição é reavaliada a cada quatro meses.

    O Ibovespa é comumente usado como sinônimo da bolsa brasileira, mas é só um índice. A bolsa é composta por mais empresas. Por convenção, quando se diz que a bolsa subiu 1%, quer dizer que o valor do Ibovespa em pontos aumentou 1%. Saiu, por exemplo, de 100 mil para 101 mil pontos.

    A trajetória da bolsa em 2020

    Nos primeiros 50 dias do ano, o Ibovespa ficou praticamente estável, flutuando na faixa dos 115 mil pontos. Essa pontuação reflete o valor do conjunto das ações consideradas pelo índice, considerada a importância de cada uma e portanto seu peso no pacote de ativos que forma o Ibovespa.

    No entanto, o cenário mudou a partir do final de fevereiro. As bolsas do mundo todo, que já caíam em razão da preocupação dos mercados com o avanço do novo coronavírus em diversos lugares do planeta, sofreram dois baques, num curto espaço de tempo.

    Na semana útil entre 9 e 13 de março, o valor do barril de petróleo tombou e a OMS (Orgazaniação Mundial da Saúde) decretou estado de pandemia. As bolsas despencaram ao redor do globo.

    Não foi diferente no Brasil, que ainda teve um agravante: o presidente Jair Bolsonaro, então com suspeita de estar infectado pelo vírus, abriu uma crise institucional ao promover ataques contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal em Brasília. Em 23 de março, o Ibovespa atingiu seu ponto mais baixo no ano, acumulando uma desvalorização de 45% em relação ao início de 2020.

    Após passar a maior parte de abril estável na faixa dos 80 mil pontos, o Ibovespa voltou a crescer em maio e junho. Por mais que a curva do crescimento tenha sido tímida, ela ajudou a recuperar parte das perdas dos primeiros meses do ano.

    Na comparação internacional, a bolsa brasileira mostrava alta volatilidade, com uma das quedas mais acentuadas do planeta no primeiro trimestre, mas uma das recuperações mais fortes no segundo.

    A bolsa brasileira no segundo semestre

    Entre julho e outubro, o Ibovespa flutuou em torno da faixa dos 100 mil pontos, e só voltou a crescer com mais força em novembro. No penúltimo mês do ano, não só a bolsa ganhou tração, como atingiu marcas historicamente altas.

    15,9%

    foi a valorização do Ibovespa em novembro de 2020

    Em novembro, a bolsa teve seu melhor mês desde março de 2016 – mês de avanço do impeachment de Dilma Rousseff em Brasília. Também foi o melhor novembro desde 1999.

    A bolsa brasileira acompanhou o movimento internacional de valorização no penúltimo mês do ano. Outros índices pelo mundo também tiveram altas históricas, como o Dow Jones Industrial Average – um dos principais índices da bolsa de Nova York –, que atingiu 30 mil pontos pela primeira vez na história em 24 de novembro. Índices na Europa e na Ásia também tiveram altas consideráveis.

    O otimismo dos investidores foi puxado principalmente pela divulgação de resultados positivos sobre as vacinas contra o coronavírus. Mas outros fatores também ajudaram a impulsionar os mercados, como o resultado das eleições americanas, com a vitória do democrata Joe Biden e a diminuição das incertezas sobre o futuro da política nos EUA.

    Ao longo do segundo semestre, bolsas de países como EUA, Japão e Alemanha também recuperaram o patamar anterior à pandemia, com avanços mais fortes em novembro.

    O perfil dos investidores no Brasil

    Nem mesmo o novo avanço da pandemia no Brasil foi suficiente para frear a empolgação dos investidores. No mês, investidores estrangeiros colocaram R$ 33,3 bilhões na bolsa de São Paulo, batendo o recorde da série histórica iniciada em 2007.

    Mesmo assim, no ano, o saldo de entrada e saída de dinheiro de fora continuou (e continua) negativo. A retirada de dinheiro pelos investidores estrangeiros ficou em quase R$ 32 bilhões nos primeiros onze meses do ano – isso já contando compras de ofertas públicas iniciais de ações (IPOs).

    O ano de 2020 também ficou marcado pelo boom da participação de pessoas físicas na bolsa brasileira, dando continuidade ao movimento que ganhou força em 2019. Mais de 3,1 milhões de pessoas estavam na bolsa em novembro, o que representa quase o dobro de investidores individuais na comparação com o final de 2019.

    A recuperação da bolsa acontece em paralelo à retomada lenta da atividade econômica no Brasil. O PIB do terceiro trimestre de 2020, divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na quinta-feira (3), ficou abaixo do esperado e não foi suficiente para recuperar as perdas do primeiro semestre. O desemprego, por sua vez, acumula altas históricas consecutivas, com perspectiva de crescer ainda mais com o fim do auxílio emergencial no início de 2021. A inflação também dá sinais de alta, puxada pelos alimentos. E o governo segue com indefinições a respeito do Orçamento de 2021, enquanto a dívida pública avança.

    A recuperação da bolsa sob análise

    O Nexo conversou com Henrique Castro, professor de finanças FGV-EESP (Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas), para entender como a bolsa brasileira voltou no final de 2020 aos patamares pré-crise.

    Por que a bolsa voltou ao patamar pré-pandemia mesmo com a crise ainda em andamento?

    Henrique Castro Expectativas. Expectativas de que estamos nos aproximando de uma vacina que funcione. No mês passado, muitos setores que tinham sido os mais atingidos pela pandemia, como empresas de setor aéreo e entretenimento, tiveram uma recuperação alta, coisa que não vinha acontecendo até então. Em novembro, já com perspectiva de início de vacinação em alguns locais e resultados das terceiras fases de algumas vacinas, isso gerou expectativas favoráveis no mercado. E aí temos visto esses setores se recuperando.

    De fato, o nosso cenário não é um cenário que indique que nossa economia está recuperada. O PIB [do terceiro trimestre] cresceu em relação ao trimestre anterior, mas ainda está bem abaixo do mesmo período do ano passado. Alguns segmentos até comemoraram a alta do PIB, mas não podemos esquecer que essa alta só veio porque estávamos, no segundo trimestre, em um período muito ruim. O resultado indica que melhoramos, mas em relação a uma base muito baixa – não quer dizer que estamos bem.

    O cenário econômico ainda preocupa porque ainda temos que recuperar uma série de investimentos que precisam ser feitos para que a economia cresça. Temos ainda muito espaço para recuperar a economia. As pequenas empresas e principalmente as empresas relacionadas ao setor de serviços foram muito afetadas. Se houver ou se estivermos de fato na segunda onda (o que é difícil de identificar claramente), esse setor ainda vai sofrer absurdamente.

    Nós temos um plano de vacinação que ainda não foi esclarecido para a população do país. Em São Paulo, o governo quer iniciar a vacinação em 25 de janeiro, mas ainda faltam detalhes. Essa é a má notícia, essas são as coisas que preocupam. Esse é o lado das coisas que acendem um alerta. Por outro lado, na terça-feira [8] o Reino Unido começa a vacinação. No final de semana, a Rússia começou o processo de vacinação – talvez mais polêmico que o do Reino Unido, mas já é algo.

    E esses sinais foram os mais importantes para gerar a recuperação em novembro. O que precisamos ver é se vamos avançar com relação a isso [no Brasil]. O governo seguramente precisa fazer a parte dele, precisa dar sinais que vai levar adiante as reformas que foram prometidas e que estão na expectativa do próprio mercado. Havia uma certa tolerância por parte dos analistas e do próprio mercado porque estávamos em período eleitoral, mas a eleição passou. Agora precisamos voltar à expectativa de recuperação e o governo tem um papel importante de tocar essas medidas. Se nada for feito no sentido de reanimar a economia, vamos ver o desemprego subindo, as empresas quebrando, e o PIB talvez não cresça na velocidade que a gente espera no futuro.

    Em termos das expectativas para a economia brasileira, quais as diferenças entre o cenário do final de 2020 e aquele do início do ano?

    Henrique Castro Acho que mudou bastante. O que existia no início do ano era uma grande euforia, [uma crença] que 2020 seria um ano de plena recuperação da crise da qual a gente vinha saindo desde 2017. Havia a expectativa de um PIB em recuperação, de uma série de aberturas de capital de empresas – novas empresas entrando na bolsa em busca de captação de recursos – e geração de empregos.

    E então, veio esse meteoro que ninguém esperava, que foi essa doença. E tudo deu para trás. O que temos hoje é um processo de recuperação que demorou dez meses para que voltássemos ao nível em que estávamos em fevereiro. Tivemos uma queda abrupta, muito rápida, em um período de um mês. E então houve esse período todo de recuperação nos nove meses subsequentes. Foi uma recuperação lenta, que podemos chamar de uma recuperação em L [forte queda, recuperação demorada] do mercado de capitais.

    Hoje, temos uma recuperação ainda num cenário de muita incerteza econômica. Algumas empresas abriram capital, mas várias empresas tomaram a decisão de retardar esse processo – estão esperando 2021 para saber como o mercado vai reagir. Na prática, nenhuma empresa quer abrir capital em um momento que os mercados estão muito deprimidos, preços estão muito baixos. Nesses momentos, a expectativa é de captar menos do que esperaria captar em um cenário mais favorável. De certa forma, ainda vemos sinais de empresas que estão com um pé no freio.

    Apesar de [o Ibovespa em fevereiro e em dezembro] ser o mesmo número (ou muito parecido), antes tínhamos muito otimismo. E agora temos muita cautela.

    A alta da bolsa brasileira é sustentável? Quais fatores poderão influenciar sua trajetória nesta virada de ano?

    Henrique Castro Se tivermos números mais altos da pandemia, isso vai fazer com que muito daquilo que foi lentamente sendo conquistado – essa abertura do comércio e dos serviços e as perspectivas de abrir as escolas – tenha um retrocesso. E isso pode afetar o mercado de capitais. Esse otimismo cauteloso que mencionei pode virar pessimismo novamente.

    Do mesmo jeito que temos uma expectativa de que as coisas melhorem – e essa expectativa é muito causada pela perspectiva de vacinação –, se nossos números subirem demais, o comércio e o mercado sabem que as coisas vão piorar novamente. E aí os números [da bolsa] vão refletir isso.

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