O plano de vacinação do Reino Unido. E a situação do Brasil

Com investimento em sete vacinas, britânicos começam imunização de profissionais de saúde e idosos, enquanto brasileiros assistem a uma disputa política com planejamentos descoordenados

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Quase uma semana após ter se tornado o primeiro país do Ocidente a aprovar o uso emergencial de uma vacina contra a covid-19, o Reino Unido será a primeira nação a aplicar em grupos prioritários um imunizante que passou por todas as etapas de testes em humanos. A vacinação começa na terça-feira (8). Países como China e Rússia já administram vacinas experimentais sem que tenham completado testes em larga escala.

Apelidada de “O Dia V” pelo ministro da Saúde do Reino Unido, Matt Hancock, a iniciativa vai atender primeiro os profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate ao novo coronavírus e idosos com 80 anos ou mais. Eles vão receber duas doses da vacina desenvolvida pelo laboratório americano Pfizer em parceria com a alemã BioNTech. As empresas anunciaram em 18 de novembro que o imunizante apresentou 95% de eficácia na última etapa dos ensaios clínicos.

Enquanto o Reino Unido coloca em prática seu plano de vacinação, o Brasil anunciou dois planejamentos descoordenados entre si em meio a uma disputa política entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). O país é o segundo em número de mortos pela infecção no planeta, atrás apenas dos Estados Unidos.

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era o número de infectados pelo coronavírus no Brasil até a segunda-feira (7), segundo o Ministério da Saúde

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era o número de mortos pela doença, até a mesma data, de acordo com a pasta

Na segunda-feira (7), Doria anunciou um plano regional de vacinação no estado com início em janeiro, mesmo sem os resultados dos testes da Coronavac, vacina do laboratório chinês Sinovac que será produzida no Brasil pelo Instituto Butantan, ligado ao governo paulista.

A iniciativa aumenta a pressão sob o governo federal, que havia anunciado no início de dezembro a intenção de começar uma vacinação nacional apenas em março, sem datas exatas. Por causa da indefinição do governo federal, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), pretende votar uma medida provisória para que o Congresso possa estabelecer um plano para aquisição de vacinas mesmo sem o Executivo.

O Brasil vem apresentando um aumento de casos e mortes desde novembro e especialistas temem que os números piorem após as festas de fim de ano, devido às aglomerações. A seguir, o Nexo lista como o Reino Unido e o Brasil traçaram caminhos diferentes em suas políticas para combater a pandemia por meio de planos de imunizações.

O plano britânico

O Reino Unido tem 67 milhões de habitantes, menos de um terço da população brasileira. Até o final de novembro, o governo britânico já havia garantido a compra de 357 milhões de doses de vacinas de sete laboratórios diferentes. Algumas delas ainda estão nas etapas iniciais de testes em humanos ou mesmo na fase pré-clínica, como o imunizante do laboratório francês Valneva.

Investimento do Reino Unido

Acordos do Reino Unido com laboratórios para a compra de vacinas para 2021

“A cada semana, temos mais notícias positivas sobre várias vacinas em desenvolvimento, e graças ao trabalho de nossa força-tarefa, o Reino Unido encomendou centenas de milhares de doses das companhias que estão com as pesquisas mais avançadas”

Matt Hancock

ministro da Saúde do Reino Unido, em declaração ao site do governo britânico, no final de novembro

O ministro dos Negócios do Reino Unido, Alok Sharma, justificou a decisão de ampliar o portfólio britânico de candidatas a vacinas como uma medida necessária para assegurar “a melhor posição possível para proteger a população” assim que as primeiras delas funcionarem. O país deu início em junho a uma força-tarefa em busca de vacinas. Ao todo, o país gastou £ 230 milhões, o equivalente a R$ 1,6 bilhão — em valores do início de dezembro.

Segundo o governo britânico, seu programa de vacinação contra a covid-19 tem como prioridade “prevenir mortes pela doença e preservar o sistema de saúde e assistência social”. “Como o risco de morte por covid-19 aumenta com a idade, a prioridade é baseada principalmente nesse critério”, diz o governo britânico em seu site.

No Reino Unido, um em cada cinco habitantes tem mais de 65 anos, o que equivale a 18,3% da população, segundo dados de 2018. A primeira etapa delimita a vacinação para grupos prioritários, considerados mais vulneráveis à covid-19. Em primeiro lugar estão os moradores de instituições para idosos e seus cuidadores. Em seguida, aparecem as pessoas com 80 anos ou mais e os trabalhadores das áreas de saúde e assistência social. Depois, o governo separou a população em sete outros grupos por faixa etária acima dos 50 anos. Pessoas com doenças crônicas a partir dos 16 anos também serão vacinadas.

Na prática, porém, o segundo grupo será vacinado primeiro devido às dificuldades no armazenamento da vacina da Pfizer, que precisa ser mantida a - 70ºC. A primeira leva de imunizantes da empresa a chegar no país, com 800 mil doses, será restrita a 50 hospitais, onde serão vacinados trabalhadores da saúde e idosos com 80 anos ou mais com agendamento. O sistema público de saúde britânico tem cerca de 150 mil médicos e mais de 330 mil profissionais de enfermagem. Cada pessoa precisará tomar duas doses, com um mês entre elas.

Numa segunda etapa, ainda sem data, serão vacinados os socorristas, militares, trabalhadores da Justiça, professores, trabalhadores do transporte e servidores públicos em funções essenciais no combate à pandemia. Uma terceira etapa, para o resto da população, ainda será anunciada.

Diferentemente do que acontece nos Estados Unidos, a agência regulatória britânica, conhecida pela sigla MHRA, concede autorizações temporárias para uso de vacinas com base nos resultados apresentados pelos laboratórios. Apenas depois de uma análise mais minuciosa dos dados, a autorização final é dada mas, enquanto isso, ela pode ser usada. Nos Estados Unidos, pelo contrário, uma vacina só é liberada após checagem dos dados brutos, o que demanda mais tempo.

O plano brasileiro

O Brasil tem 210 milhões de habitantes, mais de três vezes a população do Reino Unido, cujo sistema público de saúde serviu de inspiração para o SUS (Sistema Único de Saúde). Dois planos preliminares de vacinação, sem coordenação entre si, já foram anunciados no país por níveis distintos de governo: o do Ministério da Saúde, com previsão de início em março de 2021, e o do governo do estado de São Paulo, anunciado para janeiro de 2021.

O ministério é responsável pelo bem-sucedido PNI (Programa Nacional de Imunizações), criado em 1973, ainda durante a ditadura militar, e que eliminou doenças como poliomielite, sarampo, rubéola e tétano neonatal. Por meio da iniciativa, o governo federal prevê distribuir a vacina da Universidade de Oxford feita em parceria com o laboratório anglo-sueco AstraZeneca. O acordo de R$ 1,9 bilhão incluiu a compra de 100,4 milhões de doses, mas a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) planeja produzir outras 110 milhões de doses até o final de 2021.

Em novembro, a AstraZeneca publicou resultados preliminares da última fase de testes da vacina apontando que a eficácia poderia chegar a 90%. O laboratório reconheceu um erro na pesquisa e os dados foram contestados por outros pesquisadores.

Além disso, o governo federal aderiu ao Covax Facility uma aliança coordenada pela OMS (Organização Mundial de Saúde) com mais de 150 países criada para impulsionar o desenvolvimento de vacinas. O Brasil já pagou em outubro R$ 830 milhões da primeira parcela de um gasto total que pode chegar a R$ 2,5 bilhões. A iniciativa prevê 40,5 milhões de doses de um dos nove imunizantes que se mostrar mais promissor. Entre as opções estão a própria vacina de Oxford e a da Moderna, mas a lista não inclui a vacina da Sinovac, testada em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo.

O investimento do Brasil

Previsão de vacinas disponíveis no Brasil em 2021

O plano do governo federal é iniciar a vacinação em quatro fases, começando em março com trabalhadores da saúde, população com mais de 75 anos, pessoas com 60 anos ou mais que vivem em asilos ou instituições psiquiátricas e população indígena. Na segunda fase então pessoas entre 60 a 74 anos. Segundo dados do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas, pessoas com 65 anos ou mais representam 10,53% da população brasileira.

Depois, viriam pessoas com doenças (como problemas cardiovasculares e renais) que apresentam maior chance para agravamento da covid-19. Por fim, estariam professores, forças de segurança e salvamento, funcionários do sistema prisional e detentos. O plano é preliminar para grupos prioritários e ainda não há definição sobre a vacinação para o resto da população. Na segunda-feira (7), Bolsonaro foi às redes sociais falar sobre o tema.

Em havendo certificação da Anvisa (orientações científicas e os preceitos legais), o governo brasileiro ofertará a vacina a toda a população de forma gratuita e não obrigatória

Jair Bolsonaro

presidente da República, em post no Facebook

No final de novembro, o Ministério da Saúde disse que se reuniu com cinco laboratórios (Pfizer, Janssen, Bharat Biotech, Fundo Russo de Investimento Direto e Moderna) que têm vacinas em fase avançada de desenvolvimento. A ideia era discutir acordos de compra.

“Ficou muito óbvio que são muito poucas as fabricantes que têm a quantidade e cronograma de entrega efetivo para nosso país. Quando a gente chega no fim das negociações e vai para cronograma de entrega, fabricação, os números são pífios. Números em grande quantidade, se reduz a uma, duas, três ideias”

Eduardo Pazuello

ministro da Saúde, em anúncio sobre o plano do governo federal, no início de dezembro

Na segunda-feira (7), o Ministério da Saúde informou que avançou em negociações para a compra de 70 milhões de doses da vacina da americana Pfizer e a alemã BioNTech, principal aposta do Reino Unido. Não foram divulgados detalhes de quando o imunizante poderá começar a ser aplicada no Brasil.

O plano paulista

A outra iniciativa é do governo paulista. Doria anunciou na segunda-feira (7) que a vacinação no estado com a vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac terá início em 25 de janeiro, no aniversário da capital paulista. O estado tem uma população de 46,3 milhões de habitantes. Eleito para o governo paulista na onda bolsonarista de 2018, Doria desde então se tornou adversário do presidente e pretende concorrer à Presidência nas eleições de 2022. A condução do combate à pandemia e a vacinação se tornou um dos principais pontos de disputa entre os dois.

Os resultados de eficácia e segurança da última fase de testes com a Coronavac, como é chamada a vacina da Sinovac, ainda não foram divulgados. Para a vacinação ocorrer também é necessário a aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), ligada ao governo federal. Na segunda-feira (7), a agência disse em nota não ter recebido os dados essenciais para a análise do imunizante.

A ação em São Paulo teria início com idosos, profissionais de saúde, indígenas e quilombolas. Serão duas doses, com intervalo de 21 dias entre elas. Depois, será aplicada em grupos por idade: 75 anos ou mais (com a primeira dose em 8 de fevereiro), de 70 a 74 anos (15 de fevereiro), de 65 a 69 anos (22 de fevereiro) e 60 a 64 anos (1º de março). As outras fases ainda serão anunciadas.

Durante o anúncio, Doria criticou Bolsonaro por seu plano de vacinação para março sem incluir a Coronavac. Ele disse ser “triste” para o Brasil ter “um presidente que não tem compaixão pelos brasileiros”.

“Todo e qualquer brasileiro que estiver em São Paulo e pedir a vacina receberá gratuitamente. Não precisará comprovar residência em São Paulo. Nós fazemos parte do Brasil. E aqui vacinaremos todos que precisarem ser vacinados”

João Doria

governador de São Paulo, ao anunciar o plano de vacinação na segunda-feira (7)

O planejamento nacional sob análise

Para discutir os planos de vacinação contra a covid-19 apresentados no Brasil, o Nexo conversou com Gulnar Azevedo e Silva, professora titular do Instituto de Medicina Social da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva).

Como avalia os planos de vacinação apresentados no Brasil?

GULNAR AZEVEDO A posição da Abrasco é: por que a gente não fortalece uma política muito bem-sucedida no Brasil, que é o Programa Nacional de Imunizações? Esse programa, com uma experiência de 47 anos, conseguia fazer no Brasil todo, num único dia, uma campanha para a vacina que estivesse incorporando. Fazer dessa forma, com um estado [São Paulo] saindo na frente? Os outros estados ficam como? Tem uma fratura num programa que era tão bom e nacional. É preciso fortalecer isso.

Por outro lado, a gente sabe a dificuldade que está sendo a politização da vacina, com a briga entre o governo federal e o de São Paulo. O povo não tem nada a ver com essa disputa. Quem fica na ponta sofrendo é a população, que precisa de vacina, que está entendendo que o momento é grave. E fica essa disputa. A nossa posição é que tem que ter no Brasil quantas vacinas forem necessárias, aprovadas com eficácia, que passem pela Anvisa, que sejam regulamentadas, em quantidade para suprir a nossa necessidade.

Se hoje tenho duas vacinas aprovadas, elas têm que servir a todos os estados, e o governo federal tinha que considerar isso. É um absurdo ter que passar por essa briga política neste momento. Se a gente ficar nessa disputa, a gente vai ter essa vacina quando? Quando a gente vai ter uma situação mais tranquila em relação à pandemia?

Por que ficamos atrás na corrida por uma vacina?

GULNAR AZEVEDO A discussão não está sendo feita da forma como era antigamente, no PNI. O PNI fazia uma discussão aberta. Trazia especialistas. Estavam lá todas as pessoas que entendiam de vacina, mas também pediatras, imunologistas, virologistas. Tinha sanitaristas, epidemiologistas, um corpo capaz de fazer isso: assessorar de uma forma muito bem-feita. O comitê técnico do PNI foi extinto no início do governo Bolsonaro. E aí ficou uma coisa meio acéfala, com algumas pessoas até técnicas e bem intencionadas, mas a estrutura que existia não tem mais. E agora a gente tem que lidar com a pandemia que nunca ninguém viveu nessa esfera de crise, e o governo não tem como dar uma resposta. A gente tem pessoal capacitado, mas essa situação toda, infelizmente, foi desmontada.

O Brasil poderia ter se adiantado e avançado, como a Argentina está. Ela vai começar a vacinar. É um país da América Latina mais pobre que o Brasil, mas vai começar a vacinar porque teve planejamento, porque correu atrás. A gente está refém de uma política muito ruim do governo federal. Poderia ter investido um pouco antes e dado financiamento. O desenvolvimento de vacinas não é uma coisa barata. Envolve muita tecnologia, muito pessoal bem treinado e especializado. Poderia ter pensado: ao mesmo tempo em que estamos comprando, vamos desenvolver aqui, mas não houve planejamento e não tem investimento. A gente está com a corda no pescoço, correndo contra o tempo. Se você promete a vacina para março, até lá quantas mortes vamos ter?

A gente torce para que uma campanha nacional saia logo, mas para isso é necessário sobretudo ouvir os pesquisadores, as pessoas que conhecem isso. A gente não tem uma campanha clara de comunicação, a gente não tem uma política definida, um plano de vacinação definido. Na hora que começar, não vai ter vacina para todo mundo. Vai ter que ter grupos prioritários, que são os que estão com mais risco de evoluir mal a doença. Isso tudo tem que estar muito claro e definido, mas não pode demorar. Ao mesmo tempo que está vacinando, está produzindo mais para vacinar o próximo grupo, até que chegue a toda a população. O plano inglês é ótimo. Tem vários grupos prioritários, mas tem sequência. Vai chegar numa hora em que se atingiu a necessidade.

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