A aposta do governo num tratamento precoce que não existe

Equipe do Ministério da Saúde e peças publicitárias oficiais ignoram evidências e incentivam população a procurar hospitais logo nos primeiros sintomas da doença

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Com o segundo maior número de mortes por covid-19 no mundo registrado ao longo de quase nove meses de pandemia, o Brasil ainda mantém em sua política nacional de combate ao novo coronavírus a orientação para que pessoas que apresentem os primeiros sintomas da doença busquem tratamento precoce nos hospitais, embora não haja até dezembro de 2020 qualquer remédio ou vacina contra a infecção.

A pandemia voltou a avançar no país em novembro, levando os sistemas de saúde do Sul e do Rio de Janeiro ao colapso. O Ministério da Saúde nega que o Brasil passe por uma segunda onda, e fala em “repique” de casos. Sem estratégias para conter a nova expansão da doença e contrário às medidas de isolamento social, o governo diz que só deve agir quando houver um aumento consistente nas mortes.

Especialistas temem uma explosão de casos durante as festas de fim de ano. Em entrevista a jornalistas no final de novembro, ao ser questionado sobre quais recomendações seriam feitas à população para evitar que isso aconteça, o secretário-executivo da pasta, Élcio Franco, respondeu que o governo irá enfatizar as orientações para que as pessoas procurem um médico o quanto antes e recebam tratamento precoce — com hidroxicloroquina e o antibiótico azitromicina, remédios que têm sido divulgados pelo presidente Jair Bolsonaro, apesar de não funcionarem contra a covid-19.

“Nós temos evidências científicas de determinados medicamentos, e aqueles que dizem que não há evidências científicas são os verdadeiros negacionistas”, afirmou. Ele não especificou a quais evidências se referia.

Especialistas alertam que a estratégia de buscar hospitais com sintomas leves pode sobrecarregar mais ainda o sistema de saúde. Em dezembro, Rio de Janeiro e Curitiba registravam filas de espera para vagas de internação. A medida mais adequada seria a testagem de pessoas com sintomas e que tiveram contato com casos confirmados, seguida de um isolamento. Sintomas como falta de ar e baixa oxigenação do sangue (que pode ser medida com oxímetros comprados em farmácias) são mais graves e exigem consulta com um médico.

O que é tratamento precoce

O diagnóstico e o tratamento precoce para doenças com alto grau de letalidade, como alguns tipos de câncer, são medidas defendidas pela medicina para ajudar a salvar vidas. O problema é que esse tipo de tratamento não existe para a covid-19. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), não existem opções para tratamentos profiláticos, ou seja, que impeçam o desenvolvimento de formas graves da covid-19 se tomados precocemente.

Pessoas com quadros leves, que não tenham tido falta de ar ou queda na oxigenação do sangue, costumam ser medicadas com analgésicos e antitérmicos e logo liberadas dos hospitais. A recomendação é que voltem para casa e fiquem isoladas. Remédios como a hidroxicloroquina e a azitromicina podem ser receitados apenas por decisão médica, após o paciente ser avisado de todos os efeitos colaterais — a cloroquina pode causar arritmia cardíaca, por isso não é recomendada para pessoas com problemas no coração. Esses medicamentos não devem ser tomadas sem acompanhamento de um médico.

Um painel criado pela Associação Médica Britânica mapeou, até setembro, 23 estudos clínicos que testaram remédios em voluntários infectados pelo novo coronavírus. Apenas o remdesivir (antiviral) e os glicocorticóides (hormônios esteroides) ajudaram a reduzir a mortalidade entre os doentes. Mas isso só aconteceu em pacientes que apresentaram casos graves de internação. O anti-inflamatório dexametasona, por exemplo, ajudou a reduzir o período de ventilação mecânica em pacientes graves, segundo uma pesquisa de setembro. Nada que funcione foi encontrado para casos leves.

A hidroxicloroquina, indicada e produzida pelo governo Bolsonaro, foi testada em sete diferentes ensaios clínicos e não mostrou nenhuma diferença em relação ao grupo que tomou um placebo (substância sem efeito). O resultado foi o mesmo quando o remédio foi combinado no tratamento com a azitromicina (antibiótico), também recomendado pelo governo. Mesmo assim, prefeituras pelo país decidiram distribuir kits com os remédios.

Médicos e profissionais da saúde cobram esforços de farmacêuticas e cientistas no desenvolvimento de tratamentos precoces para a covid-19. Em artigo publicado em novembro na Revista da Associação Médica Americana (JAMA, na sigla em inglês), pesquisadores, entre os quais o epidemiologista Anthony Fauci, chefe da força-tarefa de combate à covid nos Estados Unidos, dizem que enquanto algumas descobertas sobre o tratamento nos estágios avançados – como uso de corticóides – são promissoras, a necessidade de desenvolver tratamentos precoces é “urgente” para diminuir mortes e casos de pacientes que apresentaram sequelas.

Em abril, o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos chegou a criar um programa de aceleração de terapias e vacinas contra a covid-19 em parceria com a iniciativa privada para desenvolver e coordenar pesquisas de tratamentos mais promissores. Em junho, o órgão anunciou a interrupção dos testes com a cloroquina por ela não ter proporcionado nenhum benefício aos pacientes. Estudos com outros remédios continuam sendo feitos.

A recomendação como política de governo

A recomendação para o tratamento precoce contra a covid-19 foi adotada oficialmente em julho pelo Ministério da Saúde, já sob o comando do general Eduardo Pazuello. Na época, os laboratórios do Exército haviam produzido 1,8 milhão de comprimidos de hidroxicloroquina, volume que representava 18 vezes sua produção anual. O medicamento, usado para tratar doentes com malária e artrite reumatóide, foi a aposta do presidente Jair Bolsonaro contra a covid-19. Mas a hidroxicloroquina não se mostrou eficaz contra o coronavírus nos testes realizados.

A mudança nas diretrizes do governo federal contrariava a cartilha elaborada durante a gestão do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, segundo a qual um suspeito de ter se infectado só deveria procurar um hospital de referência se estivesse “com falta de ar”. “Se você está com sintomas de gripe, fique em casa por 14 dias e siga as orientações do Ministério da Saúde para o isolamento domiciliar”, dizia.

A ideia era evitar uma corrida da população aos hospitais, o que poderia sobrecarregá-los e torná-los focos da doença. As estatísticas mostram que cerca de 80% das pessoas com covid-19 manifestam sintomas leves e acabam se curando em casa. Outros 15% precisam de atendimento ambulatorial e 5% podem necessitar de UTIs (Unidades de Terapia Intensiva).

Em abril e maio, Bolsonaro trocou dois ministros da Saúde: Mandetta e Nelson Teich. Com Pazuello no cargo, a pasta passou a seguir a vontade do presidente: não aderiu ao discurso a favor do isolamento social (adotado por governadores e prefeitos, com impacto negativo para a economia), e passou a recomendar o uso da cloroquina para casos leves, sob orientação médica e consentimento do paciente, mesmo sem comprovação da sua eficácia.

Uma reportagem da ONG Repórter Brasil publicada na quinta-feira (3) mostrou que o Ministério da Saúde gastou R$ 88 milhões em propagandas sobre a covid-19 que não mencionam medidas de prevenção preconizadas pela OMS (Organização Mundial de Saúde), como o isolamento social. Uma das peças publicitárias da pasta diz: “Ao perceber sintomas como dor de cabeça, febre, tosse, cansaço, perda de olfato ou paladar, não espere. Procure uma unidade de saúde e solicite o atendimento precoce”. O tratamento se refere à cloroquina.

O que diz o governo federal

Mesmo com todas as evidências demonstrando que a cloroquina não funciona contra a covid, o discurso do Ministério da Saúde ainda era em defesa de um suposto tratamento precoce da doença em dezembro com a hidroxicloroquina e a azitromicina. Durante uma reunião com ministros da Saúde do Mercosul na quinta-feira (3), Pazuello disse que a estratégia “fez e faz diferença”.

Entre junho e agosto, a pandemia no Brasil estabilizou com uma média diária de mais de mil mortes. Esse número caiu lentamente pela metade até novembro, quando voltou a subir. Especialistas evitam falar em segunda onda, como acontece na Europa, porque a primeira sequer acabou.

Na reunião, o ministro afirmou que a “curva [de casos e mortes] do Brasil é alongada, pois é um país com dimensões continentais, diferenças regionais e populacionais”. “Por isso, tivemos impactos em momentos diferentes dependendo de cada região”, disse.

Para epidemiologistas, o país teve várias pandemias dentro de uma única porque não houve uma coordenação nacional de uma política de combate à doença. Contrário às medidas de isolamento social, Bolsonaro atuou contra as quarentenas incentivando aglomerações. Em abril, o Supremo Tribunal Federal reafirmou a autonomia de estados e municípios em decidir sobre os fechamentos de algumas atividades.

No final de novembro, o Ministério da Saúde associou a queda na taxa de letalidade do coronavírus no Brasil à adoção do tratamento precoce. A taxa é calculada dividindo o número de mortes pela quantidade de casos confirmados. Para especialistas, a questão é meramente matemática: o índice caiu porque se testou mais no Brasil em comparação com o início da pandemia, embora a testagem venha caindo em alguns estados desde agosto, e não porque a cloroquina passou a salvar vidas.

Especialistas também argumentam que os médicos atualmente sabem lidar melhor com a doença, além de terem começado a acompanhar mais de perto a evolução do quadro nos pacientes, o que ajuda a reduzir o número de mortes.

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