Como a crise do clima afeta os sistemas de saúde no mundo

Estudo da revista The Lancet mostra que países ricos e pobres não têm infraestrutura sanitária adequada para enfrentar desafios da mudança climática 

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Todos os países, sejam ricos ou pobres, têm sistemas de saúde despreparados para lidar com os desafios da mudança do clima global, segundo um relatório publicado na revista científica The Lancet na quarta-feira (2). O impacto da crise climática inclui fenômenos como o aumento das temperaturas e de eventos extremos, como secas.

A pesquisa, que analisou 101 países, afirma que apenas 51 deles têm planos de preparar a infraestrutura de saúde para a mudança climática, e menos ainda — 4 — disseram ter recursos o suficiente para implementá-los. Entre os países que não têm planos, 48 ainda não verificaram se seus sistemas sanitários estão vulneráveis à crise.

das cidades globais analisadas no relatório da revista The Lancet esperam que a mudança do clima “comprometa seriamente” sua infraestrutura de saúde pública

O estudo se chama “Contagem regressiva”, e teve uma edição anterior em 2016. Os resultados de 2020 trazem um cenário pior, atribuído ao aumento crescente das emissões de gases de efeito estufa e à pandemia do novo coronavírus.

Coordenado por representantes de 35 institutos de pesquisa e de agências da ONU, como a OMS (Organização Mundial da Saúde), o estudo faz uma revisão das descobertas e do consenso científico sobre clima e saúde. Em 2020, o texto traz mais de 260 referências.

Mesmo com o prognóstico preocupante, a pesquisa traz avanços feitos pelos sistemas de saúde nos últimos anos. Entre 2018 e 2019, o setor aumentou em 3% os recursos voltados à adaptação para a crise climática. Os sistemas de saúde também buscam reduzir suas emissões de gases-estufa, que hoje representam de 4% a 6% do total emitido no mundo, segundo o texto.

Qual a relação entre clima e saúde

A crise do clima tem impactos que podem influenciar de forma direta ou indireta a saúde. É o caso de ondas de calor que afetam o bem-estar físico das pessoas, secas que levam à redução da disponibilidade de água e de alimentos, e eventos intensos, como inundações, que podem causar ferimentos graves ou a morte.

A pesquisa da Lancet mostra que, desde 2000, houve um aumento de 54% de mortes relacionadas ao calor entre idosos, atingindo o total de 296 mil óbitos em 2018. O aumento do calor e a seca provocam também mais risco de exposição a incêndios, que podem causar queimaduras e problemas para o coração e os pulmões.

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eventos climáticos extremos que ocorreram de 2015 a 2020 foram relacionados à crise do clima por estudos científicos, segundo o texto

Os danos que a exposição ao fogo causa para a saúde podem ser vistos nas queimadas que se espalharam pela Amazônia em 2019 e 2020. A temporada do fogo na floresta coincidiu com o aumento de 25% das internações entre indígenas por problemas respiratórios causados pela fumaça, segundo estudo do Instituto Socioambiental.

A pesquisa da Lancet traz também dados sobre a agricultura, que perdeu de 1,8% a 5,6% de seu potencial de rendimento entre 1981 e 2019. Por depender da oferta de água, o setor de alimentos pode sofrer perdas em quantidade e em qualidade com o aumento de secas. Outros eventos, como grandes inundações, podem destruir safras. O cenário pode aumentar a insegurança alimentar.

Todos esses danos, diretos ou indiretos, recaem sobre os sistemas de saúde dos países, que passam a receber mais doentes afetados por problemas que seriam imprevisíveis no passado, quando os efeitos da mudança climática tinham menos impacto sobre as populações. A perspectiva é que esses efeitos se intensifiquem nas próximas décadas.

A pesquisa nota que esses danos são desiguais, porque têm mais impacto sobre as populações mais pobres. “A mudança climática interage com as desigualdades sociais e econômicas”, segundo o texto. “Políticas intensivas em carbono levam à má qualidade do ar, à má qualidade dos alimentos e à má qualidade das habitações, o que prejudica desproporcionalmente a saúde de grupos desfavorecidos.”

No Brasil, o estudo identifica problemas como as mortes prematuras causadas pela inalação de poluição no ar, causada pelos transportes.

Os efeitos da mudança do clima na saúde também trazem prejuízos para a economia, segundo o texto. Por causa do calor extremo, o Brasil perdeu mais de 4 bilhões de horas de trabalho em 2019, número 36% maior no início da década de 1990. O cálculo desse prejuízo é expresso em horas por pessoa, ou seja, as horas perdidas por cada pessoa afetada.

A crise do clima

Causas

A mudança climática começa com atividades como a queima de combustíveis fósseis, a agropecuária, o descarte de lixo e o desmatamento, que emitem grande quantidade de gases que acarretam no efeito estufa, fenômeno que torna o planeta mais quente. Entre as emissões de gases, destacam-se as de metano, óxido nitroso e gás carbônico (CO₂), que representa mais de 70% dos lançamentos. São poluidores os setores de energia, transportes e alimentos, entre outros.

Efeitos

A emissão de gases formadores do efeito estufa pelas atividades humanas, intensificadas após a era industrial, tem causado o fenômeno que se chama de aquecimento global. Suas consequências mais visíveis têm sido o aumento das temperaturas do ar e da água, o derretimento de calotas polares e a elevação do nível de mares e oceanos. A expressão “mudança climática” é um sinônimo abrangente de aquecimento global, que engloba outras reações do clima à poluição.

1,2ºC

foi quanto a temperatura média do planeta aumentou em relação ao período pré-industrial, antes do século 19, segundo estudo da Lancet

Previsões

Em 2018, um estudo do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) mostrou que a temperatura mundial poderia aumentar 0,5ºC em uma década se as emissões de CO₂ não tivessem cortes imediatos. Outras projeções mostram que o aquecimento poderia chegar a 6ºC até 2100 se o ritmo da economia continuasse o mesmo. Os efeitos da crise do clima devem se intensificar nas próximas décadas, e, se o aumento das temperaturas se concretizar, o quadro de grandes tempestades, incêndios florestais, escassez de alimentos, inundações e secas severas deve piorar.

Qual a relação com a pandemia

A The Lancet publicou, ao lado do estudo sobre clima e saúde, um editorial em que aponta a relação entre o aquecimento global e o risco de pandemias como a do novo coronavírus, declarada pela Organização Mundial da Saúde em março e com 65 milhões de casos e 1,5 milhão de mortes até o início de dezembro.

Pandemias compartilham a mesma causa que a mudança do clima: a degradação ambiental. Além de elevarem os níveis de carbono na atmosfera, o desmatamento e a expansão desorganizada da agropecuária causam desequilíbrios ecológicos que podem levar à transmissão de novos vírus.

Estudos apontam que o novo coronavírus surgiu provavelmente de um morcego. Do animal, o vírus migrou para um intermediário — como um pangolim, tipo de tamanduá — e acabou se espalhando e se adaptando ao organismo humano. O processo, chamado de “transbordamento”, não acontece por acaso, mas pelo contato forçado entre humanos e esses animais.

O aumento de temperaturas também favorece a transmissão de doenças infecciosas, como a dengue. O estudo da Lancet mostra que, desde a década de 1950, houve um aumento de 15% da incidência de dengue transmitida pelo Aedes albopictus. Houve também alta da malária em determinadas regiões.

Os pesquisadores que assinam o editorial da Lancet consideram que, como clima e saúde são problemas entrelaçados, eles devem ser tratados em conjunto. Os autores propõem que, para sair da crise causada pela pandemia, os países adotem projetos de retomada verde — nome dado à recuperação da economia pelo investimento em setores não poluentes.

“Há uma oportunidade genuína de alinhar as respostas à pandemia e à mudança climática para proporcionar uma tripla vitória: melhorar a saúde pública, criar uma economia sustentável e proteger o meio ambiente. Mas o tempo é curto”

Maria Neira

diretora do Departamento de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Saúde da OMS, após a publicação do relatório da revista The Lancet

O editor-chefe da The Lancet, Richard Horton, afirmou que, “assim como vimos com a covid-19, uma ação retardada [contra a crise do clima] causará mortes evitáveis”.

Trata-se de uma crítica ao que uma série de cientistas chamam de inação dos países. Em 2019, o Índice de Segurança Global de Saúde, criado pela ONG Nuclear Threat Initiative e a Universidade Johns Hopkins, nos EUA, mostrou que nenhum país estava preparado para lidar com pandemias. Eles pontuaram em média 40,2 (de 100 pontos), e 90% não tinham estrutura para se antecipar ou reagir a doenças.

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