Como a Warner abalou o sistema de distribuição de Hollywood

Conglomerado aposta no streaming, em decisão vista como ‘irreversível’ por analistas e críticos de cinema

Estamos com acesso livre temporariamente em todos os conteúdos como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos de assinatura. Assine o Nexo.

    Temas

    Na quinta-feira (3), a Warner Media, um dos principais conglomerados de entretenimento do mundo, anunciou uma decisão que chacoalhou Hollywood.

    Em 2021, o estúdio de cinema Warner Bros. Pictures vai disponibilizar seus principais lançamentos para os assinantes do serviço de streaming HBO Max, marcado para chegar ao Brasil em 2021, no mesmo dia em que as produções chegarem nas salas de cinema que estiverem disponíveis, dadas as incertezas acerca da pandemia do novo coronavírus.

    A decisão, que vale apenas para os EUA, abarca os principais títulos do estúdio, como “Duna”; “Matrix 4”; “O esquadrão suicida”, longa do universo dos quadrinhos DC; e a terceira parte da franquia de terror “Invocação do mal”.

    De acordo com a Warner, trata-se de um modelo excepcional, que, a princípio, vai valer apenas para o ano de 2021, que ainda trará muitas dúvidas acerca da covid-19, doença causada pelo vírus.

    Segundo Toby Emmerich, presidente do estúdio, a decisão foi aceita rapidamente por todo o conglomerado. “Foi algo que levou um minuto”, afirmou ao site Hollywood Reporter na quinta-feira (3).

    “Temos todos esses filmes engavetados, e o público está ávido por conteúdo”, afirmou na mesma entrevista.

    O anúncio segue a decisão da Warner de lançar o filme “Mulher-maravilha 1984no HBO Max e nos cinemas que estiverem abertos no dia 25 de dezembro. Porém, para além do próprio microcosmo da empresa, trata-se de uma jogada sem precedentes.

    Hollywood e a pandemia

    O sistema de estreias em Hollywood é o mesmo desde o início da década de 1980: os estúdios produzem os filmes e fazem o lançamento nas salas de cinema.

    Cerca de três meses depois, os longas ficam disponíveis no mercado de home video: DVDs, blu-rays, aluguel/compra da versão digital e serviços de streaming. Três meses depois disso – ou seja, seis meses após a estreia –, os filmes chegam em canais pagos. E só três anos depois do lançamento podem ser exibidos na TV aberta.

    As decisões podem ser alteradas após avaliação individual de cada caso mas, no geral, esse sistema, conhecido como “janelas de lançamento”, é seguido sem grandes mudanças em um acordo informal entre as produtoras e os exibidores.

    Cinemas, por serem ambientes fechados que reúnem algumas dezenas de pessoas, são ambientes que apresentam alto risco de infecção pelo novo coronavírus. Por isso, na maior parte do mundo, eles seguem fechados e sem uma previsão de reabertura.

    No início da pandemia, decretada pela Organização Mundial da Saúde em 12 de março, estúdios começaram a adiar as estreias do ano e, em alguns casos, a buscar alternativas, apostando no digital como forma de oferecer lançamentos ao público e de manter a saúde financeira das empresas.

    A Universal deu o primeiro passo, anunciando que seus filmes que estavam nos cinemas, como “O homem invisível”, “A caçada” e “Emma” seriam lançados digitalmente para compra e aluguel em plataformas como o iTunes e Google Play.

    Além de disponibilizar filmes recém-estreados, o estúdio também anunciou que a animação “Trolls 2”, com estreia marcada para 10 de abril, chegaria diretamente nessas plataformas.

    A decisão da Universal representou uma quebra do acordo das janelas de lançamento e não passou despercebida.

    Cerca de uma semana depois do anúncio, a rede de cinemas AMC, a principal e maior dos EUA, anunciou que não exibiria mais filmes da Universal caso o estúdio seguisse com a decisão.

    A situação só foi resolvida em julho, quando ambas as partes chegaram a um acordo que estipulou que a Universal poderia lançar seus filmes digitalmente três semanas após a estreia nos cinemas, repassando uma porcentagem (não divulgada) do valor arrecadado com os “ingressos digitais” para a rede de cinemas.

    A Warner seguiu os passos e lançou os filmes “Aves de rapina” e “Magnatas do crime” em versão digital no dia 24 de março, também em plataformas como iTunes e Google Play.

    Os estúdios Disney também fizeram o mesmo com a animação “Dois irmãos: Uma aventura fantástica”, que estreou nos cinemas em 6 de março e foi disponibilizado para compra e aluguel após 14 dias. Além disso, a empresa anunciou a chegada do longa no serviço de streaming Disney+ poucas semanas depois.

    Em setembro, o conglomerado decidiu testar a estreia digital com um lançamento de peso: a versão com atores da animação “Mulan”, de 1998.

    A estreia virtual também não passou despercebida por exibidores. Um vídeo que viralizou no começo de agosto mostra Gérard Lemoine, dono de um cinema em Paris, destruindo um pôster de “Mulan” com um taco de beisebol.

    “Perdemos, em média, € 5.000 por semana”, disse Lemoine ao site Destination Ciné em 24 de agosto. “É um grande erro da parte da Disney, que sempre foi uma boa parceira”, afirmou.

    Como a decisão foi recebida

    Até então, tais decisões se limitavam a filmes específicos. Contudo, o anúncio da Warner é válido para os 17 principais lançamentos do estúdio marcados para 2021.

    Entre os críticos de cinema e os analistas de mercado, há um consenso: o anúncio é um abalo nas estruturas de Hollywood, e o possível estopim para uma grande mudança na indústria cinematográfica americana.

    “Essa é a decisão mais chocante que um estúdio tomou nas últimas décadas. E as repercussões são imprevisíveis”, escreveu no Twitter o crítico de cinema Pablo Villaça, diretor do portal Cinema em Cena, o mais antigo site do tipo na internet brasileira.

    “Os outros grandes estúdios terão duas opções: seguir o exemplo da Warner ou esperar o resultado financeiro da Warner para só então tomar uma decisão”, afirmou Villaça.

    “Mas há dois problemas com a segunda opção: a Warner pode não divulgar seus números de streaming e, se a estratégia for um sucesso, os demais estúdios terão ficado para atrás e terão que correr para disputar os restos do mercado”, concluiu.

    Para Rodrigo Salem, crítico de cinema e jornalista especializado em entretenimento na Folha de S.Paulo, trata-se de uma decisão irreversível.

    “A Warner está dando um passo sem volta e com consequências. Você não alimenta uma criança por um ano com doces e espera que ela passe a comer salada para o resto da vida depois de certa data”, afirmou em texto publicado na plataforma Medium.

    “O espectador vai se acostumar a passar um ano vendo os maiores filmes do estúdio em casa, sem precisar pagar ingresso caro para ver um longa que você nem sabe se é bom. Ele não vai voltar aos hábitos antigos”, acrescentou.

    De acordo com Salem, as salas de cinema não deixarão de existir, mas se tornarão algo de nicho, como os discos de vinil. “Um produto ainda em voga, comprado por adoradores da arte, mas que não vende mais aos milhões. As salas de exibição serão locais para poucos, com ingressos mais caros e uma exigência maior do consumidor também”, escreveu.

    Tara Lachapelle, analista do mercado de entretenimento e colunista da Bloomberg, também acredita que, apesar da Warner dizer que o modelo será aplicado apenas em 2021, trata-se de uma decisão irreversível.

    “A Netflix mostrou como inundar o público de conteúdo – especialmente com filmes de alta qualidade. Agora que a Warner vai fazer exatamente isso em 2021, é difícil imaginar eles voltando atrás”, escreveu em texto publicado na noite de quinta-feira (3).

    A decisão foi criticada pela principal exibidora dos EUA. “Claramente a Warner pretende sacrificar uma porção considerável do faturamento de seus estúdios para subsidiar sua startup, HBO Max”, afirmou Adam Aron, presidente da AMC Entertainment, maior rede de cinema do país, ao site Hollywood Reporter.

    “A AMC vai fazer tudo que puder para garantir que a Warner não faça isso às nossas custas”, acrescentou, sem detalhar quais serão as ações concretas da empresa.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.