A autorização para consumo de carne de laboratório em Singapura

País é o primeiro no mundo a aprovar a comercialização de produto desenvolvido a partir de células-tronco de animais. Segundo analistas, medida deve acelerar mercados do tipo na Ásia e Oceania

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Há anos cientistas vêm estudando e desenvolvendo carnes cultivadas em laboratório, que nunca foram parte de um animal vivo abatido. Nesta quarta-feira (2), a Agência de Alimentos de Singapura deu permissão a uma startup americana para vender carnes do tipo para alimentação local. Com isso, o país do sudeste asiático se tornou o primeiro do mundo a liberar o consumo desses produtos.

A Eat Just Inc. é uma empresa com base em San Francisco que desenvolve e comercializa produtos alimentícios sustentáveis. A ideia inicial é usar a carne para produção de nuggets vendidos em um restaurante no país a preço de outros frangos premium existentes no mercado. Com o tempo, a startup planeja expandir os negócios para demais restaurantes e estabelecimentos de varejo.

Acadêmicos e especialistas em regulação de alimentos disseram ao blog da ONG (organização não-governamental) The Good Food Institute que a aprovação em Singapura deve acelerar o investimento, desenvolvimento e regulamentação de mercados vizinhos na Ásia e Oceania.

US$ 140 bilhões

deve ser o aumento do mercado global de carne alternativa na próxima década, segundo um estudo de 2019 do banco britânico Barclays. O valor equivale a aproximadamente 10% das vendas mundiais de carne animal

Empresários como Bill Gates (Microsoft) e Richard Branson (Virgin), além de empresas do ramo agrícola como Tyson Foods e Cargill, já investiram dezenas de milhões de dólares em projetos de carne cultivada em laboratório.

Até então, existiam algumas iniciativas não-comerciais no mundo em que as pessoas podiam se inscrever para experimentar a carne cultivada em laboratório.

Matheus Saueressig, diretor de comunicações da Sociedade de Agricultura Celular, disse à Revista Fapesp que em todo o mundo apenas a América Latina não desenvolveu projetos de carne cultivada em laboratório.

Como a carne cultivada em laboratório é feita

Carne cultivada em laboratório é diferente de similares de carne produzidos com base vegetal. Nesse segundo caso, a ideia é usar proteína vegetal para criar produtos que tenham um gosto parecido com a da carne animal; no primeiro, há de fato uma manipulação de células animais.

Através de uma biópsia, pega-se e cultiva-se células-tronco musculares, no caso, de um frango em uma solução líquida. Em um biorreator, elas são induzidas a se multiplicar até chegar a filamentos musculares que, depois de combinados, podem ser processados em forma de carne moída. Atualmente, essa indução é feita com a ajuda de um soro fetal de vacas. Mas os desenvolvedores estudam o uso de indutores de origem vegetal para o futuro.

Com isso, espera-se atrair também consumidores vegetarianos e veganos, já que os frangos não morrem ou sequer sofrem no processo de captura dessas células. No entanto, o público-alvo principal é de comedores de carne animal.

É possível reproduzir esse processo com quaisquer outros animais, mas a tecnologia atual ainda não consegue reproduzir a textura dos tecidos internos dos bichos. Para carnes de boi, embora haja projetos, isso pode ser um impeditivo tendo em vista a exigência do mercado com relação a tipos de corte, suculência e maciez. Para carnes de frangos, isso é mais viável, especialmente para produtos como nuggets e similares.

Segundo a Eat Just Inc., o processo de sua carne de frango de laboratório não usa antibióticos e é microbiologicamente mais limpo que as carnes de origem animal. A análise feita pela agência singapuriana também atestou altos índices de proteína, gorduras monossaturadas e fonte de minerais.

Apesar dos avanços, a indústria ainda padece de expertise científica e tecnológica para comportar uma demanda em larga escala. O principal gargalo está na obtenção das células-tronco animais para cultivo. Para produções maiores, não haveria linhas de células suficientes, e seria preciso manter criadouros específicos ou buscar em abatedouros tecidos frescos para complementar o processo, por exemplo.

Apontam também o preço final e o fato de não ser um produto natural como impeditivos para que a cultura se popularize. Há inclusive um debate sobre se a carne cultivada em laboratório se qualifica para consumo de acordo com as leis religiosas de judeus (Kosher) e muçulmanos (Halal).

Mercado de carne de frango animal

A carne de porco é a mais consumida no mundo, seguida pelo de frango, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura). No entanto, o frango é o que tem o crescimento de produção mais acelerado dos últimos anos, e deve ocupar o primeiro lugar no futuro.

60 bilhões

é o número de frangos criados globalmente para consumo em 2019, segundo a ONG (organização não-governamental) Proteção Animal Mundial

5,7 bilhões

é o número de frangos abatidos no Brasil entre o último trimestre de 2018 e o terceiro trimestre de 2019, segundo o IBGE. O país é o maior exportador de frango do mundo

Segundo a ONG Compassion in World Farming, mais de 70% das frangos no mundo são criados em sistemas intensivos. Neles, impera uma escala industrial, com animais reunidos dentro de um galpão até o momento do abate, e equipamentos tecnológicos para melhor aproveitamento financeiro da produção.

42,6 kg

foi o consumo médio de frango por habitante ao ano no Brasil, em 2019

1,75 kg

foi o rendimento médio de carne para cada frango abatido em 2019. Esse número corresponde a 75% do peso médio da carcaça, que foi de 2,34 kg em 2019

O sistema intensivo de criação é constante alvo de críticas de entidades de proteção ambiental com relação a práticas que atentam contra o bem-estar dos frangos. Muitas fazendas abarrotam os animais em galpões superlotados, mantêm as luzes ligadas 24h por dia, ofertam poucos estímulos diários, selecionam linhagens de crescimento acelerado e abusam de antibióticos.

Os frangos ficam mais fracos, estressados e propensos a problemas de saúde. Além disso, fazendas do tipo são focos para a disseminação de patogênicos que, em último caso, podem sofrer mutações e pular para o homem, como foi o caso dos surtos de gripe aviária (H5N1) em 1997 e 2004.

Os estabelecimentos avícolas no Brasil precisam seguir alguns padrões sanitários e ambientais, mas há movimentação para pressionar por melhores condições para os animais. Uma das mais relevantes é a Colaboração Global com Investidores em Bem-Estar dos Animais de Fazenda. Iniciada em 2015, ela reúne dezenas de instituições financeiras e mede a responsabilidade de empresas do setor alimentício de todo o mundo, incluindo brasileiras, com a saúde animal.

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