Qual a situação dos hospitais em 5 estados onde a pandemia avança

Nas regiões Sul e Sudeste, sistemas de saúde se aproximam do colapso enquanto governos ampliam restrições para tentar frear o contágio da covid-19  

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Sistemas de saúde no Sul e Sudeste do Brasil apresentam no início de dezembro sinais de colapso devido a um novo avanço da pandemia de covid-19 no país. Em algumas capitais, como Rio de Janeiro e Curitiba, há filas de pacientes em busca de uma vaga em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva). No Rio, pesquisadores alertam para as mortes de doentes em casa, como um indicativo de que os infectados não estão conseguindo ser atendidos pelos hospitais.

A alta nas internações também tem afetado os hospitais particulares, que voltaram a reduzir cirurgias eletivas para centrar os esforços no tratamento de pacientes com o novo coronavírus. Devido à baixa capacidade de testagem do país, dados como o de internação têm sido considerados mais precisos para o acompanhamento da pandemia.

Com um total de quase 6,5 milhões de infectados e mais de 175 mil mortes pelo novo coronavírus desde o início da pandemia, em março, o Brasil voltou a registrar nos últimos meses de 2020 um aumento nos indicadores da doença. Especialistas evitam falar em segunda onda por considerarem que o país sequer chegou a sair da primeira, mas caracterizam o avanço como um repique. Apesar de terem caído lentamente desde o meio do ano, os números se estabilizaram num patamar considerado alto, e agora voltam a subir.

Na quinta-feira (3), a média de casos diários nos sete dias anteriores era de 40.421, valor 37% superior ao de duas semanas antes. A média de mortes diárias no mesmo período foi 544. Em julho e agosto, o Brasil chegou a registrar mais de 1.000 mortes por dia.

Desde junho, estados e prefeituras vêm flexibilizando as regras de isolamento. A retomada de atividades não essenciais, como bares e restaurantes, e o cansaço da população com as quarentenas, especialmente entre os mais jovens, são apontados como motivos para a nova expansão da doença.

Especialistas e governos estão preocupados com a proximidade das festas de final de ano. Nos Estados Unidos, por exemplo, o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) estimou em 60 mil o número de mortes por causa do contágio ocorrido apenas durante o feriado prolongado de Ação de Graças, que ocorreu no final de novembro no país. Existe um temor de que as comemorações de Natal e Ano Novo causem uma explosão de casos no Brasil, mesmo que estados e prefeituras tenham cancelado eventos públicos.

A seguir, o Nexo mostra como está a situação em cinco estados brasileiros e como os sistemas de saúde estão reagindo à alta nos casos.

Rio de Janeiro

Uma nota técnica publicada na terça-feira (1º) por pesquisadores da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) alerta para um quadro de colapso no sistema de saúde pública da capital do estado. Segundo o documento, apenas em setembro e outubro houve um excesso de 1.100 mortes acima do que seria esperado para o período, com base nos anos anteriores. Esse excesso mostra que “o sistema de saúde não retornou ao que seria sua ‘normalidade’, depois da crise mais intensa de abril e maio”, diz a nota.

Os pesquisadores chamam também a atenção para a permanência de um número alto de mortes em casa e de mortes de pacientes que foram internados mas que morreram fora das UTIs, indicando uma “incapacidade de atender a casos graves da doença no município”.

Na quarta-feira (2), a fila de espera por um leito de UTI na cidade e na região metropolitana do Rio, que inclui a Baixada Fluminense, contava com 172 pessoas. Na rede privada, 98% dos leitos de terapia intensiva da capital estavam ocupados.

“Esses números mostram que o sistema de saúde da cidade do Rio de Janeiro voltou a apresentar sinais de colapso, tanto para as causas de mortalidade diretamente, quanto para as indiretamente relacionadas à epidemia de covid-19”, diz a nota da Fiocruz.

São Paulo

Na segunda-feira (30), um dia após o prefeito Bruno Covas (PSDB) se reeleger no segundo turno das eleições municipais na capital paulista, o governador João Doria, seu colega de partido e padrinho político, decidiu reclassificar todas as regiões do estado para a fase amarela, que restringe o horário de funcionamento do comércio. Ele justificou a medida devido ao “claro aumento da instabilidade da pandemia”, embora durante a campanha Covas tenha falado em estabilidade dos números.

Os indicadores de ocupação de leitos públicos permaneciam abaixo de 61% tanto na região metropolitana de São Paulo como no resto do estado na quinta-feira (3). Os hospitais privados, porém, haviam registrado aumento nas internações. Nove deles decidiram ampliar os leitos para pacientes com covid-19 e reduzir as cirurgias eletivas, segundo um levantamento do jornal O Estado de S. Paulo publicado na quinta.

Os hospitais Nove de Julho e Santa Paula tiveram alta de 30% e 50% nas internações, respectivamente, em relação ao mês anterior. A Santa Casa afirmou estar perto da capacidade máxima de atendimento.

Francisco Balestrin, presidente do SindHosp (Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios de São Paulo), defendeu em entrevista ao jornal que o estado volte a aumentar leitos de UTI e a recriar hospitais de campanha. Segundo a entidade, a taxa de ocupação das UTIs em hospitais privados no estado chega a 84%.

No hospital Albert Einstein, na capital, as internações de infectados pelo novo coronavírus saltaram de 55 em novembro para 106 no início de dezembro. Em entrevista ao jornal O Globo, na quinta-feira (3), o presidente do hospital, Sidney Klajner, disse que os novos casos “estão se comportando da mesma forma que o início” após ser questionado sobre uma menor letalidade do novo avanço da pandemia. Na Europa, por exemplo, a segunda onda matou menos pessoas do que a primeira.

“O que talvez possa influenciar é que agora médicos sabem lidar melhor com a doença, usam recursos digitais, como a telemedicina, e conseguem monitorar o paciente melhor em casa. Lidar com o paciente com covid-19 tem sido menos desconfortável do que no início, quando não se conhecia a doença”, afirmou.

Rio Grande do Sul

Na segunda-feira (30), o estado voltou a endurecer as regras de distanciamento e 94,7% da população gaúcha ficou em áreas classificadas com bandeira vermelha, que indica alto risco de transmissão. Essa classificação só fica atrás da bandeira preta, que mostra risco altíssimo de contágio.

O horário de funcionamento do comércio foi reduzido até as 20h e o de restaurantes até as 22h. A permanência em locais públicos, como praias e parques, foi proibida. Academias e escolas continuam com autorização para funcionar.

Eventos e festas de fim de ano, inclusive em espaços comuns dentro de condomínios, ficam suspensos dentro da nova classificação. “Não é hora de aglomerações, de festas, mesmo em família. Reduzir os contatos é muito importante porque a gente quebra o ciclo de contágio da covid-19. Esperamos que essas medidas perdurem por duas semanas, mas se for necessário nós prorrogamos”, afirmou o governador Eduardo Leite (PSDB) ao anunciar as mudanças.

O governo também decidiu reativar 77 leitos que tinham sido fechados. Na quinta-feira (3), o Rio Grande do Sul tinha 80,3% de ocupação nos leitos de UTI para adultos. Um dos indicadores usados pelo estado para monitorar a pandemia é justamente o número de leitos livres de UTI em relação ao total de vagas ocupadas por doentes com coronavírus.

Desde meados de novembro, o índice passou a mostrar que havia mais leitos de UTIs ocupados do que livres. Na terça-feira (1º), o indicador observado atingiu a pior marca desde o início da pandemia. O número de internados era 23% superior ao de duas semanas antes.

Paraná

Na região metropolitana de Curitiba, pacientes também formavam uma fila de espera por vagas em leitos de internação. Na quarta-feira (2), segundo a Secretaria Estadual da Saúde, 120 pessoas aguardavam em UPAs (Unidades de Pronto-Atendimento) da região ou em hospitais menores uma transferência para 53 leitos de UTI e 67 de enfermaria.

Na capital paranaense, dos 344 leitos de UTI adultos do SUS para pacientes com covid-19, 319 estavam ocupados, o que representa 93% do total. Segundo o boletim divulgado pelo governo do estado na quinta-feira (3), as regiões leste e noroeste tinha ocupação igual ou acima de 90% em UTI para adultos.

Ao site G1, o diretor de Gestão em Saúde da Secretaria Estadual da Saúde do Paraná, Vinícius Filipak, afirmou que o governo vem tentando ampliar os leitos, mas tem encontrado barreiras para isso. “Há um limite de espaço, área física, equipamentos e principalmente de equipes. As equipes têm trabalhado incessantemente desde março, há um desgaste muito grande e não há profissionais capacitados em quantidade para ampliar indefinidamente esses leitos”, afirmou ao portal.

O governo estadual decretou toque de recolher entre 23h e 5h em todas as cidades a partir da quarta-feira (2) e proibiu a venda e o consumo de bebidas alcoólicas nas ruas.

Em Curitiba, as medidas adotadas pela prefeitura têm sido consideradas tímidas. Desde o final de novembro, bares e casas noturnas foram obrigados a fechar, mas a maioria encontrou uma brecha na lei e se manteve aberta por funcionar com alvará de restaurante e lanchonete, segundo reportagem do site BBC Brasil. Shoppings, academias e igrejas mantiveram horários de funcionamento, e restaurantes não têm restrição na capacidade máxima para atendimento.

Santa Catarina

O estado atingiu no início de dezembro o maior número de casos ativos de covid-19 desde o início da pandemia. Na quinta-feira (3), eram 32.614 pacientes com a doença em acompanhamento. Por isso, a Associação dos Hospitais de Santa Catarina emitiu um alerta dizendo que os hospitais estavam perto do colapso, operando com capacidade máxima. “As próximas semanas serão críticas”, dizia a nota da entidade.

Na quarta-feira (2), o governo do estado atualizou o mapa de risco e classificou 15 das 16 regiões de saúde como tendo risco gravíssimo de transmissão do vírus. O governador Carlos Moisés (PSL) anunciou toque de recolher durante a madrugada em todas as cidades de Santa Catarina. A medida vale, inicialmente, por 15 dias. Os ônibus só poderão circular com capacidade máxima de 70%.

“Essas medidas têm a intenção de mostrar para a sociedade que estamos em um momento de agravamento do risco. Tomamos a decisão com base em um amplo diálogo com os prefeitos”, afirmou o governador, durante anúncio das mudanças.

A região do meio oeste e da serra catarinense registrava na quinta-feira (3) uma taxa de ocupação de leitos de UTI de 92,15%. Na região do Vale do Itajaí, o índice era de 91,2%.

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