O filme de Godard que foi censurado no Brasil nos anos pós-ditadura

Mesmo com o fim do regime militar, governo pôde proibir a circulação de obras até a Constituição de 1988. Por pressão da Igreja Católica, cineasta francês foi alvo de veto do então presidente José Sarney

Estamos com acesso livre temporariamente em todos os conteúdos como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos de assinatura. Assine o Nexo.

    O Brasil vivia o segundo ano da redemocratização quando o governo federal censurou um filme com a justificativa de que ele ofendia a fé cristã. Era “Je vous salue Marie” (“Eu vos saúdo Maria” no Brasil), uma das obras mais conhecidas do diretor franco-suíço Jean-Luc Godard. Ele completa 90 anos na quinta-feira (3).

    Godard é um dos cineastas franceses mais influentes do século 20, diretor de obras como “Acossado” (1960), “Uma mulher é uma mulher” (1961), “O desprezo” (1963) e Alphaville” (1965). Intelectual e experimental, seu trabalho serviu de inspiração para cineastas como Martin Scorsese, Quentin Tarantino e Wong Kar-Wai.

    Projetando-se inicialmente na nouvelle vague francesa, movimento vanguardista iniciado no final dos anos 1950, o cineasta apostou na subversão da narrativa cinematográfica. Avesso à lógica hollywoodiana do cinema como espetáculo, Godard apostou em produções despojadas e baratas, muitas vezes herméticas.

    Influenciado pelo marxismo, Godard politizou seu cinema na segunda metade da década 1960. Deste período é “La chinoise” (1967), uma crítica à militância pequeno-burguesa em que quatro estudantes influenciados pelas ideias de Mao Tsé-Tung planejam atos revolucionários.

    Nos anos 1980, o diretor realizou a chamada “trilogia do sublime”, composta pelos filmes “Paixão” (1982), “Carmen de Godard (1983) e “Je vous salue Marie” (1985). Nessa trinca, Godard abordou temas como sexualidade e moral.

    O filme sobre Maria

    No último filme da trilogia, a história do dogma da Imaculada Conceição é transplantada para a era moderna. A Maria contemporânea (a atriz Myriem Roussel) trabalha com o pai em um posto de gasolina e joga basquete com as amigas. Ela namora um motorista de táxi chamado José, com quem não mantém relações sexuais pois quer preservar a virgindade. Um dia, o casal recebe o aviso de que Maria está grávida, o que os deixa perplexos. Maria percebe que foi escolhida por uma força superior.

    A produção tem diversas cenas em que Maria aparece nua, inclusive frontalmente, entre situações corriqueiras e sugestões de sensualidade. Em alguns trechos, o filme explora o conflito entre os desejos terrenos e o chamado espiritual da personagem. Em um deles, Maria resiste à vontade de se masturbar. Em outra cena, ela ajuda um desconfiado José a comprovar com a mão que, apesar de grávida, continua virgem.

    O filme foi condenado pela Igreja Católica como sacrílego. O então papa João Paulo 2º afirmou que a produção “distorce e calunia o significado espiritual e o valor histórico e fere de maneira profunda os sentimentos religiosos dos que têm fé e o respeito pelo sagrado e pela figura da Virgem Maria”.

    A proibição no Brasil

    Antes mesmo de chegar ao Brasil, o filme estava na mira da Igreja e entidades católicas. Em novembro de 1985, ele teve uma sessão cancelada no FestRio. A direção do festival negou, mas artistas acusaram o evento de ceder à pressão religiosa.

    Em fevereiro de 1986, atendendo a pedido da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), o então presidente José Sarney proibiu a distribuição da produção em todo o território nacional.

    “O presidente José Sarney é um homem profundamente religioso… e atendeu um apelo da Igreja. Ele vai à missa todos os domingos, lê sempre o Evangelho, e não iria contrariar o espírito cristão do povo brasileiro”, afirmou o então porta-voz da presidência, Fernando César Mesquita.

    Até 1988, filmes, novelas, minisséries, peças de teatro, livros e jornais ainda eram submetidos à censura federal e podiam ser vetados. A prática só terminou com a Constituição de 1988, que aboliu a censura e estabeleceu a classificação das obras por faixa etária. “Je vous salue Marie” foi o último ato de censura autorizado pelo Ministério da Justiça.

    Curiosamente, Coriolano de Loyola Cabral Fagundes, então diretor do Divisão de Censura Federal, foi contra o veto do filme. Em seu despacho, a autoridade escreveu que no filme “em momento algum, há qualquer gesto de irreverência para com Maria”.

    Nem todos na Igreja Católica tinham a mesma opinião sobre a censura. O então arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, afirmou que a proibição aumentou em “mil por cento” o interesse em cima do filme. Para Arns, a religiosidade deveria ser respeitada, mas aqueles que queriam ver o filme não poderiam ser privados desse direito.

    Apesar da proibição, aconteceram sessões do filme em algumas universidades, como a USP (Universidade de São Paulo) e a PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica). No caso da PUC, a Polícia Federal chegou a invadir o campus para apreender a cópia que era exibida por veteranos para recepcionar calouros. De acordo com relatos dos estudantes à imprensa, a polícia agiu agressivamente, chegando a atirar para o alto.

    No jornal O Estado de S. Paulo, o crítico de cinema Rubens Ewald Filho escreveu que “pelo menos agora acabou-se a hipocrisia, uma vez que a censura mostrava que a democracia e a Nova República eram uma farsa. “Je vous salue Marie” permaneceu proibido no país por dois anos e nove meses.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.