Como a recuperação da China levou ao boom do minério de ferro

Alavancado pela demanda da indústria chinesa, preço da commodity atinge maior patamar em sete anos. Produto é o segundo mais importante da balança comercial brasileira em meio à pandemia

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O preço do minério de ferro atingiu seu maior patamar em sete anos na terça-feira (1°). No ano, o produto acumula alta de mais de 40% nos mercados internacionais. Só no mês de novembro, a valorização foi de 12%.

10 ANOS DE MINÉRIO DE FERRO

Contratos futuros de minério de ferro. Passou de 130 dólares em 2020 pela primeira vez desde o final de 2013

O minério de ferro é o principal bem usado para a fabricação do aço, que, por sua vez, tem grande importância na produção industrial. Em tempos de pandemia de novo coronavírus, o setor industrial tem dificuldades em praticamente todos os países do mundo. A exceção entre as potências globais é a China.

Pandemia e recuperação econômica na China

A alta do minério de ferro é atribuída quase que inteiramente à demanda chinesa pela commodity. O país asiático deve ser o único entre as maiores economias do planeta a registrar crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em 2020.

A China foi o primeiro epicentro da pandemia de covid-19 no mundo. Os primeiros casos do novo coronavírus em humanos foram detectados no fim de dezembro de 2019 na província chinesa de Wuhan. Conforme a doença foi se espalhando, o poder público decidiu implementar as primeiras medidas de restrição de circulação de pessoas, mantendo milhões isolados. Foram mais de dois meses com medidas de isolamento social rigorosas em diversas regiões do país.

No final de março, as restrições começaram a ser retiradas gradualmente. Apesar de alguns surtos locais após a reabertura – no geral contidos com a volta de medidas localizadas de distanciamento social –, o país convive no início de dezembro com apenas cerca de 11 casos novos por dia, na média.

A atividade econômica chinesa, assim como no restante do mundo, foi atingida fortemente pela pandemia. Os efeitos foram sentidos com maior intensidade no primeiro trimestre do ano, quando o PIB registrou forte tombo – a primeira queda em mais de 40 anos.

Com a doença praticamente sob controle ainda no primeiro semestre, a economia chinesa ganhou tração – algo que não foi possível em países onde o vírus continuou (e continua) circulando a taxas altas, como o próprio Brasil. Essa força permitiu que a indústria chinesa crescesse em 2020, apesar da crise global.

A indústria chinesa e a demanda por minério de ferro

A recuperação chinesa tem sido comandada pelo setor industrial do país. Já a partir de abril, a atividade do setor começou a crescer a ritmos acelerados na comparação com 2019, tendência que se manteve no restante do ano. Outras atividades – como serviços e vendas no varejo – só começaram a dar sinais mais fortes de recuperação a partir de setembro na China.

A atividade industrial chinesa tem contado com papel importante do governo – algo que já vem desde antes da pandemia. O investimento de empresas públicas cresceu na pandemia, assim como os subsídios e incentivos dados pelo poder público.

Projetos públicos de infraestrutura – em especial na área de energia – cresceram, e os governos locais aumentaram seus endividamentos para elevar despesas e investimentos. Esses gastos ajudaram a aquecer a economia e manter mais pessoas empregadas no momento de crise. As exportações acompanham o movimento da indústria do país: como as fábricas chinesas foram reabertas antes de fábricas de outros países exportadores, os produtos fornecidos pelas empresas chinesas ocuparam parte de um espaço vazio deixado nas cadeias de suprimentos globais.

O crescimento da indústria chinesa aumentou a demanda por aço, que, por sua vez, elevou significativamente as compras de minério de ferro. Segundo dados da Associação Mundial do Aço, a produção na China em outubro de 2020 foi 12,7% maior que no mesmo mês de 2019.

Enquanto isso, o país asiático ampliou sua participação na produção mundial de aço, que já era alta antes mesmo da pandemia.

58%

de todo o aço produzido no mundo nos primeiros 10 meses de 2020 foi produzido na China, segundo a World Steel Association

O modelo de crescimento da economia chinesa, portanto, permitiu que o mercado de minério de ferro tivesse um boom em 2020. E isso teve impactos sobre países exportadores da commodity, como o Brasil.

O minério de ferro e o Brasil

O Brasil é o segundo maior exportador de minério de ferro do mundo. Apenas a Austrália está na frente no ranking global.

O minério de ferro é um dos mais importantes produtos da balança comercial brasileira. De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério da Economia, o produto é o segundo bem com maior peso em valor nas exportações do Brasil em 2020, atrás somente da soja.

11,5%

foi a participação do minério de ferro nas exportações brasileiras de janeiro a outubro de 2020

Em 2019, o minério de ferro havia sido o terceiro produto mais exportado pelo Brasil em termos de valor, atrás da soja e do petróleo. O minério de ferro subiu uma posição em 2020 com o aumento do preço do produto e o crash do mercado de petróleo.

Entre janeiro e outubro de 2020, o Brasil exportou US$ 20,1 bilhões de minério de ferro ao exterior. Isso representa uma alta de quase 4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Mas apesar do crescimento do valor exportado em minério de ferro em 2020, o volume do produto negociado ao exterior teve queda de 6%.

Isso ocorreu por dificuldades relacionadas ao coronavírus, que afetaram a produção e a oferta brasileira nos primeiros meses do ano. A alta do dólar, somada ao preço elevado do minério de ferro, serviu como um fator de compensação: permitiu que houvesse um aumento do valor exportado apesar da queda no volume comercializado.

O maior destino do minério de ferro brasileiro é, disparado, a China. Em 2019, o país asiático foi responsável por comprar quase 60% do total exportado pelo Brasil. Em 2020, essa parcela aumentou.

71,6%

foi a participação da China nas exportações brasileiras de minério de ferro nos dez primeiros meses de 2020

A alta do minério de ferro é boa notícia para a Vale, gigante de mineração e uma das maiores companhias do Brasil. No terceiro trimestre, apesar da crise global, o lucro da empresa foi de R$ 15,6 bilhõesmelhor resultado entre todas as empresas de capital aberto na América Latina, segundo levantamento da consultoria Economatica. No mesmo trimestre de 2019, o lucro da Vale havia sido de R$ 6,5 bilhões – na comparação entre os dois períodos, o crescimento foi de 140%.

Puxados pela alta do preço e pelos volumes crescentes exportados, os bons resultados da Vale fazem contraposição ao ano de 2019, quando a mineradora teve prejuízo de R$ 6,7 bilhões. Esse prejuízo foi resultado principalmente da tragédia de Brumadinho, em que 270 pessoas morreram após o rompimento de uma barragem da Vale em Minas Gerais em janeiro.

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