‘O poderoso chefão 3’: da má recepção em 1990 à nova versão

‘A morte de Michael Corleone’ encerra a trilogia da maneira que Francis Ford Coppola desejava. Longa original teve produção conturbada e foi alvo de duras críticas ao ser lançado

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    Em 1990, ‘O poderoso chefão: parte 3’, do diretor Francis Ford Coppola, encerrava uma das trilogias de maior sucesso da história do cinema. O filme até foi indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro, mas o epílogo deixaria um gosto amargo em parte dos fãs, críticos e próprios criadores da saga.

    “‘O poderoso chefão 3’ não é só uma frustração, é um fracasso de proporções dolorosas”

    Hal Hinson

    crítico do jornal The Washington Post, em texto sobre o filme na época de lançamento

    “Naquela época, meu poder de decisão estava em baixa”

    Francis Ford Coppola

    diretor da trilogia, em comentário no DVD de ‘O poderoso chefão 3’, quando deixa explícita sua decepção com o trabalho

    Em 2020, Coppola reeditou o filme incluindo cenas que haviam ficado de fora e tirou outras. No fim, as 2h42min originais caíram para 2h37min sob um novo título: “O poderoso chefão - desfecho: A morte de Michael Corleone”. Segundo o cineasta, esse era o nome que ele e Mario Puzo, roteirista da franquia, queriam dar ao filme na época, mas os estúdios Paramount não aceitaram.

    Foram seis meses lidando com negativos guardados em mais de 300 caixas para finalizar o novo corte. Alguns deles, arranhados, precisaram ser reparados. A empreitada não é uma novidade para Coppola, que já reeditou três de seus trabalhos: “The Godfather Epic” (1979), juntando os dois primeiros filmes da saga; “Apocalypse Now Redux” (2001) e depois “Final Cut” (2020); e “The Cotton Club Encore” (2019).

    A reedição de “O poderoso chefão 3” estreia nesta quinta-feira (3) em cinemas do Brasil e entra no dia 8 de dezembro em plataformas digitais como o NOW, a Apple TV e o Google Play, entre outras.

    O que há de novo na reedição de 2020

    Esses doze minutos significam, na prática, a remoção de algumas cenas menores, um rearranjo de eventos principais e um retrabalho em cima de trilhas musicais. Até o final, é praticamente o mesmo filme. E cabe aqui o aviso de spoilers.

    No original de 1990, o protagonista Michael Corleone (Al Pacino) morre sozinho relembrando acontecimentos trágicos do passado, como o assassinato de sua filha por mafiosos inimigos, e as escolhas que fez em vida, como quando matou o irmão em nome dos negócios.

    Na reedição de 2020, volta a cena de Michael sozinho, mas o filme termina sem deixar claro se Michael morre ou não. E com o acréscimo de um texto final: “Quando os sicilianos desejam ‘cent’anni’ [cem anos] significa ‘por uma vida longa’. E um siciliano nunca esquece.” Segundo o crítico Caryn James, do site BBC, “Michael está condenado a uma longa vida de lembranças”.

    “Para mim, a tragédia de ‘O poderoso chefão’, que é a tragédia dos EUA, é sobre Michael Corleone”

    Francis Ford Coppola

    diretor, em comentário no DVD da trilogia

    Outra mudança pequena, mas significativa é o corte de algumas cenas de Mary, filha de Michael no filme. O papel é interpretado por Sofia Coppola, filha do diretor. Hoje também cineasta, Sofia sofreu duras críticas pela performance que lhe rendeu dois Razzies (uma espécie de Oscar às avessas) em 1991: Pior Atriz Coadjuvante e Pior Revelação.

    A produção conturbada da primeira versão

    Após lançar os dois primeiros filmes da trilogia, Coppola não queria retornar a uma terceira empreitada, já que considerava a saga encerrada no segundo filme, de 1974. Mas o diretor acabou aceitando o convite do estúdio Paramount por dinheiro.

    Coppola estava endividado. Anos antes, tinha fracassado com “O fundo do coração”, filme financiado pelo American Zoetrope, um estúdio criado e gerido por ele. O diretor colecionava dívidas na cifra de milhões de dólares.

    Iniciada a produção de “O poderoso chefão 3”, Robert Duvall, que interpretava Tom Hagen, o consigliere da família Corleone e figura central da franquia, não chegou a um acordo sobre seu salário e deixou o filme. Para Duvall, sua remuneração precisava estar à altura da de Al Pacino.

    Houve também embates com relação ao papel de Andy Garcia, que interpretou Vincent Mancini, sobrinho do protagonista. Inicialmente, os executivos da Paramount queriam que o personagem tivesse bastante destaque na história. Mas Coppola não queria dar brecha para a possibilidade de um quarto filme focado em Vincent. Na visão de pessoas envolvidas na produção, essa queda de braço prejudicou o arco narrativo do personagem.

    Por fim, o imbróglio envolvendo a personagem vivida por Sofia Coppola é anterior às críticas de sua performance. Quatro outras atrizes foram cotadas antes da filha do cineasta — Julia Roberts, Madonna, Rebecca Schaeffer e Winona Ryder —, mas todas abandonaram a produção por motivos variados.

    Soma-se a tudo isso o fato de que “O poderoso chefão 3” precisaria ser lançado no Natal, por ordem do estúdio. O resultado foi uma produção conturbada e apressada, com um roteiro que lembrava trechos dos filmes anteriores. Por isso o filme foi acusado de falta de criatividade.

    Coppola seguiu fazendo outros filmes na lógica de estúdios até sanar suas dívidas. Desde 2007 ele só dirige filmes independentes, custeados em grande parte pelos lucros de sua vinícola na Califórnia. Sua filha, Sofia Coppola, é uma cineasta bem sucedida, com filmes como “Encontros e desencontros” (2003) e “As virgens suicidas” (1999).

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