Por que a Coreia do Sul poupa seus ídolos do k-pop do serviço militar

O país editou uma lei permitindo que artistas pop premiados pudessem cumprir a obrigação com as Forças Armadas até os 30 anos. Decisão é vista como incentivo ao ‘soft power’ da cultura sul-coreana

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    Na Coreia do Sul, todo homem saudável entre 18 e 28 anos deve passar por cerca de 20 meses pelo serviço militar do país. Kim Seok-jin, também conhecido como Jin do grupo de k-pop BTS, completa 28 anos nesta sexta-feira (4), e precisaria deixar a boyband para se alistar.

    No entanto, nesta terça-feira (1º), a Assembleia Nacional editou o Ato de Serviço Militar permitindo que o artista possa cumprir a obrigação até os 30 anos de idade. A expectativa é de que o presidente Moon Jae-in assine a mudança nas próximas semanas.

    Esse aditamento abraça apenas artistas de k-pop que receberam medalhas do governo por ajudar a divulgar a influência cultural e linguística do país para o resto do mundo. Os sete membros do grupo BTS ganharam a Ordem do Mérito Cultural em 2018.

    Trata-se do principal prêmio às artes da Coreia do Sul, concedido pelo presidente e dividido em ordens de relevância. Até dezembro de 2020, eles — que receberam, por ora, a classe mais baixa das cinco possíveis — são os premiados mais jovens da história, e o único grupo de k-pop a compor a lista. Medalhas do governo menores também qualificam outros artistas nesse aditamento.

    Na prática, trata-se apenas de um aditamento para cumprir uma obrigação que os próprios membros já anunciaram estar de acordo: “O serviço militar é uma coisa natural e, como discutimos muitas vezes, todos nós planejamos nos alistar nas Forças Armadas algum dia”, afirmou Jin durante uma coletiva de imprensa em novembro por ocasião do lançamento do quinto álbum.

    Quais são as regras para servir na Coreia do Sul

    As regras de recrutamento remontam a Constituição da República da Coreia de 1948. O Ato de Serviço Militar foi implementado em 1957 e não obriga mulheres a se recrutar, embora aceite voluntárias.

    O contexto da edição e implementação da lei atravessou a chamada Guerra das Coreias (1950-1953), conflito ocorrido no contexto da Guerra Fria, quando as potências capitalista (EUA) — alinhada à Coreia do Sul — e comunista (União Soviética) — alinhada à Coreia do Norte — travavam guerras por procuração pelo mundo.

    Passados quase 70 anos do armistício, nunca se chegou a um acordo de paz. Em resposta, as duas Coreias seguem militarizadas até hoje.

    620 mil

    é o número de membros do Exército recrutados, segundo autoridades de defesa do país. Segundo elas, após décadas de baixa taxa de natalidade, será difícil manter esse contingente

    A duração do serviço na Coreia do Sul varia de acordo com o braço militar para o qual uma pessoa é direcionada. Na Aeronáutica, por exemplo, esse período é de 21 meses; no Exército, 18.

    Até 2018, aqueles que se recusassem a compor as Forças Armadas eram presos. Em junho daquele ano, a Suprema Corte do país decidiu que os objetores poderiam cumprir funções alternativas, como trabalhar de cozinheiros e guardas em prisões. No entanto, o tempo de serviço para esses casos pode ser estendido até três anos.

    Alguns cidadãos podem ser poupados pelo Estado. É o caso de artistas clássicos premiados, como bailarinos e violonistas, e atletas que ganham o título dos Jogos Asiáticos ou figuram entre os três primeiros dos Jogos Olímpicos e da Copa do Mundo — uma vez livres, os jogadores ainda precisam cumprir três semanas de treinamento básico. Artistas pop, como os membros do BTS, não entram nessa condição.

    As exceções geram críticas da sociedade civil — que acusa o sistema de tratamento desigual em favor de personalidades milionárias — e de comissões técnicas — que acusam treinadores de selecionar atletas menos qualificados mas desesperados para se livrar do serviço militar. Além disso, o próprio sistema militar é criticado por casos de fome, tortura e suicídio entre seus soldados.

    O histórico do k-pop e o serviço militar

    Algumas estrelas do k-pop recrutadas atuaram menos em ações militares do que promovendo as Forças Armadas em campanhas publicitárias. Esse movimento evoca a passagem de Elvis Presley no Exército americano, que também recebeu ofertas para atuar como um modelo de recrutamento, mas escolheu atuar como um soldado comum.

    Até 2013, existia inclusive uma unidade de soldados celebridades. Mas polêmicas envolvendo encontros amorosos não autorizados, jantares regados a bebida alcóolica e visitas a casas de massagem motivaram o governo a extinguir o setor. As críticas partiam tanto de colegas das Forças Armadas, que reclamavam de privilégios, quanto da sociedade sul-coreana, balizada por um moralismo sensível a temas do tipo.

    Um dos casos mais famosos é do cantor Psy, conhecido pela música “Gangnam Style”, de 2012. Entre 2003 e 2005, ele cumpriu o serviço militar. Nesse tempo, Psy realizou shows e apareceu em canais de televisão, o que foi considerado por promotores como uma “negligência”. Por isso, entre 2007 e 2009, ele precisou cumprir um segundo período nas Forças Armadas.

    Mas o mais grave aconteceu em 2002 com Yoo Seung-jun. Aos 27 anos, quando estava próximo de ser recrutado, ele se naturalizou um cidadão dos EUA. O governo considerou um caso de deserção, deportou o cantor e baniu seu reingresso na Coreia do Sul.

    Também há prejuízos aos que cumprem o serviço de forma integral. O grupo Super Junior, um dos mais famosos dos anos 2000, passou dez anos com desfalques até que todos os 13 membros terminassem sua obrigação com o Estado. Alguns integrantes também deixaram a banda pelo caminho, e agora, uma década depois, eles passam longe do sucesso que tiveram.

    Segundo o canal de TV CBS News, o impacto na carreira que um hiato em função do alistamento pode ter está na alcunha desses grupos: “Boybands, não manbands [banda de adultos]. A vitalidade juvenil faz parte da imagem que o k-pop vendeu com incrível sucesso em todo o mundo.”

    O ‘soft power’ da cultura sul-coreana

    O “soft power” (poder suave, em tradução livre) é um termo que se refere à habilidade de um país afetar outros por meio da “atração e persuasão”. Em vez do uso da força, as ferramentas culturais atraem pessoas ao redor do mundo que de outra forma talvez não se interessariam por um país.

    É o caso do k-pop, do cinema coreano — na figura recente de “Parasita”, vencedor do Oscar de 2020 —, e dos k-dramas, as novelas coreanas. Por conta delas, uma pessoa pode passar a consumir produtos de beleza ou comidas do país, e indiretamente há uma influência política e econômica sobre aquele que consome.

    A movimentação em torno do aditamento da lei no momento em que um dos membros do BTS completaria 28 anos é vista como um incentivo a esse “soft power”. Com o lançamento do quinto álbum, o grupo coleciona novos recordes. No dia 24 de novembro, eles se tornaram o primeiro grupo de k-pop a receber uma indicação ao Grammy.

    Na segunda-feira (30), eles conseguiram emplacar a terceira música no número 1 das 100 mais tocadas da Billboard. O primeiro número 1 foi há três meses, o que os coloca como a banda que conquistou o feito mais rápido na história desde os Beatles, que fizeram o mesmo em dois meses e três dias, em 1964.

    US$ 1,4 bilhão

    é o quanto ‘Dynamite’, primeira música do BTS a chegar ao número 1 da Billboard, pode gerar à economia sul-coreana, segundo um estudo do governo

    A onda coreana, chamada de “hallyu”, é um projeto do governo, que desde os anos 1990 incentiva o setor com investimentos e isenções fiscais, além de fases de protecionismo do produto nacional. A música especificamente engloba influências e línguas de vários lugares para poder chegar a mais cantos do mundo. Com isso, arrecada cifras volumosas que arrefecem normas históricas como a do serviço militar.

    0,3%

    do PIB é a estimativa de quanto o BTS dá à economia sul-coreana anualmente, segundo levantamento da revista The Hollywood Reporter em outubro de 2019. A título de comparação, a empresa automobilística KIA dá 2,9%, e a empresa de eletrônicos LG, 3,4%

    US$ 9,5 bilhão

    é o quanto a economia sul-coreana somou em exportações da ‘hallyu’ em 2018, segundo um relatório da Korea Foundation for International Cultural Exchange

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