Os rumos do comitê do Carrefour criado após a morte de Beto Freitas

Coalizão Negra de Direitos afirmou que a proposta da rede de supermercados tenta invisibilizar a gravidade do assassinato e ‘escamotear’ a responsabilidade da empresa no crime

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    A Coalizão Negra por Direitos, que reúne mais de 150 entidades do movimento negro no Brasil, divulgou nota na quarta-feira (2) em que repudia a criação do Comitê Externo de Livre Expressão sobre Diversidade e Inclusão criado pelo Carrefour após o assassinato de João Alberto Silveira de Freitas.

    O grupo reúne intelectuais e empresários negros. Estão nele pessoas como Rachel Maia, ex-CEO da Lacoste no Brasil, Celso Athayde, criador da Cufa (Central Única das Favelas), e Silvio Almeida, professor de direito da FGV (Fundação Getulio Vargas) e presidente do Instituto Luiz Gama.

    O anúncio do comitê foi feito no dia 25 de novembro, uma semana após da morte de Freitas. Homem negro, ele foi espancado até a morte em 19 de novembro por dois seguranças brancos da Vector Segurança Patrimonial, empresa que prestava serviço para uma unidade do Carrefour em Porto Alegre (RS).

    O crime gerou manifestações em diversas cidades do país, com passeatas e atos em frente às lojas da empresa. Algumas localidades, como São Paulo, registraram quebra-quebra de manifestantes em filiais como forma de protesto.

    No mercado financeiro, as reações foram difusas. As ações da rede de supermercados francesa tiveram leve queda na parte da manhã do dia seguinte ao crime, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, mas logo se recuperaram, com saldo positivo ao fim do dia. Após a leva de protestos ocorrida no fim de semana, a empresa registrou queda de 5% no valor de suas ações quando os mercados reabriram na segunda-feira. O resultado negativo fez com que o Carrefour adotasse medidas para estancar a crise.

    A rede francesa decidiu direcionar R$ 25 milhões para a criação de um fundo destinado a “combater o racismo estrutural” e instituiu o comitê para balizar as ações da empresa, agora contestado por entidades que formam o movimento negro no país.

    Como o comitê foi criado

    Empresas nacionais e multinacionais têm em suas estruturas organizacionais comitês e unidades específicas para discutir temas ligados à diversidade racial e o combate ao racismo. No entanto, estudiosos do tema questionam qual a real participação dessas companhias no enfrentamento do problema.

    “Quantas dessas políticas empresariais de diversidade e inclusãopodem ser consideradas de fato antirracistas? O quanto as vidas negras realmente importam para essas empresas?”, questionou Sheila de Carvalho, que é advogada internacional e integrante da Uneafro Brasil, em ensaio publicado no Nexo em 20 de novembro.

    No caso do Carrefour, o comitê foi criado com a prerrogativa de “adotar uma política de tolerância zero ao racismo”, como diz um trecho do comunicado divulgado pela companhia. O grupo, segundo a empresa, foi concebido para assessorar, de maneira livre e independente, o Carrefour em diretrizes e ações contra o racismo em todas as unidades da rede.

    Em outro trecho da nota, a empresa diz que a maior motivação para o comitê é o dever moral de tentar impedir que mais pessoas negras morram, com o objetivo de orientar e embasar um amplo plano de ação de combate ao racismo estrutural no varejo e em toda sociedade”.

    O texto listou iniciativas apontadas pelo comitê que devem ser seguidas pela empresa nos próximos meses, como a contratação de mais funcionários negros, apoio a instituições de ensino para a formação de jovens negros, mudanças no modelo de segurança utilizado nas lojas, entre outras medidas.

    O que dizem seus integrantes

    O jurista Silvio Almeida, autor do livro Racismo Estrutural (ed. Jandaíra), disse nas redes sociais que o comitê não se trata de um grupo de diversidadee que a proposta é fornecer uma pauta que permitirá que a sociedade – inclusive as autoridades estatais – cobre a empresa em relação à sua implementação.

    Almeida declarou que não trabalha para o Carrefour. Não fui chamado pela empresa e nem irei funcionar como ‘assessor’. O intuito do comitê é propor formas de reparação e meios de responsabilização que possam contemplar a família de João Alberto, mas também ao conjunto da sociedade, disse o jurista.

    Celso Athayde também utilizou o Twitter para explicar sua participação no grupo. “Enquanto vamos responsabilizando quem precisa responder, precisamos em paralelo construir caminhos para nos mantermos vivos e avançar em nossas pautas. Mesmo diante das tragédias não podemos parar e nem regredir”, afirmou.

    Quais são as críticas ao comitê

    A Coalizão Negra por Direitos questiona o propósito do grupo. De acordo com a organização, a proposta do Carrefour tenta invisibilizar a gravidade do assassinato que vitimou Beto Freitas e escamoteara responsabilidade da empresa no fato.

    Regina Adami, ativista pelos direitos humanos e integrante da Coalizão, diz que o comitê serve para aliviar a culpa do Carrefour no incidente. A empresa não é vítima e não pode ser vista como tal. E uma porção de nominados não podem corroborar essa visão, afirmou ao Nexo.

    A Coalizão relembra ainda outros episódios recentes de racismo envolvendo o Carrefour. Januário Alves de Santana, homem negro de 39 anos, foi agredido por cinco seguranças quando tentava entrar no próprio carro em 2009; Luís Carlos Gomes, homem negro com deficiência física, sofreu agressão em 2018 por seguranças da rede; e Moisés Santos, representante de vendas, morreu durante a jornada de trabalho em uma unidade do supermercado no Recife e teve o corpo deixado no chão pelos funcionários, rodeado por guarda-sóis e engradados de cerveja que o cobriam.

    A nota diz ainda que a “atuação individualizada de sujeitos” não será capaz de resolver “um problema que estrutura absolutamente todas as relações sociais deste país”. “Não há possibilidade efetiva para a superação do racismo sem a organização política de negros e negras”, afirma o documento.

    Adami acredita que o foco agora seja responsabilizar os envolvidos no assassinato. Já pedimos ao Ministério Público Federal o fechamento da loja em Porto Alegre e a responsabilização da empresa Vector Segurança Patrimonial. É preciso coibir o racismo como a lei prevê. Se as pessoas entendem que o ato de racismo não tem consequências legais, a situação que nós vivemos de discriminação não vai mudar, disse.

    O pedido para cassar o alvará de funcionamento da loja onde Beto Freitas foi assassinado em Porto Alegre tem como base a Lei Orgânica do Município. A lei afirma que empresas podem ser penalizadas por atos de discriminação racial, de gênero, de orientação sexual, étnica e religiosa, entre outros delitos.

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