Flip 2020: online, sem curadora nem autor homenageado

Evento chega a sua 18ª edição durante a pandemia e terá nomes como Ana Paula Maia, Caetano Veloso e Eileen Myles

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    A Flip de 2020 tem início na quinta-feira (3), com programação que vai até o domingo (6). Com a pandemia do novo coronavírus, o evento será remoto e gratuito, com as mesas transmitidas via YouTube. A 18ª edição da Festa Literária de Paraty, porém, não é atípica apenas pela crise mundial de saúde. Houve outros entraves.

    O primeiro se deu em novembro de 2019, quando a organização do evento anunciou que a escritora americana Elizabeth Bishop seria a autora homenageada em 2020. Bishop, primeira estrangeira a ser escolhida, teve uma relação próxima do Brasil. Morou no país por quase duas décadas. As críticas à escolha vieram porque a escritora apoiou o golpe de 1964, que instaurou uma ditadura que se estendeu até a metade da década de 1980.

    Em uma carta ao poeta americano Robert Lowell, Bishop escreveu, três dias depois do golpe de 64, que “foi uma revolução rápida e bonita”. Em outra correspondência com Lowell, a escritora afirmou que “a suspensão dos direitos, a cassação de boa parte do Congresso, etc, tinha de ser feita, por mais sinistro que pareça”.

    À época do anúncio, a organização da Flip se defendeu afirmando que a escolha foi feita justamente porque Bishop teve “uma relação estreita e conflituosa com o Brasil”. Em outubro de 2020, porém, a organização da Flip anunciou que tinha desistido da homenagem. A justificativa foi de que a pandemia faz com que os tempos não sejam de celebração. A homenagem foi substituída pelo plano de rememorar grandes nomes da cultura brasileira que morreram recentemente, como Aldir Blanc e Sérgio Sant’Anna.

    A Flip também se deparou com a ausência de um curador em 2020. No mês de agosto, a jornalista e editora Fernanda Diamant anunciou sua saída do cargo de curadora, que ocupava desde 2018. Ela justificou a demissão dizendo que era hora do evento se reinventar e dar o posto a uma mulher negra – algo que nunca ocorreu nos 18 anos do festival.

    Diamant ainda afirmou que, além de reinventar a curadoria, o evento como um todo precisava ser repensado diante das mudanças globais causadas pela pandemia.

    A programação da festa

    Entre os convidados da Flip 2020 estão autores como Ana Paula Maia (“Enterre seus mortos”), Caetano Veloso (“Narciso em férias”), Stephanie Borges (“Talvez precisemos de um nome para isso”) e a americana Eileen Myles (“Chelsea Girls”).

    Na quinta-feira (3), a Flip conta com duas mesas, incluindo uma conversa entre Stephanie Borges e Bernardine Evaristo (“Garota, mulher, outras”) sobre literaturas que, de alguma forma, tratam da diáspora africana, e que terá início às 18h30.

    Na sexta-feira (4), mais duas mesas. A primeira, às 18h, é uma conversa com a americana Eileen Myles, mediada por Bruna Beber e Mariana Ruggieri, tradutoras da obra da autora no Brasil.

    A segunda, às 20h30, trará uma conversa entre a colombiana Pilar Quintana (“La Perra”) e a brasileira Ana Paula Maia, autoras que, apesar de diferentes, tratam de questões semelhantes em suas obras, que abordam, com uma pitada de fantasia, as vidas de personagens comuns se deparando com situações extraordinárias. A mediação será do crítico literário Schneider Carpeggiani, editor do Suplemento Pernambuco.

    No sábado (5), a Flip vai contar com três mesas. Uma delas, às 16h, trará a historiadora e colunista do Nexo Lilia Schwarcz discorrendo sobre as muitas faces do autoritarismo, com mediação de Flávia Lima, ombudsman do jornal Folha de S.Paulo. Outra, às 20h30, vai abordar a liberdade, em uma conversa entre Caetano Veloso e o escritor espanhol Paul B. Preciado.

    No domingo (6), último dia do evento, a Flip vai apresentar quatro mesas. Uma delas, às 16h, tem como eixo central um diálogo entre a americana Regina Porter (“Os viajantes”) e o brasileiro Jeferson Tenório (“O avesso da pele”), autores que tem o racismo e a desigualdade como temas centrais. A mediação será do jornalista Guilherme Henrique, redator do Nexo.

    Mais detalhes da programação e dos convidados podem ser encontrados no site da Flip. Nas edições presenciais da Flip, há uma série de mesas que ocorrem paralelamente à programação principal. Em 2020, essas aconteceram entre os dias 24 e 27 de novembro.

    Um breve histórico da Flip

    Criada em 2003, a Flip se tornou um dos principais eventos literários do país ao longo dos anos. Idealizado pela editora inglesa Liz Calder, que morou no Brasil, o festival segue os moldes de outros eventos similares consolidados no mundo, como o Festival Internacional de Autores, no Canadá, e o Festival Literário de Mantova, na Itália.

    Para as editoras, a Flip é um importante ponto de divulgação de seus autores e obras, bem como um local propício para suas vendas, já que a festa é visitada por alguns milhares de visitantes anualmente. Para os autores, além da divulgação das obras, a Flip é um bom espaço para conhecer leitores e trocar ideias com outros escritores.

    O evento também é importante para a cidade de Paraty, que tem o turismo como uma de suas principais forças econômicas e que tem a Flip como a geradora de maior movimento para o município.

    Outras festas literárias no ambiente digital

    A Flip não foi o único evento literário a adotar um modelo digital para o ano da pandemia. O mesmo aconteceu com o Festival Literário de Araxá, costumeiramente sediado em Minas Gerais. O evento virtual ocorreu entre 28 de outubro e 1º de novembro, e contou com mesas que discutiam temas como a literatura na adolescência, representação identitária na literatura e a relação entre os livros e a crítica social.

    O FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte) também migrou para o ambiente digital. O evento se deu entre 5 de junho e 3 de julho, e contou com mesas de discussão transmitidas ao vivo que abordavam questões como a experimentação nas histórias em quadrinhos e como as HQs podem ser um meio de discussão política.

    A Festa do Livro da USP – uma grande feira de venda de livros com descontos que ocorre todos os anos na universidade paulista – também aderiu às plataformas digitais. O evento ocorreu entre os dias 9 e 15 de novembro, e levou os visitantes para as lojas virtuais das editoras participantes.

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