Como estes satélites coletam dados do aumento do nível dos mares

O Sentinel-6 Michael Freilich dá prosseguimento a um programa há quase 30 anos em exercício que ajuda cientistas a entender os efeitos da crise climática sobre as águas marinhas pelo mundo

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No dia 21 de novembro, a Nasa, agência espacial americana, e a Agência Espacial Europeia lançaram ao espaço o Sentinel-6 Michael Freilich. Trata-se de um satélite que coletará dados sobre o aumento dos níveis do mar e ajudará cientistas a entender os efeitos da crise climática sobre o desenho dos litorais pelo mundo.

Segundo pesquisadores da agência americana, a melhor forma de observar o avanço dos oceanos é por meio de imagens do espaço. Não à toa, o novo satélite dá continuidade a um programa da Nasa com esse objetivo há 28 anos em exercício.

O Sentinel-6 é o primeiro de dois satélites climáticos que farão a medição pelos próximos dez anos. O segundo, Sentinel-6B, será lançado em cinco anos e dará prosseguimento aos trabalhos do satélite-irmão. O “sobrenome”, Michael Freilich, foi dado em homenagem a um ex-diretor da Nasa morto em agosto em decorrência de um câncer.

Como o satélite funciona

Para fazer a medição, o satélite dispara sinais eletromagnéticos do espaço em direção aos oceanos. Esses sinais batem no solo marinho e voltam ao satélite. Como a distância do Sentinel-6 da Terra é fixa — 1.336 km —, o tempo a mais ou a menos para fazer esse trajeto é convertido em valores de nível do mar.

O satélite traz um radiômetro para diferenciar as moléculas de água da atmosfera das de água do mar, e assim não enviesar o cálculo. Ele também está calibrado para medir altura de ondas, velocidade dos mares e propriedades físicas da atmosfera terrestre. Esse último parâmetro é essencial tanto para fornecer dados de previsão do tempo quanto de efeitos da crise climática nas camadas de ar do planeta.

Uma outra vantagem do Sentinel-6 em relação a modelos passados é a capacidade de medição de variações do nível do mar em linhas costeiras. Até então, os satélites eram capazes de monitorar porções de água e fenômenos climáticos que se estendiam por grandes áreas. Com a novidade, será possível acompanhar de forma mais direta os impactos na navegação e pesca de uma região, por exemplo.

Como esses satélites contribuem para os estudos de nível do mar

O primeiro satélite da Nasa foi o Topex/Poseidon, lançado em 1992, que mapeou a topografia da superfície dos oceanos. Desde então, outros três projetos foram enviados ao espaço (em 2001, 2008 e 2016) para monitorar o avanço dos mares, com recursos aprimorados a cada nova empreitada.

Para compilar os dados, a Nasa também reúne informações de missões com astronautas, medições no mar e cálculos de outras agências pelo mundo. Com isso, vê-se uma tendência de aumento acelerado do nível dos mares nas últimas duas décadas.

3,3 mm

é o aumento anual médio do nível dos mares entre janeiro de 1993 e julho de 2020, segundo a Nasa

95,2 mm

é quanto o nível do mar subiu entre janeiro de 1993 e julho de 2020, segundo a Nasa

Essa elevação do nível do mar acontece em decorrência do aumento da emissão de gases causadores do efeito estufa: em primeiro lugar, o derretimento de geleiras, coberturas de neve e gelo, e solos congelados adicionam um volume extra de água nos oceanos; em segundo, as moléculas de água do mar absorvem mais de 90% do calor que fica retido na atmosfera terrestre e expandem.

Com o satélite ICESat-2, lançado em 2018 pela Nasa, cientistas puderam monitorar variações mínimas de camadas de gelo, e como o descolamento delas contribui para o aumento do nível do mar. Assim, os cientistas mostraram que esse degelo é responsável por dois terços do volume de água que se soma aos oceanos — o outro um terço é por expansão das moléculas de água.

Os números do satélite apontam, por exemplo, que o volume de degelo da Groenlândia e Antártica somadas entre 2006 e 2020 é suficiente para cobrir de água 318 Central Parks de Nova York a uma profundidade de 300 metros.

A Nasa também usa satélites e pesquisas de campo para estudar outros fatores que impactam no aumento do nível do mar. Um deles é a circulação dos oceanos, afinal, a água não é uma massa uniforme por todo o globo. Por conta da gravidade, vento, correntes marítimas e efeitos de ressurgência, algumas regiões têm índices de aumento do nível do mar muito maiores que outras. Em 2022, a Nasa lançará o satélite Swot para fazer medições sobre a circulação dos oceanos.

Graças aos dados desses satélites, cientistas puderam apontar o impacto do aumento do nível dos mares e as altas temperaturas. Entre elas estão a intensificação de eventos extremos, como ciclones e chuvas tropicais intensas; alterações químicas das águas, afetando a fauna e flora marinha; e riscos às populações de zonas costeiras que, em certas localidades, podem ficar submersas. Outras pesquisas também estimaram a elevação das águas para o futuro.

38 cm

é a previsão de aumento do nível do mar até 2100 tendo como base o volume atual de emissões de gases causadores do efeito estufa, segundo estudo da Nasa

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