Como as redes sociais impactam a rotina dos idosos

Ídolos mais velhos fazem sucesso com perfis no Instagram e no TikTok. O ‘Nexo’ conversou com duas especialistas sobre os efeitos desse fenômeno e sua relação com a pandemia

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    Foi repetindo o seu bordão “vocês vão ter que me engolir!” que Mário Jorge Lobo Zagallo inaugurou no início de novembro de 2020 seu perfil no Instagram. Aos 89 anos, o ex-jogador e ex-técnico da Seleção Brasileira já soma mais de 40 mil seguidores na rede social.

    Em seu primeiro vídeo, o velho Lobo, como é conhecido, diz que sua página foi criada para que seus seguidores possam conhecer mais sobre sua vida e sua história no futebol. Sempre vestido com o uniforme do Brasil, ele se descreve como “eternamente apaixonado pela amarelinha”.

    Passados 12 anos de seu último trabalho com o futebol – como coordenador da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Alemanha em 2006 –, Zagallo continua fanático pelo esporte que o consagrou.

    Em outro vídeo de seu perfil, em que convida os seguidores a acompanhar uma partida do Brasil, ele brinca: “o velho Lobo ‘tá on’!”, fazendo referência a uma frase do atacante Neymar Jr. que viralizou nas redes sociais em meados de agosto.

    Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, um dos filhos de Zagallo, Mário Sérgio, disse que escolher as fotos e gravar os vídeos para o perfil se tornou um dos passatempos do pai durante a pandemia. Sem sair de casa por oito meses, Zagallo viu no Instagram uma forma de interagir com outras pessoas. “Fazer isso trouxe vida a ele e também mais proximidade dos fãs, que ele sempre adorou”, afirmou o filho.

    Outros idosos também viralizaram nas redes sociais. No TikTok, destinado à criação e ao compartilhamento de vídeos curtos, Rosalina Bortolassi, de 87 anos, soma quase 1 milhão de seguidores. Vó Rosalina, como é conhecida na rede, está desde março isolada com a neta em um sítio em Londrina (PR) e encontrou nos vídeos uma atividade para se ocupar durante o confinamento. “Minha vó está muito mais feliz, animada e querendo gravar mais”, contou a neta ao portal Yahoo!.

    Nos EUA, o texano Stephen Austin, de 82 anos, compartilha diariamente cenas da sua rotina com 1,4 milhão de seguidores. Com muito carisma e bom humor, ele diverte os usuários do TikTok com vídeos em que aparece preparando receitas simples, como uma tigela de cereal com leite ou sanduíches. Em fevereiro, Austin disse em uma entrevista que não tem netos e que o carinho dos jovens o faz se sentir amado e menos solitário.

    O uso da internet por idosos

    Um estudo de março de 2019 realizado pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade de Informação) identificou uma relação entre a idade e o acesso à internet. Os dados analisados pela pesquisa mostraram que, numa média nacional, 67% da população brasileira faz uso da rede. Entre os idosos (60 anos ou mais), esse número cai para 25%.

    Apesar de bem abaixo da média nacional, o número de idosos que acessam a internet vem crescendo. De acordo com o estudo, essa faixa etária foi a que registrou o maior aumento no número de usuários da rede entre 2015 e 2017 – um crescimento de 56%. A pesquisa constatou também que os idosos acessam a internet majoritariamente por meio de smartphones.

    Os usos que os idosos fazem da rede são diferentes daquele de pessoas mais jovens, o que abre um novo nicho no ambiente virtual. Ainda de acordo com o estudo, esse segmento ainda é pouco explorado pela Academia e pela indústria, que elegem crianças e adolescentes como os definidores de grande parte das tendências digitais.

    A adesão dos idosos às redes sociais sob análise

    O Nexo conversou com duas especialistas sobre os impactos das redes sociais na rotina dos idosos:

    • Tássia Monique Chiarelli, gerontóloga doutoranda na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), escreveu dois livros sobre o assunto: “Empreendedorismo no mercado da longevidade” e “Tecnologias e envelhecimento ativo”
    • Gisela Castro, doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) com pós-doutorado em sociologia no Goldsmiths College (University of London), professora da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) e coordenadora do Laboratório de Estudos em Comunicação, Consumo e Longevidade

    Quais são os benefícios das interações nas redes sociais para a sociabilidade dos idosos? Há algum malefício?

    Tássia Monique Chiarelli As redes sociais podem contribuir de diversos modos para a socialização da pessoa idosa e para a melhora da sua qualidade de vida. Uma vez que essas mídias permitem o usuário se conectar com qualquer pessoa, é possível resgatar amizades antigas e fortalecer relações já existentes, fazendo com que seja estabelecido um canal de suporte social ao idoso. Ainda sob esse aspecto, esses espaços podem promover um intercâmbio entre gerações na medida em que nelas podem ser compartilhados momentos e experiências entre pessoas de diferentes idades.

    Um outro benefício a ser destacado é o fato das redes sociais promoverem a inclusão social da pessoa idosa. Ao participar de grupos, entender o uso de termos específicos durante a comunicação, como gírias usadas nessas mídias, o idoso passa a se sentir parte integrante deles. Além disso, essas redes possuem algumas ferramentas que permitem as pessoas continuarem se relacionando mesmo com as alterações físicas e cognitivas decorrentes do processo de envelhecimento. Por exemplo: pessoas com problemas na fala podem usar a comunicação escrita para interagir com as outras.

    Ao mesmo tempo, para que mantenham relacionamentos saudáveis nesses ambientes, os novos usuários idosos precisam ser orientados a usar a tecnologia de modo consciente e responsável para não terem sua privacidade invadida e a se manter alertas quanto à desinformação que as redes sociais podem gerar. É preciso ter claro, também, que a socialização dessa população não pode ocorrer apenas nas redes sociais – trocas no ambiente presencial devem ser estimuladas, de modo que essas mídias sirvam de mediadores ao relacionamento entre as pessoas.

    Gisela Castro Em muitos casos, as redes sociais online, às quais eu tenho chamado de redes telemáticas de comunicação, sociabilidade e negócios, têm sido a única possibilidade de contato entre membros de uma mesma família ou grupo de amigos que não podem se encontrar presencialmente. Se antes da pandemia os idosos eram o grupo etário que mais crescia dentre os usuários do Whatsapp, Facebook e outros, agora há mais um motivo para atrair novos adeptos dentre os que ainda não estavam conectados.

    Os benefícios desse movimento estão relacionados a ganhos em termos de sociabilidade. Há também a sensação de inclusão, de não estar “por fora” do que tantos outros estão discutindo e fazendo. Como malefício, chamo a atenção para a diferença entre letramento (ou literacia) digital e letramento informacional. O primeiro diz respeito a saber utilizar as ferramentas, enquanto o segundo tem a ver com o desenvolvimento da capacidade de interagir criticamente com o conteúdo que é distribuído online, diferenciando por exemplo o que é verdadeiro do que é falso. A habilidade de utilizar a rede de modo responsável, sabendo gerenciar os níveis de exposição e privacidade, sabendo diferenciar entre fontes fidedignas e outras menos confiáveis é um requisito fundamental – não somente para os mais velhos, mas em qualquer idade.

    Os impactos da pandemia sobre os idosos influenciam em sua adesão às redes sociais?

    Tássia Monique Chiarelli O cultivo de relações próximas e significativas se torna mais relevante à medida que nós vamos envelhecendo. Por isso, é importante entender o valor das relações sociais para os idosos como algo profundo e que interfere totalmente na sua saúde e qualidade de vida. Em um estudo realizado em 2017 pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, em parceria com a Bayer, o maior medo apontado pelos entrevistados a partir de 55 anos foi a solidão. Sim, solidão dói e faz adoecer.

    O distanciamento físico, preconizado no período de pandemia, impulsionou o uso de diferentes tipos de tecnologia como uma forma de evitar o isolamento social e a solidão. As mídias sociais já estavam ganhando força entre os mais velhos como forma de comunicação e relacionamento, e a pandemia veio intensificar o seu uso.

    Gisela Castro Uma consequência grave da pandemia é o fato de muitos idosos terem ficado ainda mais isolados e solitários porque suas oportunidades de interagir com outras pessoas, incluindo amigos e familiares, foram consideravelmente reduzidas. Por conta do distanciamento social, as interações em plataformas como Zoom, WhatsApp, Skype, FaceTime e outras são um alívio bem-vindo contra a solidão e a falta de contato com os entes queridos e redes de apoio.

    Uma grande alegria da vida longeva é uma boa convivência entre as gerações. De um modo geral, essa convivência tem sido menos estimulada nos novos arranjos familiares. Como consequência, há pouca tolerância a tudo aquilo que torna os mais velhos diferentes do padrão da juventude, tomado como universal. Quando somos estimulados a aparentar e a nos comportar como jovens em qualquer idade, gera-se uma espécie de naturalização do preconceito por idade, o idadismo ou etarismo (em inglês, ageism). Atualmente fala-se muito na promoção da diversidade, mas a diversidade etária é ainda um grande ponto cego nas discussões sobre a sociedade inclusiva e diversa que pretendemos construir.

    Quais as oportunidades que se abrem aos governos e ao mercado com a adesão dos idosos às redes sociais?

    Tássia Monique Chiarelli Quando o idoso começa a fazer uso contínuo das redes sociais ele passa a se sentir mais capaz de utilizar essa e outras tecnologias. Portanto, o governo e o mercado podem aproveitar essa oportunidade para ofertar programas, serviços e produtos que envolvam tecnologia, podendo contribuir com a adesão e engajamento do usuário idoso.

    Muitas vezes se cobra da pessoa idosa que ela faça uso das tecnologias sem que as condições para que isso aconteça sejam ofertadas. O consumidor idoso continua envelhecendo, com uma trajetória de perdas e ganhos ao longo do tempo. A velhice é a fase mais longa da vida e pode envolver alterações que contribuam para o desengajamento digital. Por isso, chamo atenção para a responsabilidade das instituições públicas e privadas em utilizar tecnologias mais amigáveis e em oferecer orientações e materiais educativos que auxiliem e apoiem os idosos nesse processo de inclusão digital.

    Gisela Castro Ao mercado interessam que as interações online se espraiem por mais e mais grupos sociais por vários motivos. Dentre eles o fato dessas interações gerarem dados que podem ser utilizados de várias maneiras, em especial para construir métricas que alimentam estratégias de marketing e conduzem a uma hipersegmentação do público consumidor, visando uma comunicação customizada, relevante e atraente. Os dados também podem ser valiosos para governos que souberem utilizá-los, por exemplo, para o monitoramento de situações de crise e a gestão adequada de recursos.

    Se é fato que o mercado grisalho, até por seu tamanho nada desprezível em termos de poder aquisitivo, já não é mais tão negligenciado no Brasil, nossos governos ainda têm muito o que fazer para saldar a enorme dívida social em relação aos idosos – notadamente aqueles que são mais vulneráveis em termos socioeconômicos e de saúde.

    A longevidade é uma conquista do contemporâneo: mais gente vive hoje vidas mais longas – e isso é muito bom! Agora precisamos melhorar a qualidade da vida dos longevos, inclusive proporcionando a eles condições adequadas para o letramento digital e informacional em clima de cordialidade e respeito. Só assim conseguiremos constituir a sociedade para todas as idades, em que se possa transitar com desenvoltura pelos ambientes online e offline.

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