A transição de Elliot Page e o respeito à comunidade trans

Ator de ‘Juno’ e ‘The Umbrella Academy’ se assumiu como transgênero em post que viralizou. Entidades apontaram tratamentos preconceituosos em notícias sobre o acontecimento

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    O ator, produtor e diretor canadense Elliot Page se assumiu como transgênero na quarta-feira (2), em um post no Instagram. Page alcançou fama mundial após protagonizar o filme “Juno”, pelo qual foi indicado ao Oscar em 2008, e atualmente estrela a série de TV “The Umbrella Academy”.

    “Sinto-me sortudo por estar escrevendo isso”, disse. “Estar aqui. Por ter chegado a este lugar em minha vida... Eu não posso começar a expressar como é notável finalmente amar quem eu sou o suficiente para buscar meu eu autêntico.” O ator de 33 anos disse no texto que os pronomes de tratamento que escolheu para si são “ele” e “they”, termo frequentemente usado na língua inglesa para designar neutralidade de gênero.

    Page afirmou que tem receio do preconceito que pode vir a sofrer com a declaração. “Estou com medo da invasão, do ódio, das ‘piadas' e da violência”, sublinhou. O ator lembrou que a discriminação contra pessoas trans é “generalizada, insidiosa e cruel”. Ele citou estatística que, apenas em 2020, 40 pessoas trans foram assassinadas nos Estados Unidos.

    No Brasil, 129 pessoas trans foram mortas nos oito primeiros meses de 2020, segundo a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). O total já é mais que os 124 indivíduos trans assassinados em todo o ano de 2019.

    Em 2016, Page entrevistou o então deputado federal Jair Bolsonaro no Brasil para a série documental “Gaycation”. Na época, o ator se apresentava como uma mulher lésbica. Ouviu de Bolsonaro frases como “você foge da normalidade” e “você beira, com todo respeito, à teoria do absurdo”. O então congressista afirmou ainda ao ator: “se eu fosse cadete militar das Agulhas Negras, se eu te encontrasse na rua, eu iria assobiar para você”.

    Visibilidade trans

    A hashtag #Elliot chegou a ser o assunto mais comentado no Twitter em vários países, incluindo EUA, Canadá, Reino Unido, França, Brasil, Austrália, Nova Zelândia e Coreia do Sul. O post do Instagram com a declaração do ator contava com quase 2,8 milhões de curtidas e mais de 120 mil comentários até a noite de quarta-feira (2).

    Para ativistas LGBTI, o posicionamento de Page tem um efeito positivo na visibilidade e aceitação de pessoas trans. “A vasta maioria dos americanos ainda acredita que nunca conheceram alguém na sua família, local de trabalho ou escola que seja transgênero”, observou Nick Adams, da ONG Glaad, que monitora o tratamento da comunidade LGBTI na mídia, à revista Variety.

    “Quando alguém como Elliot Page diz ao mundo que ele é, na verdade, transgênero, um ator que as pessoas respeitam, admiram e amam há anos, isso permite que sintam como se agora conhecessem uma pessoa trans. É muito importante”, frisou Adams.

    Em sua declaração no Instagram, Page destacou a inspiração que recebeu de pessoas na comunidade trans para realizar seu processo de transição. O termo se refere à mudança na apresentação de gênero de uma pessoa e inclui alterações na aparência e em denominações. É comum que esse processo inclua tratamentos hormonais e/ou cirúrgicos.

    Críticas à cobertura da imprensa

    Para ativistas, a maneira como a notícia foi reportada por alguns veículos evidenciou procedimentos considerados discriminatórios. Um dos principais problemas apontados foi a referência ao ator por seu “nome morto”, termo que designa o nome de uma pessoa antes da transição, ou seja, um nome que ela não usa mais.

    “É possível identificar Elliot para o seu público claramente apenas destacando os projetos pelos quais ele é mais conhecido”, escreveu a Associação dos Jornalistas Trans, dos EUA, em um post no Twitter. “Não há razão para usar seu nome morto em sua cobertura hoje ou no futuro”.

    Tanto a Glaad como a Associação dos Jornalistas Trans chamaram a atenção para cartilhas que publicaram com orientações sobre como cobrir personagens trans.

    Para a associação, a mídia tem grande responsabilidade na maneira como o público discute e pensa sobre pessoas transgêneras uma vez que apenas um quarto da população americana tem um amigo próximo ou membro da família que é trans assumido.

    Entre as recomendações da cartilha da entidade, numa seção intitulada “Orientação sobre uma cobertura respeitosa”, está o de usar o nome e os pronomes correntes de uma pessoa ao escrever sobre ela no passado, a menos que peçam um tratamento diferente. Se alguma citação de fonte mencionar um personagem trans pelo seu nome morto, o jornalista deve acrescentar uma observação.

    A cartilha também orienta a imprensa a evitar tratar o gênero de uma pessoa trans como se fosse algo especial, destacando o fato de ser homem ou mulher. “Se não fazemos isso com o gênero de uma pessoa cis, não deveríamos precisar explicar ou chamar atenção desnecessária ao gênero de uma pessoa trans”, aconselha o texto.

    Imagens com comparações entre “antes” e “depois” da transição devem ser evitadas, assim como registros de gênero estereotipados. Por exemplo, uma mulher trans que se maquia ou usa salto ou um homem trans que está na academia fazendo exercícios.

    O conteúdo das cartilhas ecoa recomendações para tratamento de pessoas trans na sociedade em geral. No SUS (Sistema Único de Saúde), por exemplo, a identificação pelo nome social é direito desde 2009. “Independente do registro civil ou de decisão judicial, é direito do(a) usuário(a) ser identificado(a) e atendido(a) nas unidades de saúde pelo nome de sua preferência”, dita a cartilha da organização.

    Em março de 2018, o Supremo Tribunal Federal garantiu a possibilidade de que transgêneros no Brasil alterem o sexo e o nome presentes no registro civil, sem precisar obter autorização judicial. O processo poderá ser realizado em cartório.

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