Qual o balanço para as forças políticas após o segundo turno de 2020

Bolsonaro e seu discurso antissistema, assim como o PT, saem enfraquecidos das eleições municipais. Analistas comentam o cenário de disputa de poder a partir de agora

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As eleições municipais de 2020 terminaram no domingo (29) com votações de segundo turno em 57 cidades, 18 delas capitais. Segundo cientistas políticos ouvidos pelo Nexo, o presidente Jair Bolsonaro e o PT do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva saem como os principais derrotados da disputa.

Em seus discursos de vitória, Bruno Covas (PSDB), reeleito em São Paulo, e Eduardo Paes (DEM), que retornou ao cargo que ocupou entre 2009 e 2016, criticaram indiretamente Bolsonaro. O tucano chegou a dizer que “restam poucos dias para o negacionismo e o obscurantismo”, numa referência às atitudes do presidente.

Seguindo uma tendência já registrada no primeiro turno, Bolsonaro viu candidatos apoiados por ele perderem. Isso ocorreu, no segundo turno, no Rio, em Fortaleza e em Belém. Integrante do campo bolsonarista, Delegado Pazolini (Republicanos) venceu em Vitória (ES), mas tentando manter distância do presidente.

Já o PT, que nas eleições presidenciais de 2018 foi derrotado no segundo turno por Bolsonaro, não venceu em nenhuma capital. É a primeira vez que isso ocorre desde a redemocratização. O partido de Lula teve vitórias pontuais em cidades maiores, como por exemplo em Diadema e Mauá, na Grande São Paulo.

O MDB foi o partido que mais prefeituras conquistou em 2020, incluindo cinco capitais, mas encolheu na comparação com a eleição municipal anterior. Já o DEM ampliou seu espaço pelo país, assim como partidos do chamado centrão, como Progressistas e PSD.

Mais uma vez, o Brasil viu apenas uma mulher conquistar a prefeitura de uma capital. Em 2020, isso ocorreu em Palmas, com a tucana Cinthia Ribeiro — ela não precisou disputar o segundo turno.

O Nexo ouviu três cientistas políticos sobre o balanço dos resultados e sobre a configuração de forças que saem das urnas. São eles:

  • Rachel Meneguello, professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)
  • Carlos Melo, professor do Insper
  • Carlos Pereira, professor da FGV-RJ (Fundação Getulio Vargas)

Com o resultado do segundo turno, quem são os vencedores e quem são os perdedores da eleição?

Rachel Meneguello Quem vence as eleições em termos globais são os partidos de direita e de centro-direita, sobretudo DEM, PSD e Progressistas. O MDB continua sendo o partido com o maior número de prefeituras no país, mas teve uma perda significativa entre a eleição de 2016 e a atual.

A vitória do PSDB em São Paulo é algo a destacar: é a maior cidade do país e consagra o domínio do PSDB no estado, um fenômeno de hegemonia que ocorre há mais de 20 anos. Isso delineia a distribuição de poder no PSDB nacional, colocando essa nova geração de lideranças do partido em proeminência, ocupando os espaços do PSDB histórico.

O principal perdedor foi o bolsonarismo. A influência e apoio do presidente Bolsonaro tiveram impacto negativo, e esse é um indicativo importante de reorganização da política partidária em nível local.

Apesar das vitórias de PDT [em Fortaleza e Aracaju] , PSB [em Recife e Maceió] e PSOL [em Belém], o bloco de partidos à esquerda e centro-esquerda perdeu força significativa nessas eleições.

Nesse campo, o maior perdedor foi o PT, que não conseguiu recuperar as perdas já ocorridas em 2016. O partido teve vitórias em cidades importantes, como Diadema e Contagem, em Minas, mas seu desempenho local foi muito negativo.

Carlos Melo O grande derrotado é 2018 e o espírito que cercou aquela eleição. Uma revolta, uma fúria, um discurso que pregava o fim da política, que isso resolveria alguma coisa. As eleições municipais de 2020 marcam uma volta ao status quo da política.

Antigos prefeitos foram reconduzidos e o radicalismo foi rejeitado, assim como o bolsonarismo. Bolsonaro não elegeu nenhum dos seus candidatos que ele apoiou diretamente. E teve uma derrota complicada no Rio, sua base política, com Marcelo Crivella.

O petismo sai desgastado, sem nenhuma capital. E com desempenho muito fraco em São Paulo. Não é só o fato de não chegar ao segundo turno, mas de ficar na sexta posição com o [Jilmar] Tatto. Isso é algo complicadíssimo para a legenda que já comandou a cidade em três oportunidades.

Por outro lado, a maior vitória é da política democrática. A ideia de que você precisa discutir os problemas e encontrar soluções em conjunto. Bruno Covas disse algo após ser eleito. Houve uma reprovação ao negacionismo, à ideia de que ciência ou o bom senso não são importantes. Isso é uma derrota para Bolsonaro.

Os partidos de centro e centro-direita saíram mais organizados dessa eleição. O DEM sai muito fortalecido, com quatro capitais e um avanço importante. O MDB perdeu prefeituras, mas ainda continua como a sigla que comanda o maior número de municípios no país. O PSDB, que perdeu nacionalmente, ficou com a joia da coroa, que é São Paulo.

Carlos Pereira Os vencedores são os partidos e candidatos que apostaram na moderação e em saídas não-extremas. E os perdedores são aqueles que apostaram na polarização, como o PT, grande derrotado da esquerda, e Bolsonaro, grande derrotado da direita.

Os partidos de centro perceberam que durante a pandemia o eleitor estava disposto a aceitar e endossar saídas previsíveis, em um cenário livre de surpresas. A pandemia gerou tantas incertezas e o medo da morte foi tão impactante na rotina dos eleitores, que eles procuraram uma saída moderada.

Como fica a relação entre os partidos a partir das disputas de 2020, da direita à esquerda?

Rachel Meneguello A política local define uma correlação de forças específicas para os partidos. A maior parte dos municípios do país é formada de municípios pequenos. O número de vitórias traduz a capacidade de organização das agremiações e sua potencial capilaridade, tudo dentro da dinâmica da política local e estadual.

As vitórias nas capitais produzem ressonância maior, com impacto inclusive na política nacional, daí a importância dada pelos partidos para as vitórias nas capitais estaduais.

De toda forma, o que essas eleições mostram é a reorganização partidária do bloco de partidos à direita, com a política partidária tradicional vencendo os parâmetros da escolha, contra um bolsonarismo institucionalmente amorfo. A esquerda vive um processo de fragmentação com difícil resolução.

Carlos Melo A tendência é que haja uma série de conversas buscando algum tipo de aglutinação. Os partidos de extrema direita vão olhar para o desempenho do Bolsonaro e esperar uma definição sobre uma eventual adesão do presidente a algum partido.

As siglas do centrão vão observar o bolsonarismo com olhos muito críticos. Enquanto o presidente tiver algo a oferecer, como recursos e popularidade, o apoio continua. Se esses dois fatores começarem a minguar, eles pulam fora, porque tiveram um bom desempenho nas eleições municipais e construíram uma base, como o Progressistas, por exemplo.

Eles podem deixar o presidente e buscar uma aproximação com os partidos de centro, como DEM, PSDB e MDB. Pode haver uma união, mas há um problema. Algumas pautas até convergem, sobretudo na agenda econômica. O problema é: quem será o rosto que vai resultar dessa coesão?

A esquerda vai precisar juntar os cacos, e isso é muito difícil. O PDT e o PSB fizeram um movimento para ter mais autonomia, sobretudo em relação ao PT. Mas também não vejo espaço para que esses dois partidos estejam com DEM, PSDB e MDB. Sobra PT, PSOL, PCdoB, PSTU e outros radicais.

Nesse cenário, o PT já não é capaz de aglutinar partidos em torno de si, que é a tônica do campo desde a redemocratização. Vai ser em torno do PSOL? Guilherme Boulos [derrotado por Covas no segundo turno em São Paulo] sai mais importante da eleição, mas não a esse ponto. Tudo vai passar pelo ex-presidente Lula. Ele vai decidir se continua como balizador do campo ou se passa o bastão para alguém.

Carlos Pereira Há um descolamento de parte dos eleitores de Bolsonaro que o apoiaram em 2018 e que estão frustrados com o seu governo. São pessoas que só cogitam um novo apoio se ele enfrentar o PT ou algum outro partido de esquerda no segundo turno de 2022.

Esses eleitores estão vagando em busca de candidaturas competitivas na centro-direita. Esses partidos se fortaleceram nessa eleição, o que abriu uma avenida considerável de cooperação entre essas siglas com capacidade de construir uma candidatura coletiva. Resta saber se eles terão inteligência para isso.

Quem pode estar nesse lugar? O governador [de São Paulo] João Doria [do PSDB], o presidente da Câmara, Rodrigo Maia [do DEM], o ex-ministro da Justiça Sergio Moro, o apresentador de TV Luciano Huck. Eles estão conversando para aparar as arestas e construir um caminho. A dificuldade é encontrar uma chapa que consiga organizar essas energias.

A esquerda vai ter dificuldade em construir uma candidatura unificada. O PT não deu sinalizações de que vai mudar sua atitude, também porque tem a maior bancada na Câmara dos Deputados. Ou seja: vai continuar apostando em candidatos próprios, o que mantém a fragmentação vista em algumas capitais. O partido sofreu uma derrota complicada. Aliás, o que se fortaleceu nessa eleição foi uma alternativa não-petista.

Com o enfraquecimento da legenda e a falta de sensibilidade dos seus líderes diante dos escândalos recentes de corrupção e do desastre que foi o governo Dilma Rousseff, o PT insistiu nessa ideia de protagonismo e foi punido pelo eleitor. Boulos surge como uma esquerda mais moderada e palatável nesse momento. Mesmo assim, o desempenho dele no segundo turno foi menor do que se imaginava.

PDT e PSB estão caminhando para uma articulação, com experiências em Recife, Fortaleza e São Paulo. Pode ser que estejam juntos em 2022, mas é difícil prever qual a amplitude desse acordo. Ciro Gomes vai disputar voto na centro-esquerda com um eleitor parecido com o PT. Boulos também briga pelo mesmo espaço.

No que é preciso prestar atenção a partir de agora para entender o jogo político para 2022?

Rachel Meneguello É preciso entender qual movimento o bloco de esquerda deverá fazer. As derrotas no segundo turno da maior parte dos candidatos nas capitais e em grandes cidades do interior do país devem valer como base de cálculo para os partidos vislumbrarem suas possibilidades em 2022.

Isso implica em cálculos de lideranças sobre a ocupação de espaço na política nacional, algo que nunca foi um movimento simples entre os partidos de esquerda no país. O movimento à direita parece mais claro, essas atuais eleições constituíram um espaço importante para a definição de candidaturas nacionais.

Essa candidatura ainda não está consolidada. Nenhum político arrisca se expor por tanto tempo até 2022, algo que poderia gerar um desgaste importante e prejudicar uma eventual campanha. Mas um dos nomes com capacidade para essa articulação é Rodrigo Maia, mas esse quadro ainda não está totalmente visível.

Carlos Melo É preciso observar essas aproximações políticas. Que tipo de acordo vai sair das negociações nesses campos políticos. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso [do PSDB] mencionou hoje [domingo], de maneira sutil, o nome do Eduardo Leite [governador do Rio Grande do Sul]. Isso é um sinal. É preciso olhar o diálogo no campo da esquerda e a maneira como Lula pretende conduzir uma possível agenda de reconstrução do campo.

Na extrema direita, é preciso olhar para o desempenho do governo federal, em questões econômicas e na pandemia do novo coronavírus. O governo vai se reinventar, com melhoras na economia e atuação mais digna no que diz respeito à pandemia?

Se isso acontecer, o cenário é outro. Mas acho difícil que aconteça. Só assim vamos saber se esse governo é capaz de viabilizar algo que facilite a aglutinação em torno dele. Bolsonaro será vidraça em 2022, e isso muda completamente o cenário.

Tem eleição no Congresso em 2021 [para presidência da Câmara e do Senado], algo que faz parte da reinvenção do governo Bolsonaro. Ele vai conseguir se coesionar e eleger o presidente da Câmara? A insistência será no nome do deputado Arthur Lira [do PP de Alagoas] ou vai buscar uma alternativa? DEM, PSDB e MDB estão juntos nessa disputa e podem eleger um sucessor para Maia. O governo não tem maioria no Congresso, mas uma blindagem. Isso tudo terá um peso até 2022.

Carlos Pereira O recado das urnas foi claro, especialmente para Bolsonaro. Se ele quiser continuar sendo competitivo, vai precisar abrir espaço no governo para o centrão. Eu não acredito que esses partidos vão continuar apostando nesse governo se continuarem a ser recompensados da maneira como foi feita até agora.

Os partidos do centrão que dão sustentação ao governo no Congresso ganharam musculatura e vão cobrar um preço maior para continuar apoiando o Planalto. Se o governo não prestar atenção nessas demandas, pode acabar de forma melancólica, como foi com Crivella no Rio de Janeiro. O índice de rejeição vai subir, o suporte político vai acabar e ele [Bolsonaro] vai se tornar tóxico. Ele precisa dividir o poder enquanto há tempo.

Por outro lado, é preciso ver se essas siglas de centro vão construir uma candidatura que possa competir entre os extremos, seja com Bolsonaro ou um candidato à esquerda.

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