Por que o bitcoin voltou a se valorizar em 2020

Depois de boom em 2017 e queda nos anos seguintes, criptomoeda se aproxima novamente de patamar recorde em ano marcado por pandemia e crise econômica

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    O mercado de bitcoin vive uma nova nova explosão em 2020. No ano marcado pela pandemia do novo coronavírus, a criptomoeda registra seu melhor desempenho desde 2017, quando teve o primeiro boom.

    168%

    foi a valorização do bitcoin de 1° de janeiro até 24 de novembro de 2020

    Em 2017, o bitcoin ainda era considerado uma novidade. Mas isso não impediu o valor da moeda de valorizar mais de 1.300% no mercado – o equivalente a multiplicar seu valor mais de 14 vezes.

    Em 16 de dezembro de 2017, a criptomoeda atingiu a máxima histórica ao ser negociada por US$ 19.650. Em 2018, no entanto, o bitcoin perdeu quase três quartos de seu valor.

    EVOLUÇÃO DA MOEDA

    Cotação do bitcoin em cinco anos. Picos no final de 2017 e 2020

    Quase três anos depois da alta histórica, a moeda se aproxima novamente do patamar recorde em 2020. Em 24 de novembro, ela foi negociada no mercado internacional a US$ 19.185 – a primeira vez desde 2017 que a barreira dos US$ 19.000 foi superada.

    O que é o bitcoin

    O bitcoin é a primeira e mais famosa moeda virtual do mundo, que opera em um sistema de pagamento que visa ser prático e descentralizado. Ele foi lançado em 2008 por Satoshi Nakamoto – pseudônimo utilizado pelo responsável (ou responsáveis) pela invenção, cuja identidade é desconhecida – no fórum de discussão The Cryptography Mailing.

    O software usado pelo bitcoin foi lançado em janeiro de 2009. Inicialmente, havia uma rede pequena de computadores operando o sistema, com uma quantidade pequena de dinheiro disponível. Eles encorajavam mais pessoas a entrarem na rede com seus computadores e em troca pagavam em bitcoins.

    Em setembro de 2012 foi fundada a americana Bitcoin Foundation para desenvolver protocolos da criptomoeda. Em dezembro de 2017, a tecnologia estreou na bolsa de valores, no Chicago Board Options Exchange, por meio da negociação de contratos futuros.

    É possível comprar bitcoins na internet seguindo as cotações do dia, da mesma forma como se compra uma moeda estrangeira qualquer. Uma vez que alguém tem a criptomoeda e faz uma transação, o valor da compra é debitado da conta de um usuário e creditado em outra por algum dos inúmeros computadores que formam a rede. Todas as transações já feitas com bitcoins estão registradas em um arquivo comum, que é chamado de “blockchain”, ou cadeia de blocos em uma tradução livre do inglês.

    A diferença para as modalidades de pagamento eletrônico convencionais, como os cartões ou mesmo o Pix, é que o processamento da transação é descentralizado. Quando alguém faz uma compra no débito, o banco e a bandeira do cartão são responsáveis por autorizar e repassar o valor. No Pix, a operação é processada pelo Banco Central.

    No caso do bitcoin, as transferências de recursos podem ser feitas a qualquer momento para qualquer lugar do mundo, sem limite mínimo ou máximo e sem a mediação de um organismo central. Em outras palavras, o bitcoin não é gerido por um banco central, mas por uma comunidade dispersa na internet.

    O boom do bitcoin em 2017

    Antes de 2017, o bitcoin ficava fora dos principais círculos financeiros. Mas naquele ano, a criptomoeda começou a crescer em ritmo acelerado, impulsionada por aperfeiçoamentos tecnológicos e pela maior aceitação da ideia de uma moeda totalmente digital.

    Mas a atração de compradores em direção ao bitcoin também estava ligada ao aspecto especulativo. O próprio preço da moeda, que subia cada vez mais, foi captando novos investidores que buscavam apenas lucrar com a valorização. A ideia era comprar por um valor e vender mais caro algum tempo depois.

    Isso ajudou a aumentar ainda mais a volatilidade do mercado, criando uma bolha – quando o preço de um ativo qualquer se descola de seu valor real. A bolha estourou ainda no final de 2017: nas últimas duas semanas do ano, o bitcoin desvalorizou quase 30%. A queda continuou ao longo de todo o ano de 2018.

    As semelhanças e diferenças entre 2017 e 2020

    O rápido aumento do preço do bitcoin em 2020 levanta a desconfiança sobre uma possível nova bolha no mercado da criptomoeda. Mas há diferenças com relação ao movimento observado em 2017.

    O principal aspecto apontado por especialistas é que, em 2020, o bitcoin teria ganhado terreno como uma opção de investimento entre agentes institucionais. Ou seja, o perfil dos investidores estaria mudando, com cada vez mais grandes investidores sendo atraídos pela criptomoeda.

    Em 2020, por exemplo, o bitcoin também entrou no radar de fundos americanos que costumam investir em peso no setor de tecnologia. É um cenário diferente em relação a três anos antes, quando poucos investidores do tipo colocavam dinheiro na criptomoeda.

    Em 2017, o fenômeno ainda era movido principalmente por pessoas e empresas fora dos círculos tradicionais do mercado financeiro americano. Em 2020, um dos marcos do avanço do bitcoin ocorreu quando o PayPal, empresa de pagamentos digitais, decidiu em outubro permitir a negociação de bitcoins dentro de sua plataforma. Nesse esquema, o bitcoin não é a moeda usada para a compra, e sim o produto comprado em dólares.

    A maior aceitação do bitcoin entre investidores se deve à crescente participação de millennials (nascidos entre 1980 e meados da década de 1990) nas decisões de investimento. Além disso, há uma percepção de amadurecimento do produto e do mercado: a ideia de que o bitcoin funciona como uma moeda tem sido mais aceita. Muitas empresas passaram a enxergar na criptomoeda um investimento seguro – nesse sentido, parecido com o ouro.

    Essa tese, no entanto, está longe de ser consenso dentro do mercado financeiro. Mesmo com o bitcoin ganhando espaço como opção de investimento, há muitos questionamentos sobre a volatilidade da moeda e seu uso limitado em transações digitais.

    Ao Nexo, o especialista em mercado financeiro André Machado, sócio fundador do Projeto Os 10%, escola de traders (negociadores da bolsa de valores), disse que não acredita que o bitcoin cumpra os requisitos de uma moeda. Segundo Machado, a volatilidade da criptomoeda impede que ela exerça o papel de reserva de valor: “Não acho que bitcoin segue as regras inerentes de uma moeda. Você não pode, por exemplo, botar o preço de um produto em bitcoin e daqui um mês esse produto estar 20% mais caro [por causa da valorização do bitcoin]. Há também casos em que, em questão de semanas, o preço caiu mais da metade. Isso não é seguro”.

    Machado entende o bitcoin como um ativo de risco, cujo movimento em 2020 seria “meramente especulativo”. Ele também aponta que o desempenho da criptomoeda segue uma trajetória próxima das ações de empresas de tecnologia: “pode não parecer, mas [o bitcoin] é como se fosse uma empresa de tecnologia blockchain, mas que não tem um dono por trás – um Elon Musk ou Bill Gates”, explica. “Tem sua utilidade como tecnologia de blockchain e subiu [em 2020] como subiram Tesla, Microsoft, Apple, Amazon, Google. O bitcoin acompanhou. Não é ouro digital, é uma tecnologia.”

    Entre os que mantêm uma posição mais cética, como Machado, o entendimento é que o bitcoin em 2020 continua sendo um ativo movido basicamente a especulação.

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