Por que esta pesquisa estudou os micróbios nas obras de da Vinci

Cientistas da Áustria e da Itália analisaram bactérias e fungos presentes nas superfícies dos desenhos do renascentista

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    Pesquisadores da Áustria e da Itália realizaram um estudo para entender quais bactérias, fungos e outros microrganismos habitam os desenhos do artista italiano Leonardo da Vinci.

    Os resultados foram publicados na revista Frontiers in Microbiology (Fronteiras da Microbiologia) em 20 de novembro de 2020. A pesquisa tinha dois objetivos: saber quais tipos de microrganismos vivem em obras de artes feitas há séculos e descobrir como eles se comportam quando transportados de um museu para outro.

    Entender esse comportamento, segundo os cientistas, pode ajudar arquivistas de museus e coleções no desenvolvimento de novas e mais eficientes técnicas de conservação e manuseio.

    Como a pesquisa foi feita

    A pesquisa foi liderada por Guadalupe Piñar, professora do Departamento de Microbiologia da Universidade de Ciências Naturais e Biológicas de Viena, na Áustria.

    Pinãr e seu time selecionaram sete desenhos de Leonardo da Vinci: cinco vieram da Biblioteca Real de Turim, no norte da Itália, e dois foram retirados da Biblioteca Corsiniana de Roma.

    Normalmente, pesquisas que estudam microrganismos precisam de uma quantidade razoável do material a ser analisado. Por se tratarem de obras de arte consideradas patrimônio cultural da humanidade, isso não era possível.

    Para contornar o problema, os cientistas fizeram uma raspagem cuidadosa na superfície dos desenhos usando bastonetes esterelizados de nitrato de celulose, substância que se assemelha muito ao algodão. Eles também aspiraram levemente as obras.

    Depois da coleta, teve início o processo de análise. Para isso, o time usou um pequeno dispositivo de sequenciamento genético desenvolvido pela empresa Oxford Nanopore Technologies. Trata-se de uma tecnologia nova, que requer menos reagentes e uma menor quantidade de material a ser analisado.

    O que foi descoberto

    Com a análise, o time de pesquisadores constatou nos desenhos uma gama de bactérias e fungos, além de pedaços de DNA humano, vindos das mãos daqueles que manusearam as obras ao longo dos anos.

    O principal achado foram grandes concentrações da bactéria Moraxella osloensis, que, na natureza, pode ser encontrada em alguns tipos de lesmas.

    Também foram encontradas as bactérias Salmonella e E. Colli, ambas causadoras de infecções gastrointestinais nos seres humanos. Além disso, foram descobertas bactérias presentes nos organismos de moscas urbanas. É impossível determinar quando e como tais microrganismos chegaram às obras.

    Fungos também estavam presentes, como o Aspergillus, um tipo de mofo que pode ser tóxico para algumas pessoas; o Penicillium, fungo que foi fundamental para o desenvolvimento da penicilina e dos antibióticos; e o Alternaria, conhecido por seu hábito de devorar papel.

    À revista Wired, em 25 de novembro, Piñar afirmou que os desenhos não estão em risco, já que as atuais condições de armazenamento deles impedem que tais seres se reproduzam e possam vir a danificar as obras de da Vinci.

    Os sete desenhos apresentaram os mesmos microrganismos em quantidades similares, o que despertou a atenção dos cientistas. Segundo eles, a posição geográfica da Itália deve ter criado condições de armazenamento parecidas ao longo dos séculos e, por isso, resultou em padrões semelhantes de fungos e bactérias.

    A utilidade da pesquisa

    Ao fim da análise, o time de Piñar criou um banco de dados com tudo que foi encontrado.

    Os cientistas vão continuar a estudar os microrganismos presentes em obras de arte. A próxima pesquisa, que ainda não tem data para começar, vai analisar a proliferação dos fungos e bactérias em diferentes materiais – como as telas de tecido e outros tipos de papel.

    Eles também querem descobrir em quais condições tais micróbios podem voltar a se reproduzir, dando uma base para que arquivistas se preparem para evitar ao máximo esses cenários.

    A ciência na obra de Leonardo da Vinci

    Leonardo da Vinci completou 24 pinturas durante toda a sua vida. Além disso, ele deixou milhares de desenhos e estudos, registrados em inúmeros cadernos e folhas de papel.

    Além de artista, Leonardo se dedicou ao estudo da matemática, da física, da anatomia, da arquitetura e da engenharia. Em entrevista ao site Vox em 2017, o escritor e jornalista Walter Isaacson, autor da biografia mais recente de da Vinci, afirmou que todos esses interesses fizeram com que ele se tornasse o artista que todos conhecemos. “Leonardo não seria quem ele foi se não tivesse investido tanto tempo na matemática, na ciência e nas invenções”, disse Isaacson.

    Dentre as invenções que da Vinci projetou estão máquinas voadoras, moinhos d’água e até a ideia primitiva de uma metralhadora, que aumentaria o poder de fogo dos canhões da época.

    No estudo de anatomia, da Vinci dissecou cerca de 30 corpos humanos, no começo dos anos 1500, buscando entender como o organismo funciona, suas conexões e bases, a fim de representá-lo de maneira mais fidedigna em suas artes.

    Em um de seus mais importantes desenhos, “O homem vitruviano”, Leonardo da Vinci queria não só entender as proporções do corpo, mas também representar artisticamente o lugar que os humanos ocupam dentro do universo. “Esse desenho é basicamente um autorretrato, ele tinha aquela aparência. Ele está desenhando a si mesmo dentro da Terra, dentro do universo, tentando entender como nos encaixamos dentro da Criação”, afirmou Isaacson.

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