Os dados que indicam um novo recorde no desmatamento

Entre agosto de 2019 e julho de 2020, a Amazônia teve desmatado o equivalente a nove municípios do Rio de Janeiro. A taxa de derrubada na região é a mais alta dos últimos 12 anos, segundo o Inpe

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De acordo com estimativa divulgada pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), na segunda-feira (30), a Amazônia perdeu 11.088 km² de florestas entre agosto de 2019 e julho de 2020 – ou seja, em um ano, a região teve desmatado o equivalente a nove municípios do Rio de Janeiro.

É o maior registro de área derrubada desde o período 2007-2008, quando foi ao chão 12.911 km² de floresta. Em comparação ao período anterior, o aumento registrado em 2020 foi de 9,5%, ou 10.129 km².

Quando o número atual é comparado à média de desmatamento dos dez anos anteriores ao governo de Jair Bolsonaro, o crescimento observado é de 70%. Entre 2009 e 2018, a média registrada pelo Inpe foi de 6.500 km² de área desmatada por ano.

A elevada taxa também coloca o Brasil longe da meta para 2020 da Política Nacional de Mudanças Climáticas. Formulada em 2010, a política estabelecia que o desmatamento neste ano deveria totalizar uma área de no máximo 3,9 mil km². De acordo com cálculo do Observatório do Clima, o dado apresentado em 2020 coloca o país 180% acima da meta, prejudicando o compromisso de redução de emissões de carbono estabelecido pelo país no Acordo de Paris.

TENDÊNCIA DE ALTA

desmatamento

Os dados do desmatamento são do sistema Prodes, que realiza uma medição consolidada com resolução entre 20 e 30 metros. A taxa divulgada nesta época é uma projeção, consolidada no primeiro semestre do ano seguinte.

Os índices do Prodes costumavam ser entre 25 a 30% mais altos que os dados do sistema Deter, que informa em tempo real e é menos preciso, sendo mais utilizado como apoio da fiscalização diária. Este ano, no entanto, a distância entre os dois dados foi bem menor, resultado de um aprimoramento técnico do monitoramento do Deter.

Os números aparecem em meio a um contexto de crescente pressão internacional em cima da atuação do governo brasileiro na área do meio ambiente. Nos últimos meses, Alemanha e França colocaram em dúvida a viabilidade do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul diante da falta de garantias de que o meio ambiente está sendo respeitado no país. Nos Estados Unidos, a agenda ambiental deverá ocupar papel central na política externa do presidente eleito Joe Biden.

Sem Salles, com Mourão

A divulgação dos números foi feita pelo Coordenador de Monitoramento da Amazônia, Claudio Almeida, numa cerimônia que contou com a participação do vice-presidente Hamilton Mourão, que preside o Conselho Nacional da Amazônia Legal e pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes. Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, não estava presente.

Na apresentação, Mourão explicou que registros do Deter sinalizavam um resultado pior do que o apresentado. “Havia uma expectativa e até uma estimativa de que o resultado atual que fosse ser divulgado nos daria uma aumento em torno de 20% do que ocorreu ano passado. Foi um pouco menos da metade”, afirmou. Para ele, o resultado é fruto do combate ao desmatamento realizado pelo governo.

Para Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, o cerimonial do anúncio foi “revelador”. Além da curta duração, o ambientalista observou que não se ouviu do governo “nenhum plano de solução, nenhum número para o ano que vem, nenhum compromisso”. “É como se dissessem ‘o Brasil que fique com esse número [de desmatamento] e se vire com ele’”, afirmou em entrevista ao Nexo.

Iniciativas do governo

O aumento do índice ocorreu a despeito de iniciativas do governo Jair Bolsonaro com o objetivo de lidar com o problema do desmatamento. A principal delas é o Conselho Nacional da Amazônia, criado em fevereiro e chefiado por Mourão. O vice-presidente encheu o conselho de militares, mas não incluiu nenhum representante do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) ou da Funai (Fundação Nacional do Índio).

Em agosto de 2019, mês do início da aferição do Prodes, foi decretada uma operação GLO (Garantia da Lei e da Ordem) na região em resposta a um aumento vertiginoso das queimadas. Os incêndios diminuíram, mas o desmatamento seguiu em frente.

Para especialistas, o desmatamento é consequência da política ambiental do governo federal. “O governo [Bolsonaro] paralisou o sistema de cobrança de multas ambientais, desidratou as agências de fiscalização, diminuiu as operações de campo e, frequentemente, anuncia medidas que facilitam a vida de grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais”, sublinhou Astrini, do Observatório do Clima.

Em agosto de 2019, Bolsonaro demitiu o então diretor do Inpe, Ricardo Galvão, depois que o órgão divulgou dados de desmatamento que lhe desagradaram. “Eu tenho a convicção que os dados são mentirosos”, afirmou o presidente à época. “Até mandei ver quem é o cara que está à frente do Inpe para vir explicar aqui em Brasília esses dados aí que passaram para a imprensa”.

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