O que os números dizem sobre o desempenho do PT em 2020

Queda foi mais significativa em 2016, após Lava Jato e impeachment. Agora, novas baixas deixam o partido ainda menos influente nos municípios do que era antes de Lula chegar à Presidência

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Fundado em 1980, em meio ao processo de redemocratização do país, o PT esteve entre os protagonistas de todas as eleições presidenciais desde então.

Chegou ao segundo turno em 1989 contra Fernando Collor. Foi o principal adversário dos tucanos nas vitórias de primeiro turno de Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998. Venceu as disputas de 2002, 2006, 2010 e 2014. E chegou ao segundo turno contra Jair Bolsonaro em 2018.

Ao longo do tempo, consolidou-se na identificação com o eleitorado, obtendo os melhores índices quando as pesquisas perguntam sobre partidos de preferência.

No governo Luiz Inácio Lula da Silva (2003 a 2010), o PT, que inicialmente era mais concentrado em grandes centros, espalhou-se pelo Brasil. E isso teve efeito em eleições municipais, com a conquista de um número maior de prefeituras e vagas de vereadores.

Os 13 anos no governo federal, que também tiveram Dilma Rousseff como presidente (2011 a 2016), foram marcados por avanços sociais, mas também pelo surgimento de grandes escândalos de corrupção, especialmente a partir da Operação Lava Jato, em 2014.

A recessão econômica agravou a situação e Dilma sofreu impeachment em 2016 por manobras fiscais. Dessa crise, um novo ator relevante se fortaleceu nas disputas eleitorais: o antipetismo.

O partido começou a perder força. No âmbito municipal, a maior derrota veio em 2016, ano do impeachment. Em 2018, no plano nacional, mesmo com Lula preso pela Lava Jato, o partido ainda conseguiu chegar ao segundo turno presidencial e eleger a maior bancada da Câmara dos Deputados.

Mas em 2020, em mais uma eleição municipal, houve novas derrotas significativas. Abaixo, veja o que os números dizem sobre o desempenho do PT nas eleições de domingo (29) comparados a disputas locais anteriores.

Número geral de prefeitos pelo país

O maior baque para o PT no que se refere ao número de prefeitos eleitos pelo Brasil ocorreu em 2016. Mas em 2020 esse número continuou caindo. Nesse aspecto, o partido voltou a um tamanho pré-Lula, anterior à chegada de seu maior líder à Presidência.

Pelo Brasil

Dados nacionais sobre os prefeitos eleitos pelo PT

Prefeitos em cidades com mais de 200 mil habitantes

O PT tinha um bom desempenho em cidades maiores, com mais de 200 mil habitantes, antes mesmo de Lula virar presidente. A queda veio nas eleições municipais de 2016. Em 2020, o partido conseguiu conquistar duas mais. Mas ainda assim o desempenho é baixo em relação a eleições anteriores.

Municípios maiores

Gráfico com dados das cidades com mais de 200 mil habitantes

Prefeitos em capitais de estados

O PT já governou três vezes a maior cidade do país, São Paulo. Em 2020, seu candidato, Jilmar Tatto, obteve a pior votação do partido em disputas no município. Pelo país, é a primeira vez na sua história que os petistas não conquistaram nenhuma capital.

Centros estaduais

Dados sobre o histórico do PT nas capitais brasileiras

População administrada nos municípios

Se levada em conta a população administrada por prefeitos petistas, o partido teve seu ápice em 2012. A queda significativa também ocorreu em 2016, com a perda da prefeitura de São Paulo. Em 2020, o número também caiu.

Em milhões

Gráfico mostra dados sobre a população governada pelo PT ao longo das eleições

Vereadores eleitos pelo Brasil

Assim como em outros recortes, o número de vereadores eleitos pelo PT no Brasil teve a maior queda em 2016. Em 2020, esse número caiu de forma menos acentuada. Nesse aspecto, o partido também voltou ao tamanho da era pré-Lula.

Nas Câmaras Municipais

Gráfico mostrado dados sobre a eleição de vereadores do PT desde as eleições nos anos 2000

O que dizem os analistas sobre 2020

Grandes partidos como MDB e PSDB também tiveram queda de prefeitos eleitos em 2020. Mas os emedebistas ainda assim são os que mais elegeram nomes para comandar cidades. E os tucanos conseguiram manter o controle da cidade de São Paulo.

Analistas apontam como grandes vencedores da disputa partidos como o DEM, além de legendas do centrão como Progressistas e PSD, que aumentaram sua capilaridade, assim como o número de eleitores sob seu comando nas cidades.

No campo da centro-esquerda, PSB e PDT conquistaram duas capitais cada, mas também viram cair o número de brasileiros administrados por eles nas cidades em relação a 2016. Já o PSOL, venceu em Belém e garantiu a projeção nacional de Guilherme Boulos, que chegou ao segundo turno em São Paulo.

O PT, nesse campo, é apontado como um dos perdedores da eleição, ao lado do discurso antissistema do bolsonarismo. Candidatos apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro fracassaram nas urnas.

Em entrevista ao Nexo, Carlos Melo, cientista político e professor do Insper, disse que o PT já não é capaz de aglutinar os partidos de esquerda em torno de si. E que uma reorganização do partido e desse espectro político passa pelo ex-presidente Lula. “Ele vai decidir se continua como balizador do campo ou se passa o bastão para alguém”, afirmou.

Secretário de Imprensa nos dois primeiros anos do governo Lula, o jornalista Ricardo Kotscho afirmou em um texto publicado no UOL que não adianta o PT querer tapar o sol com a peneira. “O antipetismo ficou maior do que o petismo. Se o partido não descobrir e atacar as causas, renovar suas lideranças e programas, vai continuar andando para trás”, escreveu.

Professor de administração pública na FGV (Fundação Getulio Vargas) em São Paulo, Cláudio Couto afirmou em entrevista à BBC News que o PT não conseguiu mostrar à população que estava disposto a corrigir seus erros do passado. “O PT foi incapaz de dar esse recado, de que conseguiria melhorar. E recebeu a resposta nas urnas. Sofreu um tombo monumental em 2016, e outro agora. Que só foi menor porque o partido tinha menos a perder. Mas, se você considerar as duas eleições em sequência, foi grande a derrota”, afirmou.

Ao El País Brasil, o cientista político Rudá Ricci afirmou que o PT, ainda que tenha disputado o segundo turno em cidades importantes, precisa rever sua estratégia para os próximos anos. “Acho que vai ter um embate interno importante, porque a corrente majoritária saiu derrotada. Mudou a conjuntura política de quem tem mandato no PT. E não dá pra fazer mais a narrativa que coloca a culpa nos outros”, disse.

O que dizem os líderes do PT

A cúpula petista nega que o partido tenha sido derrotado nas eleições de 2020. Após a divulgação dos resultados no domingo (29), lideranças enalteceram a participação da legenda nas disputas municipais.

Presidente do PT, a deputada federal paranaense Gleisi Hoffmann destacou nas redes sociais as vitórias em cidades metropolitanas, como Diadema (SP) e Contagem (MG), e negou que a sigla tenha saído menor da votação.

O senador baiano Jaques Wagner disse nas redes sociais que o PT não foi enterrado após a eleição municipal de 2020 e que o grande derrotado no pleito foi o estilo de Bolsonaro.

Vice-presidente nacional do partido, o deputado federal José Guimarães (CE) também destacou vitórias em cidades metropolitanas e disse que a legenda permanece combativa.

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