Armênia e Azerbaijão: por que o cessar-fogo não encerrou a disputa

Acordo intermediado por russos e turcos congelou confronto aberto, mas temor de retomada permanece no ar

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    Tropas do Azerbaijão entraram na quarta-feira (25) em Kalbajar. A província é a mais importante das sete que compõem uma região montanhosa e pouco povoada chamada de Nagorno-Karabakh pelos azeris (nacionais do Azerbaijão) e de República de Artsakh pelos armênios, numa disputa territorial iniciada entre as duas ex-repúblicas soviéticas no fim dos anos 1980.

    A retomada da província de Kalbajar pelos azeris foi considerado um marco diplomático e militar na história do conflito. Esta província e as outras seis que compõem Nagorno-Karabakh ou a República de Artsakh passaram os últimos 27 anos sob ocupação armênia.

    A entrada das tropas azeris em Kalbajar é resultado de um acordo diplomático que favoreceu o Azerbaijão contra a Armênia, num conflito que se estende por quase três décadas, alternando períodos de trégua e de hostilidade ativa.

    O capítulo mais recente desses confrontos teve início no dia 27 de setembro de 2020 e foi interrompido por um cessar-fogo no dia 10 de novembro desse mesmo ano. A devolução dessas terras ao Azerbaijão foi parte do acordo firmado com a Armênia, como condição para a interrupção do conflito.

    O conflito em torno da região

    Tanto a Armênia quanto o Azerbaijão eram parte da União Soviética. Com a dissolução do bloco comunista, em 1991, os dois países recém-independentes passaram a divergir sobre a demarcação da região de fronteira.

    Em 1993, a Armênia ocupou a região que passou a ser denominada de República de Artsakh, pelos armênios, e que era chamada de Nagorno-Karabakh pelo Azerbaijão.

    As Nações Unidas condenaram a ocupação armênia da zona e ordenaram a devolução das terras ao Azerbaijão, mas a resolução do Conselho de Segurança não foi cumprida à época.

    A tensão provocada pela ocupação armênia eclodiu em novo confronto em setembro de 2020, que só seria interrompido dois meses depois, em novembro, por força do acordo de cessar-fogo assinado entre as partes, que previa a devolução das terras de Nagorno-Karabakh aos azeris.

    Essa devolução representa uma derrota da Armênia no conflito, ainda que o primeiro-ministro armênio, Nikol Pashinyan, use o fato de não ter capitulado, mas de ter assinado apenas um cessar-fogo, como uma prova de que não perdeu a guerra.

    Além do Azerbaijão, o conflito teve ainda outros dois vencedores: primeiro, a Rússia, que embora tenha apoiado o lado armênio, saiu como a potência que costurou o cessar-fogo e que manterá tropas de prontidão para garantir o acordo na região de fronteira.

    Depois, a Turquia, que apoiou o vitorioso Azerbaijão, e participou da intermediação russa, deixando de lado potências europeias e os EUA na concertação do conflito.

    Cessar-fogo apenas congela as hostilidades

    Cessar-fogo é um tipo de acordo que silencia as armas e congela o estado do conflito. Ele é menos definitivo que um acordo de paz. Em alguns casos, um cessar-fogo pode até durar décadas, como no caso do conflito entre as Coreias, latente desde a década de 1950, mas sobre o qual paira sempre a expectativa de uma retomada violenta a todo instante.

    No caso de Nagorno-Karabakh, o cessar-fogo intermediado por russos e turcos prevê o estabelecimento de uma linha divisória, chamada Cordão de Lachin, que deverá funcionar como contenção entre as duas partes por pelo menos cinco anos.

    Mais de 2.000 militares russos instalados em 23 pontos de observação terão a missão de garantir que o cessar-fogo seja respeitado.

    Porém, do lado armênio, existe uma revolta latente, sobretudo entre combatentes que estiveram na linha de frente e agora se recusam a aceitar o que consideram uma derrota humilhante, construída pelas mãos de um primeiro-ministro que eles dizem ser fraco.

    “Se dependesse de mim, não teria cessar-fogo. Nós teríamos aguentado até o fim. Teríamos vencido”, disse ao jornal americano The Washington Post um armênio chamado Seryan Karabeteyan, veterano dos combates dos anos 1990 na região e dos combates de 2020 na região.

    Vozes como a de Karabeteyan podem ser ouvidas não apenas entre os que estavam no que era o campo de batalha, mas também em protestos na capital armênia, Yerevan, onde, após a assinatura do cessar-fogo, manifestantes saíram às ruas e chegaram a invadir o Parlamento, agredindo políticos que apoiaram o acordo.

    “É claro que vai haver guerra de novo. Vai ser antes do que você imagina. Esteja minha esposa preparada ou não, minha morte será por nossa nação armênia”, disse o veterano Karabeteyan ao Washington Post, refletindo o tipo de pensamento que faz com que muitos duvidem da viabilidade da solução encontrada.

    Pelo menos três fatores são apontados como indicadores de que o cessar-fogo representa um acordo apenas provisório e precário, que congela um conflito que permanecerá latente: a grande militarização da zona de fronteira com tropas russas, a disposição dos combatentes armênios em retomar as hostilidades e o fato de a classe política da Armênia que aceitou o cessar-fogo ter sido hostilizada na capital, permanecendo desacreditada pela parte da população que não admite a perda de um território que julgou ser seu por 27 anos.

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