Quais os eixos da política externa sinalizados por Biden

Presidente eleito anuncia time responsável por restaurar aposta no multilateralismo e retomar as pontas soltas da gestão Obama na área internacional

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    A política externa é uma das áreas nas quais os mandatos do presidente eleito dos EUA, Joe Biden, e do atual presidente do país, Donald Trump, devem contrastar de forma mais explícita a partir de 20 de janeiro de 2021, quando ocorre a troca de mando na Casa Branca.

    É na área internacional que se concentram algumas das medidas mais emblemáticas tomadas ao longo dos quatro anos de mandato de Trump, período em que EUA aprofundaram uma agenda conservadora, nacionalista, unilateralista e belicista, que rompeu limites e paradigmas, mesmo na comparação com mandatos anteriores de presidentes filiados ao Partido Republicano.

    “A presidência de Biden pode ser a última chance que o establishment tem de demonstrar que o internacionalismo liberal [de Biden] é uma estratégia superior que a do nacionalismo populista [de Trump]”, resumiu o analista internacional Thomas Wright, diretor do Centro de Estudos de EUA e Europa no Brookings Institute, em artigo publicado no domingo (22).

    Decisões como as que levaram à saída do Acordo do Clima, assim como à retirada americana da OMC (Organização Mundial da Saúde) no meio da pandemia, somadas ao rompimento do acordo nuclear com o Irã e aos retrocessos nos principais tratados atômicos com a Rússia, compuseram um pacote de medidas drásticas tomadas por Trump que devem começar a ser revistas a partir de janeiro.

    A reaproximação com a França e a Alemanha – e de maneira mais ampla com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) – deve reorientar o eixo europeu na área de defesa, enquanto o pragmatismo tende a pautar as relações com a América Latina, particularmente com Cuba e Venezuela, dois enclaves simbólicos que ecoam anacronicamente a Guerra Fria (1945 a 1989) na região.

    Foi Obama quem restaurou em 2015 as relações diplomáticas com os cubanos, quando Biden era vice. Já sobre a Venezuela, mesmo sob o mandato de Hugo Chávez, no auge do bolivarianismo, a Casa Branca nunca falou abertamente sobre intervenção militar no país caribenho, ao contrário do que Trump e seus assessores fizeram ao longo dos últimos quatro anos diante do governo Nicolás Maduro.

    Na Ásia, a guerra comercial com a China e as tentativas de aproximação com a Coreia do Norte podem ter contornos renovados na agenda de um presidente que agora tende a prescindir do espírito de mobilização ideológica permanente que moveu o trumpismo e seu discurso contra o comunismo.

    Todas essas projeções de mudança constam de discursos de campanha de Biden e de artigos, estudos e reportagens publicados em grandes jornais e revistas do mundo, assim como em publicações especializadas em relações internacionais.

    A escolha dos nomes

    O escolhido para chefiar o setor de política externa é o veterano diplomata Antony Blinken. A escolha foi anunciada pela equipe de transição de Biden nesta terça-feira (24), depois de ter sido noticiada com destaque na imprensa mundial como uma revelação de bastidor.

    Blinken foi o número dois do Departamento de Estado na gestão de Barack Obama, quando o titular da pasta era o veterano John Kerry. Nos registros públicos de suas posições, consta a defesa de uma intervenção militar mais incisiva na Síria sob o argumento de impedir que o presidente Bashar al-Assad massacrasse dissidentes. Isso nunca ocorreu, e Assad permanece até hoje no poder, graças a um respaldo militar contundente da Rússia. Blinken lamenta.

    O pendor por argumentos humanitários e de direitos humanos, mesmo em casos de intervenção militar, como preconizado na doutrina da “responsabilidade de proteger”, é creditado à influência em sua vida do padrasto polonês Samuel Pisar, sobrevivente do holocausto que, após a Segunda Guerra, se mudou para Paris, onde Blinken viria a viver e estudar durante anos, mesclando a formação acadêmica com uma formação musical amadora.

    Blinken se formou em direito pela Universidade de Harvard e trabalhou ao lado de Biden na Comissão de Relações Exteriores do Senado, antes de entrar para o Departamento de Estado na gestão Obama.

    Em comparação com os chefes da pasta na gestão de Trump – notadamente o atual responsável, Mike Pompeo – Blinken é, na definição do centro de estudos americanos Council of Foreign Affairs, ciente dos “benefícios de uma abordagem americana de cara aberta para outros países e de como uma forma de agir baseada no multilateralismo pode tornar a liderança americana mais efetiva”, em contraste com o isolacionismo e o nacionalismo de Trump.

    Em palestra no Council of Foreing Relations, em setembro de 2016, quando ainda era o número dois no Departamento de Estado, Blinken criticou o “isolacionismo e o unilateralismo” que crescia com o populismo de direita nos EUA, e que àquela altura já apresentava a retração dos fóruns multilaterais e a rejeição à imigração e às trocas internacionais como uma saída inevitável para os americanos, na visão de mundo que os republicanos começam a vender aos eleitores, com Trump.

    Diante da onda nacionalista e populista que crescia e que viria a triunfar na Casa Branca, Blinken afirmou: “Nós não trabalhamos com outros países por um luxo ou por caridade. O mundo em que vivemos hoje é notoriamente resistente a soluções unilaterais. Não podemos construir um muro que seja suficientemente grande para impedir o nível dos oceanos de subir ou o planeta de superaquecer.”

    A fala era uma referência, ao mesmo tempo, à promessa de Trump de construir um muro na fronteira com o México e à retirada americana do Acordo do Clima, além do negacionismo em relação às mudanças climáticas.

    Em seu período na cúpula do Departamento de Estado, Blinken foi identificado como uma figura importante na tentativa de redirecionar as prioridades estratégicas da política externa americana, diminuindo o peso do Oriente Médio e aumentando a atenção com a Ásia. Mas em análises como a de Thomas Wright, analista do Instituto Brookings, ele aparece como um derrotado na correlação de forças internas, em detrimento da força de seu então chefe, John Kerry.

    ‘Restauracionistas’ contra ‘reformistas’

    Wright diz que existe na área de política externa do grupo de transição democrata dois grandes ramos, que ele nomeou de “restauracionistas” e “reformistas”. A classificação é informal, e proposta por Wright com base em sua própria percepção, a partir de conversas de bastidor mantidas com figuras influentes do entorno de Biden.

    O primeiro grupo, o dos “restauracionistas”, trabalharia para restaurar as grandes linhas da política externa que vigorou nos dois mandatos de Barack Obama (2009 a 2017). O segundo grupo, dos “reformistas”, diz que é preciso reconstruir a linha da política externa que vigorou nos anos Obama, pois o mundo mudou muito em quatro anos.

    Enquanto os “restauracionistas” puxam pela manutenção da ordem construída no fim da Guerra Fria, e evitam confrontações abertas com potências como a China ou governos autocratas de maneira geral, os “reformistas” dizem que os EUA precisam proativamente aglutinar as forças democráticas em torno de si e contra-atacar a onda de populismo extremista que teve em Trump seu maior expoente.

    Para países que veem nos EUA o eixo central em torno do qual gira o mundo unipolar do fim da Guerra Fria, as duas escolas de pensamento apresentadas por Wright podem parecer apenas ramos de um mesmo tronco comum que, no fundo, não muda essencialmente o norte americano – intervencionista e imperialista.

    O próprio pesquisador reconhece que “algumas autoridades [da área de política externa de Biden] podem ser restauracionistas em alguns temas e reformistas em outros”, o que mostra que mesmo os analistas mais bem informados sobre o tema ainda consideram que há muito para conferir, uma vez que o novo governo se ponha em andamento.

    O peso da agenda interna

    O Departamento de Estado americano, sob a gestão de Bliken e Biden, terá de lidar com a pressão de pelo menos dois fatores da política doméstica.

    De um lado, o trumpismo ou o conservadorismo nacionalista, de maneira mais abrangente, pode vir a desemprenhar um papel relevante como grupo de pressão. O movimento puxado por figuras como Steve Bannon, que teve em Trump sua figura de proa, inspirou muitos outros movimentos e líderes com conduta semelhante pelo mundo.

    Esse novo nicho do populismo de extrema direita não deve desaparecer do radar, especialmente porque o trumpismo mostrou que, apesar da derrota, tem um respaldo popular persistente no eleitorado. É natural, por exemplo, que o eleitorado latino, sobretudo na Flórida, exerça pressão por soluções de força na Venezuela.

    Do lado contrário, a crescente ala jovem e progressista do Partido Democrata – que vê em Biden um conservador e preferia ter Bernie Sanders na Casa Branca – buscará influenciar os rumos do mandato, mesmo que a política externa fique em segundo plano na agenda, quando comparada a temas identitários e raciais, além de questões de gênero, saúde reprodutiva e drogas.

    Esse setor que vê a si mesmo como mais à esquerda e mais progressista pode, por exemplo, pressionar por uma postura menos intervencionista na área de segurança internacional, além de buscar um atrelamento maior entre a política externa americana e as questões ambientais.

    Implicações para o Brasil

    Essa reacomodação da agenda externa americana trará implicações especialmente sensíveis para o Brasil. No governo Jair Bolsonaro, o Itamaraty buscou se alinhar com a agenda trumpista, mesmo diante das projeções de vitória de Biden.

    Em entrevista ao Nexo, em 7 de novembro, com Biden praticamente eleito, o professor de relações internacionais da FAAP (Faculdade Armando Álvares Penteado), Carlos Gustavo Poggio disse que o Itamaraty deveria mudar seu eixo e até mesmo substituir o chanceler Ernesto Araújo, a tempo de reconstruir as relações com um novo governo, já sabidamente democrata.

    Poggio reconheceu, entretanto, que essa é uma hipótese remota, embora pragmática e oportuna. O mais provável, disse ele, é que o governo Bolsonaro tome a ascensão de Biden como um falso sinal de “avanço da esquerda no mundo”.

    Passados mais de 20 dias das eleições americanas, com os resultados eleitorais consolidados, e com Trump dando início à transição, Bolsonaro ainda figurava até pelo menos esta terça-feira (24) como o mais proeminente líder internacional a não reconhecer a vitória democrata nas urnas.

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