Como ler os dados sobre eficácia das vacinas contra a covid-19

Índices alcançados pelos imunizantes ainda precisam ser formalizados à comunidade científica e analisados pela Anvisa e órgãos semelhantes de cada país

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    A imunização para a covid-19 fica cada vez mais próxima à medida que vários laboratórios divulgam os resultados de eficácia de suas vacinas após testes em humanos. Desde meados de novembro, quatro candidatas tiveram índices apresentados à mídia. No entanto, nenhuma delas havia publicado, até sexta-feira (27), um estudo científico com os dados para análise de pares.

    A aprovação das vacinas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) pode ocorrer antes da publicação dos resultados à comunidade científica. Mas no passado, para outras doenças, foi comum que a submissão à agência acontecesse paralelamente a publicização dos dados aos cientistas.

    Quem já anunciou

    Instituto Gamaleya

    O Instituto de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia de Gamaleya, ligado ao Ministério da Saúde da Rússia, diz que sua vacina tem eficácia acima de 95% de eficácia após segunda dose;

    Pfizer/BioNTech

    O produto desenvolvido pelo laboratório americano Pfizer em parceria com a empresa alemã de biotecnologia BioNTech apresentou uma taxa de eficácia de 95%; e para pessoas com mais de 65 anos, 94%;

    Moderna

    A empresa americana, que é a maior aposta do governo dos EUA, diz que sua vacina tem uma eficácia de 94,5%;

    Oxford/AstraZeneca

    A vacina produzida pela Universidade de Oxford em parceria com o laboratório anglo-sueco AstraZeneca apresentou uma eficácia de 90% quando administrada em meia dose seguida de uma dose completa; em duas doses, a eficácia foi de 62%. Nenhuma das organizações explicou o motivo para a meia dose ser mais eficaz, dizendo que mais estudos precisam ser conduzidos.

    Das quatro, os dados preliminares publicados pela Oxford/AstraZeneca já foram questionados por cientistas. O laboratório não apresentou o número de infectados por coronavírus para cada grupo estudado, apenas a quantidade total da pesquisa. Como parte dos participantes recebeu as duas doses e outra meia dose — por um erro de aplicação —, não é possível replicar o cálculo de eficácia, o que gera dúvidas quanto a confiabilidade dos dados.

    Na quinta-feira (26), o presidente-executivo da AstraZeneca, Pascal Soriot, anunciou que a empresa fará um teste adicional para verificar a eficácia da vacina a partir da meia dosagem inicial.

    Como é feito o cálculo de eficácia

    Para calcular a taxa de eficácia, um imunizante precisa chegar à fase 3 dos testes clínicos com humanos, quando ele já é considerado seguro e podem ser conduzidos testes em dezenas de milhares de pessoas; no caso, de pessoas que atuam na linha de frente da doença, como enfermeiros e médicos, e tem mais chances de entrarem em contato com o vírus.

    Nessa fase, voluntários que ainda não contraíram o vírus são divididos em dois grupos. Um recebe a vacina em questão, outro um placebo, sem efeito. A eficácia é obtida da comparação desses dois grupos. Quanto mais casos de infecção no grupo placebo em relação ao que recebeu a vacina, maior a eficácia. Assim, entende-se que o imunizante ajudou a evitar a contaminação do segundo grupo.

    Mas esse cálculo só pode ser feito depois que há um número amostral suficiente para a comparação. Por isso, é estabelecido um número mínimo de pessoas que precisam contrair o vírus. Esse piso varia dependendo da vacina, mas a fórmula usada para o cálculo é a mesma. Por exemplo, numa situação em que 20% dos voluntários que receberam a vacina e 70% o placebo se infectaram, divide-se a porcentagem do primeiro pelo segundo. Então, faz-se um menos o valor resultante. No caso hipotético, a eficácia seria de 71,4%.

    Quando se fala em porcentagem de eficácia, trata-se da capacidade de uma vacina prevenir uma enfermidade. Ou seja, se a vacina tem 95% de eficácia, significa que em 100 pessoas, 95 foram protegidas, e 5 podem adoecer. Tomar uma vacina de menor eficácia significa então que as chances de adoecer são maiores do que se imunizado por outra de maior eficácia.

    Qual deve ser a eficácia mínima

    Para a maior parte das doenças, o padrão de eficácia mínimo estabelecido pela Anvisa é de 70%. Só assim a agência brasileira aprova o uso de uma vacina na população.

    Por causa da emergência imposta pela pandemia de covid-19, a Anvisa, a OMS (Organização Mundial da Saúde), a FDA (agência responsável pela regulação de medicamentos nos EUA) e outros órgãos mundo afora defenderam que uma vacina com 50% de eficáciapudesse ser aprovada.

    Para definir esse mínimo, as agências usaram como parâmetro a taxa de reprodução inicial do Sars-CoV-2, vírus que causa a covid-19. Essa taxa indica o número médio de pessoas que podem ser contaminadas por uma já infectada, se não houver nenhuma medida de controle de disseminação do vírus, como o distanciamento social. No caso do coronavírus, uma pessoa transmite para outras duas — alguns cálculos chegam a três pessoas. Assim, tendo uma vacina pelo menos 50% eficaz, em vez de duas pessoas, apenas uma seria infectada, já que a outra estaria imunizada.

    Na teoria, a pandemia para de crescer e pode ser controlada. Mas como a população não será toda vacinada de uma vez, haverá um gargalo. Para isso, quanto maior a eficácia e maior a cobertura de vacinação em uma população, maiores as chances de se combater o vírus. O efeito da vacina também depende do sistema imunológico de cada pessoa, que pode responder melhor ou pior.

    Nenhuma vacina confere proteção integral. Algumas das mais eficazes são a da poliomielite, que garante 99% depois das três doses da gotinha e a da tríplice viral (contra caxumba, rubéola e sarampo), com 97%. As vacinas da gripe giram em torno de 65%.

    Quais são os objetivos de uma vacina

    Em entrevista ao Nexo na quarta-feira (25), Flávio Guimarães da Fonseca disse que uma vacina deve conferir proteção individual e coletiva, já que uma incorre na outra. Ele é virologista do Centro de Tecnologia de Vacinas e pesquisador do Departamento de Microbiologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

    Segundo Fonseca, existem três graus de proteção de um imunizante: um primeiro que impede totalmente a infecção, chamada de “imunidade esterilizante”; um segundo que não impede a infecção ou a capacidade de transmitir para outras pessoas, mas impede o indivíduo de ficar doente. E um terceiro que não impede infecção nem doença, mas impede o desenvolvimento de um quadro mais grave.

    Nenhum dos laboratórios divulgou qual é o grau de proteção de seus produtos. Isso só ficará claro quando os dados forem liberados para a comunidade científica. No entanto, o virologista disse que a vacina da Oxford/AstraZenca dá algumas pistas: “O estudo informou que eles conseguiram diminuir a quantidade de infecções assintomáticas. Isso é um indicativo de que eles estão conseguindo essa ‘imunidade esterilizante’.” As demais candidatas só disseram quantas pessoas desenvolveram ou não a covid-19.

    Com a imunização, medidas não-farmacológicas, como o distanciamento social e o uso de máscaras, podem ter suas intensidades reduzidas. Mas, segundo Fonseca, só com a “imunidade esterilizante” elas poderiam ser completamente eliminadas.

    Para saber se a proteção será máxima, é preciso acompanhar o fim dos estudos que, dependendo do laboratório, podem demorar mais seis meses ou um ano. Ele acredita que as vacinas devem ser licenciadas para uso antes disso uma vez comprovado algum tipo de proteção.

    Esses são só os primeiros passos para confirmar a proteção dos imunizantes. Ao Nexo, também na quarta-feira (25), João Viola, presidente do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia, destacou objetivos a longo prazo, como o tempo de imunidade conferida pela vacina e os casos de reinfecções. Segundo ele, foram oito meses de pandemia até novembro de 2020, um intervalo pequeno para estudos epidemiológicos.

    A vacina mais rápida a ficar pronta foi a contra a caxumba, criada nos anos 1960. Seu processo levou quatro anos. As estimativas mais otimistas traçadas pelos cientistas para a covid-19 falam de entre um ano e um ano e meio. Uma pesquisa de 2013 da Erasmus University Roterdã, na Holanda, aponta que seis a cada 100 candidatas a uma vacina têm sucesso, e a produção pode levar até 10,7 anos.

    É recomendável tomar mais de uma vacina?

    A orientação é que não se misturem duas substâncias sem aval da comunidade científica porque algumas vacinas usam o próprio vírus enfraquecido na confecção. Tomar doses extras ou misturar duas desses imunizantes pode gerar complicações. Cerca de 10% das vacinas contra a covid-19 em desenvolvimento usam essa tecnologia.

    A grande maioria, no entanto, não correria esse problema. É o caso da vacina da Oxford/AstraZeneca, que usa um pedaço do material genético do vírus. Ao site Bloomberg, Andrew Pollard, que coordena o ensaio da candidata, disse que deverá ser possível misturar imunizantes diferentes, mas que estudos mais robustos são necessários.

    Gustavo Cabral, coordenador de uma pesquisa de vacina contra covid-19 desenvolvida pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), disse ao canal de TV CNN que idealmente um imunizante é desenvolvido para ser suficiente por si só. No entanto, os estudos podem revelar que “uma vacina pode ser melhor para induzir a produção de anticorpos, e outra em induzir outras partes do sistema imunológico, e então uma complementaria a outra”.

    O problema é que, em um primeiro momento, não haverá oferta para sequer uma dose da vacina para toda a população mundial. Segundo Flávio Guimarães da Fonseca, deve haver um escalonamento. “Uma ‘vacina esterilizante’ vai ser fornecida para populações de alto risco. Enquanto uma vacina não esterilizante pode ser fornecida para jovens”, afirmou ao Nexo.

    Quais são outros indicadores para a viabilidade da vacina

    “Não adianta ter uma vacina excelente, com 95% de eficácia, se ela é cara, com problema de logística e não vai chegar bem armazenada. Vai cair a eficácia”, disse João Viola ao Nexo. Segundo ele, há diversos outros fatores que precisam ser atentados, como temperatura de conservação, facilidade de manipulação e dificuldade de logística para lugares remotos.

    Alguns dos laboratórios já disponibilizaram esses dados para comparação. As quatro vacinas já com resultados de eficácia divulgados (mais a CoronaVac, do laboratório chinês Sinovac, que deve divulgar os valores no começo de dezembro) têm os seguintes custos estimados por dose:

    • Oxford (Reino Unido) / AstraZeneca (Inglaterra-Suécia): entre R$ 16 e R$ 22;
    • Instituto Gamaleya (Rússia): R$ 54;
    • Sinovac (China): R$ 56;
    • Pfizer (EUA) / BioNTech (Alemanha): R$ 106;
    • Moderna (EUA): entre R$ 136 e R$ 201.

    Segundo o jornal The Financial Times, o laboratório AstraZeneca concordou em vender sua vacina a preço de custo e sem aumentos no futuro para nações em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. O presidente da Pfizer no Brasil, Carlos Murillo, também afirmou que haverá diferentes faixas de preço para países ricos, em desenvolvimento e pobres. Até quarta-feira (25), as outras desenvolvedoras não haviam anunciando medidas do tipo. Os valores de temperatura de conservação são os seguintes:

    • Oxford (Reino Unido) / AstraZeneca (Inglaterra-Suécia): entre 2ºC e 8ºC;
    • Instituto Gamaleya (Rússia): entre 2ºC e 8ºC;
    • Sinovac (China): entre 2ºC e 8ºC;
    • Pfizer (EUA) / BioNTech (Alemanha): -70ºC;
    • Moderna (EUA): entre 2ºC e 8ºC (-20ºC para estoque).

    Segundo a OMS, cerca de metade das vacinas distribuídas no mundo estragam, em grande parte por causa das baixas condições de manter a temperatura necessária. Nesse sentido, Pfizer/BioNTech e Moderna, cujas tecnologias exigem temperaturas menores, investem também em refrigeradores, equipamentos de monitoramento de temperatura e cadeias de logística.

    As vacinas também podem estragar devido ao problema de armazenamento de todas essas doses. Hospitais podem até ter a infraestrutura necessária, mas clínicas e farmácias menores não. E mesmo em lugares especializados, as vacinas de covid-19 precisarão competir com o estoque e materiais — como seringas e agulhas — para produção de vacinas para outras doenças, que continuam existindo.

    Como as vacinas devem chegar ao Brasil

    O governo federal investiu R$ 1,9 bilhão para comprar 100 milhões de doses da vacina da Oxford/AstraZeneca. O laboratório também irá transferir a tecnologia do imunizante para a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), para produção em território nacional. Segundo o jornal O Globo revelou na segunda-feira (23), os laboratórios devem pedir autorização para uso emergencial da vacina à Anvisa.

    Os governos do Paraná e da Bahia já firmaram acordos com o laboratório russo para ensaios e aquisição de doses da vacina Sputnik-V. Além disso, a farmacêutica paulista União Química também fechou acordo para se tornar o centro produtor do imunizante russo na América Latina. A Anvisa ainda espera o pedido formal do Instituto Gamaleya para o registro da Sputnik-V no Brasil.

    A Moderna e a Pfizer/BioNTech ainda negociam com o governo federal para disponibilizar o imunizante em território nacional. O Ministério da Saúde está recebendo representantes dessas e de outras desenvolvedoras, como a russa Instituto Gamaleya, a americana Johnson & Johnson e a indiana Bharat Biotech. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o discurso é de que o governo comprará a primeira vacina segura que chegar ao mercado.

    O imunizante da Moderna também pode chegar ao país através do programa Covax Facility, coordenado pela OMS e do qual o Brasil faz parte. A iniciativa é distribuir de forma global, para países ricos e pobres, as vacinas que forem bem-sucedidas contra a covid-19 dentre nove candidatas — além da Moderna, Oxford/AstraZeneca também faz parte da lista.

    A vacina chinesa CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório Sinovac em parceria com o Instituto Butantan em São Paulo, deve ter o resultado de eficácia divulgado no início de dezembro. Em janeiro, haverá 46 milhões de doses compradas da China prontas. Até o momento, o presidente Jair Bolsonaro se recusa a comprar o imunizante chinês, em razão da disputa política com o governador João Doria, que desponta como concorrente do atual mandatário nas eleições presidenciais de 2022.

    A previsão é de que as campanhas de imunização dessas vacinas comecem já no primeiro semestre de 2021. Em primeiro lugar, serão vacinadas as pessoas do grupo de risco da doença, de acordo com os aspectos epidemiológicos, de eficácia e de segurança de cada imunizante.

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