Como a disputa de 2020 pode reorganizar as forças eleitorais

À espera do resultado do segundo turno, já há sinais para o futuro. Dos reveses de Bolsonaro ao surgimento de novos atores relevantes como Boulos, quadro se amplia no cenário político brasileiro

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A dinâmica das eleições municipais é diferente da dinâmica das eleições nacionais. Essa ressalva sempre é feita por analistas políticos ao comentar resultados locais, de prefeitos e vereadores, para projetá-los num cenário posterior, de escolha de presidente, governadores, senadores e deputados.

Mas a reorganização partidária, a linha dos discursos e a influência do Palácio do Planalto podem dar sinais importantes sobre a disputa de dois anos depois. Às vésperas do segundo turno das eleições municipais de 2020, marcado para este domingo (29), o Nexo ouviu cientistas políticos sobre esse tema.

Abaixo, veja como as forças políticas estão dispostas atualmente e entenda como os sinais de agora podem ou não se refletir na disputa nacional de 2022.

Quadro de forças

BOLSONARISMO

Jair Bolsonaro é um expoente da extrema direita que reúne outras forças em torno de si. Foi eleito em 2018 pelo PSL, então partido pequeno, e atualmente não está filiado a nenhuma agremiação. Tenta criar seu próprio partido, o Aliança pelo Brasil, mas ainda não teve sucesso. O presidente afirma que tentará reeleição em 2022.

CENTRÃO

Apesar do nome, é formado por partidos conservadores, mais alinhados à direita. O grupo é aliado de Bolsonaro no Congresso. Seu rumo em 2022 é incerto. Pode continuar com o governo ou pode tomar outros rumos, a depender do cenário em razão de sua característica adesista. Não tem presidenciável hoje.

PSDB-DEM-MDB

DEM e MDB se afastaram do centrão nacionalmente. Junto com o PSDB, tentam criar uma aliança, ensaiada em São Paulo em 2020. O tucano João Doria, governador paulista, é um dos presidenciáveis do grupo. Nessa órbita estão o apresentador Luciano Huck e o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro, ainda sem partido.

PDT-PSB

Houve várias alianças entre PDT e PSB em 2020, inclusive na eleição paulistana, sem sucesso nas urnas. São partidos da órbita do presidenciável pedetista Ciro Gomes, que ficou em terceiro na eleição ao Planalto em 2018. O grupo tenta romper a hegemonia do PT na centro-esquerda e busca apoio para além desse espectro político.

PT-PSOL-PCdoB

O grupo tem o PT como principal força. O partido do ex-presidente Lula sofreu uma grande derrota para a prefeitura da capital paulista em 2020, tendo o espaço tomado pelo PSOL. Os partidos têm se aproximado. Nessa órbita também está o PCdoB do governador maranhense Flávio Dino, que tem aberto diálogos inclusive com outros personagens, como Luciano Huck.

Os sinais para o bolsonarismo

No primeiro turno em 2020, alguns sinais que podem ecoar em 2022 já apareceram. Um deles é o enfraquecimento do discurso antissistema que começou a dar as caras nas disputas municipais de 2016 e se transformou numa onda na eleição nacional de 2018. Candidatos que negam a política não fizeram muito sucesso nas urnas em 15 de novembro.

Na campanha de segundo turno com votação no domingo (29) em 57 cidades – 18 delas capitais –, nomes associados a Jair Bolsonaro, maior representante da linha antissistema, preferiram tomar distância do presidente. O próprio Bolsonaro se empenhou menos no apoio a aliados. Isso não quer dizer que a onda antipolítica esteja encerrada, mas é um indicativo para 2022, segundo cientistas políticos ouvidos pelo Nexo.

“Em São Paulo o bolsonarismo não tem palanque [Celso Russomanno, candidato do presidente, caiu no primeiro turno]. Olhando em outras capitais, como Fortaleza e Vitória, ambos candidatos estão recusando o apoio do presidente. Isso significa que ele [Bolsonaro] pode ficar isolado”

Marco Antônio Teixeira

professor de administração pública da FGV-SP

Em Fortaleza, Capitão Wagner (PROS), candidato apoiado por Bolsonaro, até fez menções ao governo federal em sua propaganda no horário eleitoral, mas afirma não ter padrinho político. Em Vitória, Delegado Pazolini (Republicanos) tem dito que não é o candidato do presidente.

“Bolsonaro vai precisar mudar politicamente. Mais diálogo e coligações. Ou seja: vai precisar aderir ainda mais àquilo que ele criticou em 2018 [os políticos tradicionais]”

Antônio Lavareda

professor de ciência política da Universidade Federal de Pernambuco

Os sinais para os partidos tradicionais

No âmbito partidário, as legendas do centrão ganharam força nas eleições de 2020. Progressistas, PSD e Republicanos foram alguns partidos que ampliaram de forma significativa sua capilaridade nas cidades brasileiras. Essa capilaridade não tem necessariamente influência direta numa eleição presidencial, mas pode influenciar de forma decisiva na eleição de deputados federais.

“Esses partidos [do centrão] se organizam mais entre parlamentares, na Câmara dos Deputados, do que em um apoio consolidado a um nome durante uma eleição. Os partidos do centrão podem se alinhar em 2022? Podem. Mas não é isso que a história nos mostra quando olhamos a atuação desses partidos em eleições anteriores”

Marco Antônio Teixeira

professor de administração pública da FGV-SP

Em 2018, os partidos do centrão, por exemplo, aderiram inicialmente à candidatura tucana de Geraldo Alckmin para a presidência. Ao notarem o eminente fracasso da empreitada, passaram a apoiar Bolsonaro. O rumo desses partidos em 2022 depende de como vai estar a popularidade do presidente no ano da eleição para o Palácio do Planalto.

“O presidente tende a ficar mais impopular com o fim do auxílio emergencial [em 2021]. Eles [os partidos do centrão] vão apoiar um candidato nessas condições? Acho difícil. Esse apoio pode se pulverizar, e eventualmente chegar em um candidato que não esteja desgastado e que possa representar as sinalizações que as urnas deram em 2020, sobre uma rejeição ao radicalismo”

Sérgio Praça

professor da Escola de Ciências Sociais da FGV

O DEM, com forte influência no Congresso, aumentou sua capilaridade nas cidades, inclusive vencendo no primeiro turno de 2020 em três capitais. É um partido que costuma atuar como satélites nas disputas presidenciais, mas pode ter seu poder de negociação fortalecido diante das vitórias em 2020. O MDB perdeu espaço, mas ainda é o partido com mais prefeitos eleitos no Brasil em termos numéricos.

“O DEM tem lideranças como ACM Neto [atual prefeito de Salvador que elegeu seu sucessor no primeiro turno] e o Rodrigo Maia [presidente da Câmara dos Deputados]. Não duvido que o DEM possa ser o cabeça de chapa desses partidos [na frente com PSDB e MDB] na disputa para o governo de São Paulo em 2022”

Marco Antônio Teixeira

professor de administração pública da FGV-SP

O DEM tem nomes que aparecem como possíveis presidenciáveis, como o ex-ministro da Saúde de Bolsonaro Henrique Mandetta. Já o PSDB tem Doria, eleito governador em 2018 com o slogan BolsoDoria, que se afastou do presidente e desponta como um adversário nacional do Palácio do Planalto.

“Ele [Doria] foi o principal fiador dessa aglutinação [entre PSDB, DEM e MDB nas eleições municipais de 2020] e pretende fazer uso dela em nível nacional daqui dois anos”

Marco Antônio Teixeira

professor de administração pública da FGV-SP

“Os partidos estão disputando a hegemonia nesse campo e não dá para dizer quem vai liderar isso. Pode ser o Doria? Sim. Mas o PSDB perdeu muita força nessas eleições. E se perder a prefeitura de São Paulo o espaço se reduz”

Sérgio Praça

professor da Escola de Ciências Sociais da FGV

Tanto PSDB quanto o PT, partidos que estiveram no comando do Palácio do Planalto entre 1995 e 2016, sofreram reveses nos municípios em termos numéricos em 2020.

Os resultados do segundo turno, tanto para tucanos quanto para petistas, são importantes. O PSDB tenta manter a capital paulista e disputa Teresina e Porto Velho (no primeiro turno, já havia vencido em Natal e Palmas). O PT busca obter capitais como Recife e Vitória.

Na aglutição antibolsonarista no segundo turno, Fortaleza conseguiu unir PSDB, DEM, PT, PSOL e PCdoB em torno do candidato de Ciro, o pedetista Sarto.

Em São Paulo, Lula, Ciro, Marina Silva, da Rede, e Flávio Dino fizeram, juntos, propaganda para o PSOL, que tem sua maior conquista em 2020 na chegada de Guilherme Boulos ao segundo turno da maior cidade do país.

Boulos, que foi candidato à presidência em 2018 sem votação significativa, vem se aproximando do prefeito Bruno Covas (PSDB) na reta final da disputa, segundo as pesquisas. O PSOL ainda tem chances em Belém, com Edmilson Rodrigues.

“O cenário fica mais rico, com um novo personagem [Guilherme Boulos] em cenário nacional. Ele é um candidato que, ganhando ou perdendo, sai maior dessa eleição”

Antônio Lavareda

professor de ciência política da Universidade Federal de Pernambuco

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