Os laboratórios por trás das vacinas contra a covid-19

De 13 iniciativas na última fase de testes em humanos, ao menos quatro divulgaram resultados promissores e três têm acordos com o Brasil 

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Os laboratórios farmacêuticos conquistaram na pandemia do novo coronavírus um papel de destaque pela corrida para o desenvolvimento de uma vacina contra a doença. Pelo mundo, 55 imunizantes eram testados em humanos até a terça-feira (24), dos quais 13 estavam na fase 3, a última antes da aprovação para o uso.

Essencial para barrar a transmissão da doença no mundo e frear a pandemia, a produção de um imunizante seguro e eficaz nesta velocidade é um desafio sem precedentes na história da humanidade. Até agora, a vacina mais rápida ja desenvolvida, a contra a caxumba, demorou quatro anos para ficar pronta.

Empresas como Moderna, Pfizer e AstraZeneca anunciaram, ainda em novembro, resultados de testes mostrando eficácia superior a 90% em seus produtos. Promissores, esses estudos ainda precisam passar pela análise de entidades regulatórias antes que países deem início à vacinação. No Brasil, isso será feito pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Abaixo, o Nexo faz um perfil dos principais laboratórios que trabalham no desenvolvimento de uma vacina contra a covid-19.

Moderna

A maior aposta do governo dos Estados Unidos no desenvolvimento de uma vacina contra a covid-19 foi feita numa empresa que, em dez anos de existência, nunca colocou um produto no mercado, não conseguiu aprovar nenhum de seus nove candidatos a imunizantes contra outras doenças e não havia sequer chegado à fase 3 de ensaios clínicos.

Com sede em Cambridge, no estado americano de Massachusetts, a Moderna foi fundada em 2010, a partir de estudos desenvolvidos pelo professor de Harvard Derrick Rossi, conhecido por pesquisas com células-tronco. Com a ajuda do engenheiro e professor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) Robert Langer e de outro professor de Harvard, Timothy Springer, eles conseguiram investimento para o negócio.

As três últimas letras do nome da empresa (RNA) sintetizam sua ideia: criar medicamentos e vacinas a partir do RNA mensageiro, uma molécula que carrega instruções genéticas.

A vacina contra a covid-19 que a empresa desenvolve usa um pedaço do RNA mensageiro do novo coronavírus envolto numa cápsula de gordura. Ao entrar no organismo, ele se apropria do maquinário das células para produzir uma proteína. Essa proteína é a mesma que o vírus usaria para entrar nas células humanas e se reproduzir. O sistema imune a reconhece e ativa os mecanismos de defesa do corpo.

Ainda não há no mercado nenhuma vacina que funcione com essa tecnologia. Por isso, pesquisadores consideram que seria uma revolução para a ciência a aprovação de um imunizante do tipo.

O governo americano já investiu US$ 1 bilhão na Moderna para o desenvolvimento e a testagem da vacina. O laboratório recebeu mais US$ 1,5 bilhão para fornecer 100 milhões de doses, casos elas se provem seguras e eficazes.

Segundo a TV americana CNN, a Moderna foi escolhida pelo governo dos Estados Unidos — que também investe em outras pesquisas de vacinas — por ela prometer entregar resultados num tempo mais curto que outros laboratórios.

A empresa já foi criticada no passado por não submeter suas pesquisas ao escrutínio de outros pesquisadores. Em 2016, um artigo publicado na revista científica Nature criticou o laboratório por não ter, até então, publicado um único estudo revisado por cientistas independentes.

Mesmo assim, a Moderna já recebeu o apoio de outros laboratórios, como um investimento da anglo-sueca AstraZeneca em 2013 de US$ 240 milhões para pesquisar drogas usando a tecnologia baseada no RNA mensageiro contra uma série de doenças, que iam de problemas cardíacos e renais a cânceres. A AstraZeneca também desenvolve uma vacina contra a covid-19 atualmente.

Em 16 de novembro, a Moderna divulgou resultados preliminares que mostravam que seu imunizante contra a covid-19 apresentou uma eficácia de cerca de 95% nos testes da fase 3, feito com 30 mil voluntários. No domingo (22), o CEO da farmacêutica, Stéphane Bancel, afirmou a um jornal alemão que a vacina pode custar de US$ 25 (R$ 134) a US$ 37 (R$ 199) por dose.

Segundo a empresa, o produto dura até 30 dias se preservado numa temperatura de 2ºC a 8ºC. Em ambientes abaixo de -20ºC, a duração chega a seis meses.

Pfizer/BioNTech

A multinacional Pfizer, que tem sede em Nova York, nos Estados Unidos, foi a primeira a divulgar, em 9 de novembro, uma taxa de eficácia superior a 90% obtida na fase 3 de testes com sua vacina contra o novo coronavírus. O produto é desenvolvido em parceria com a empresa alemã de biotecnologia BioNTech.

Assim como a Moderna, o laboratório investiu numa vacina genética, baseada no RNA mensageiro. O problema é que ela precisa ser preservada a -70ºC até o momento do uso, e a maioria dos países não tem freezers com essa capacidade de resfriamento.

Em 20 de novembro, a Pfizer solicitou uma aprovação emergencial à agência regulatória americana para o uso do imunizante nos Estados Unidos. Ela prevê produzir 1,3 bilhões de doses da vacina em todo o mundo até o final de 2021.

A empresa foi fundada em 1849 nos Estados Unidos pelo imigrante alemão Charles Pfizer, em parceria com um primo. O primeiro produto criado pela dupla foi um remédio para combater vermes intestinais. Anos depois, seria a primeira a produzir em massa a penicilina, antibiótico descoberto pelo médico Alexander Fleming em 1928. Um de seus mais conhecidos produtos é o Viagra, remédio para disfunção erétil aprovado em 1998.

A Pfizer tem mais de 88 mil funcionários em todo o mundo. Em 2014, tentou comprar o laboratório anglo-sueco AstraZeneca, mas a oferta foi recusada.

Já a BioNTech, bem menor e com uma história muito mais recente do que a parceira, foi fundada em 2008 por um casal de médicos com o foco em tratamentos para o câncer. Ela tem 1.800 funcionários e já vinha trabalhando desde 2018 com a Pfizer numa vacina contra a gripe.

AstraZeneca

Outra vacina que pode alcançar mais de 90% de eficácia, dependendo da dosagem, é a desenvolvida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, em parceria com o laboratório anglo-sueco AstraZeneca.

Sua tecnologia é diferente das vacinas da Moderna e da Pfizer. Ela usa um adenovírus que causa gripe apenas em chimpanzés para carregar o material genético do novo coronavírus. Testes em macacos haviam mostrado que ela preveniu a evolução de pneumonias nos animais.

Uma vantagem é que os pesquisadores de Oxford já testavam essa tecnologia contra a Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), doença surgida em 2012 também causada por um coronavírus.

Nos resultados preliminares da fase 3, a vacina se mostrou mais eficaz com a aplicação inicial de meia dose e um reforço com uma dose completa um mês depois. Nem a AstraZeneca nem a universidade explicaram o motivo, mas cientistas acreditam que a resposta do organismo ao adenovírus no caso da aplicação de uma primeira dose cheia da vacina pode ter prejudicado a resposta ao novo coronavírus.

A AstraZeneca foi fundada em 1999, depois de uma fusão entre a sueca Astra e a britânica Zeneca. Com sede em Cambridge, na Inglaterra, tem mais de 70 mil funcionários e investe, principalmente, em medicamentos para tratamentos de câncer, doenças cardiovasculares, renais e respiratórias.

Seu imunizante deve ser produzido no Brasil pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), graças a um acordo de encomenda tecnológica firmado com o governo federal por R$ 1,99 bilhão. A instituição prevê produzir 210,4 milhões de doses até o final de 2021.

Gamaleya

O governo da Rússia anunciou a aprovação de um imunizante contra o novo coronavírus ainda em agosto, antes mesmo do início da fase 3 de testes. Batizada de Sputnik V, a vacina é desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia de Gamaleya, ligado do Ministério da Saúde do país.

Assim como a vacina de Oxford e da AstraZeneca, a Sputnik é baseada no adenovírus, mas usa dois deles, e por isso requer duas doses. Em novembro, pesquisadores anunciaram que ele apresentou mais de 90% de eficácia em estudos preliminares.

O instituto foi fundado em 1891 como um laboratório privado, foi estatizado após a Revolução Russa e em 1949 mudou de nome para homenagear Nikolai Gamaleya, considerado pioneiro nos estudos de microbiologia na Rússia.

Durante a União Soviética (1922 a 1991), o órgão era responsável por organizar as campanhas de vacinação em massa no país e foi responsável por combater epidemias de cólera, difteria e tifo.

Desde 1980, cientistas do instituto desenvolvem estudos de vacinas com adenovírus. Em 2015, o Gamaleya criou uma vacina contra o ebola usando essa tecnologia. Também estuda imunizantes com adenovírus contra a influenza e a Mers (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), doença também causada por um coronavírus.

A farmacêutica brasileira União Química anunciou um acordo com o governo russo para produzi-la no país em 2021.

Sinovac

No Brasil, a empresa privada chinesa Sinovac ganhou destaque devido ao acordo com o governo do estado de São Paulo para a produção da vacina Coronavac no país, pelo Instituto Butantan.

É um laboratório considerado pequeno perto dos outros que trabalham no desenvolvimento de uma vacina contra a covid-19. Em 2019, seu faturamento foi de US$ 246 milhões. Em comparação, a Pfizer teve, no mesmo ano, receita de US$ 51 bilhões.

Fundada em 2001, com sede em Pequim, na China, a Sinovac tem 910 funcionários espalhados por quatro unidades da empresa no país e é responsável por cerca de 20% do mercado chinês de vacinas, produzindo 20 milhões de doses por ano.

Ao todo, tem oito imunizantes registrados e outros quatro sendo testados em humanos. Entre os produtos oferecidos estão vacinas contra hepatite B, caxumba e influenza sazonal. A empresa foi a primeira a desenvolver e conseguir registro de uma vacina contra o vírus H1N1, em 2009.

No caso da covid-19, a tecnologia usada é o próprio coronavírus “morto”. Por estar inativado, ele não causa doença, mas gera uma resposta do sistema imune. Essa tecnologia, dominada pelo Instituto Butantan, é a mais antiga na fabricação de vacinas no mundo.

Ao jornal O Estado de S. Paulo, o presidente do Butantan, Dimas Covas, afirmou que a Sinovac recebeu investimentos da empresa Ali Baba, de comércio eletrônico, para construir uma nova fábrica até maio para a produção da vacina contra a covid-19.

O acordo do governo paulista para a aquisição da Coronavac foi de US$ 90 milhões para produzir 46 milhões de doses até o final de 2020. Outras 15 milhões estão previstas para fevereiro de 2021.

A gestão da Sinovac é marcada por episódios turbulentos que envolvem brigas entre seus acionistas. Além disso, em 2016, um episódio de corrupção respingou na empresa. Seu presidente foi citado nas investigações sobre o pagamento de propina à agência regulatória chinesa para acelerar o processo de aprovação de registros de vacinas. O caso acabou arquivado sem nenhuma acusação formal.

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