Qual o valor da atitude social de empresas. E o caso Carrefour

No dia em que a notícia de espancamento e morte de Beto Freitas tomou o Brasil, ações da rede de supermercados subiram, reacendendo debate sobre ESG e critérios adotados por investidores. No pregão seguinte, papeis tiveram queda

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    Na quinta-feira (19) à noite, João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, morreu após ser espancado por dois seguranças brancos no estacionamento de uma unidade do Carrefour em Porto Alegre. Os dois agressores foram presos em flagrante.

    A morte de Beto, como era conhecida a vítima, gerou reações na sociedade civil. Protestos antirracistas foram organizados em diferentes cidades, e movimentos de boicote à rede de supermercados Carrefour começaram a ser organizados nas redes sociais.

    Mas enquanto a morte de Beto ganhava proporções nacionais justamente no Dia da Consciência Negra e via crescer campanhas por boicote pelos consumidores, os mercados financeiros não refletiam a crise que se formava em torno do Carrefour.

    As ações da rede de supermercados francesa tiveram leve queda na parte da manhã da sexta-feira (20), mas logo se recuperaram. O saldo final do dia foi positivo, com valorização de 0,49% ao fim da sessão.

    Na segunda-feira (23), as ações da empresa caíram mais de 5%. Mas o atraso da reação dos investidores trouxe ao centro do debate as práticas ESG, que têm ganhado força no Brasil em anos recentes.

    O que é ESG e qual seu papel no mercado

    A sigla ESG se refere às boas práticas nas áreas ambiental, social e de governança corporativa – em inglês, Environmental, Social and corporate Governance.

    A ideia, aplicada no mercado financeiro, tenta abarcar como critérios de investimento a posição das empresas em relação ao ambiente e questões sociais e internas. O conceito não abrange apenas o produto oferecido pela empresa, mas também o comportamento e a atitude geral da companhia.

    O ESG se baseia na perspectiva de investir pensando além dos retornos pessoais. Os investimentos que levam em mente essas práticas consideram também o retorno que uma empresa pode trazer à sociedade ao aderir aos três pilares da sigla.

    Não se trata apenas de obedecer a critérios éticos para pautar investimentos. O ESG passa também pela ideia de que as boas práticas ambientais, sociais e de governança podem melhorar a avaliação financeira das empresas e significam boas oportunidades de negócios.

    A sigla ESG foi cunhada em 2004, em um estudo encomendado por 20 instituições financeiras de grande porte – incluindo Banco do Brasil, Deutsche Bank e Banco Mundial – intitulado “Quem se importa ganha” (“Who cares wins”, em inglês). A publicação já sugeria a adoção dos princípios do ESG como diretrizes para investidores, empresários, instituições financeiras e agências reguladoras de mercado.

    O ESG ganhou força ao longo dos anos subsequentes, principalmente a partir do final da década de 2010. Os investimentos em ESG costumam ocorrer por fundos que se restringem em colocar dinheiro em empresas que obedecem aos critérios.

    US$ 30 trilhões

    eram administrados por fundos ESG ao redor do mundo no início de 2019. Pela cotação de 23 de novembro, isso equivale a pouco mais de R$ 160 trilhões

    Em 2020, uma reportagem do jornal americano The New York Times mostrou que os retornos de fundos ESG têm se mostrado cada vez mais lucrativos na comparação com outros investimentos. Isso ajuda a apaziguar resistências de agentes do mercado que ainda mantêm suspeitas de que “investimentos de impacto” (expressão usada para se referir ao ESG) teriam retornos menores para quem aplica o dinheiro.

    Os questionamentos em torno dos fundos ESG

    Apesar de os investimentos em fundos ESG estarem em alta – principalmente desde 2019 –, há questionamentos sobre como realmente esses fundos são formados. Não há uma definição clara e única sobre como identificar se uma empresa está realmente adotando os três pilares.

    Isso abre brechas para problemas como um desequilíbrio em favor de questões ambientais entre os três critérios do ESG. Segundo investidores ouvidos pelo jornal The New York Times, haveria, entre os agentes de mercado, uma resistência maior em fazer investimentos pautados por questões como direitos humanos e equidade de gênero – a agenda de desenvolvimento sustentável teria um apela maior e mais fácil.

    Além disso, um levantamento do jornal americano Wall Street Journal mostrou que boa parte dos fundos ESG nos EUA contém investimentos em empresas de Big Tech – Amazon, Google, Facebook, Microsoft e Apple –, que muitas vezes obedecem os critérios ambientais e de governança, mas sofrem fortes questionamentos no pilar social. Pontos como proteção de dados de usuários e políticas de privacidade são levantados, assim como tratamento a funcionários e moderação de conteúdos falsos.

    Há também fundos que operam pela estratégia de “melhor da classe”, pelo qual os investimentos não excluem nenhum setor de atividade, mas seleciona as empresas com melhor ranking de ESG. Isso significa que há fundos ESG que detêm ações de empresas do setor petroleiro ou armamentício, simplesmente porque são consideradas melhores que as concorrentes na adoção dos critérios ESG.

    Há também dificuldades em identificar quais são as empresas que realmente se adequam aos padrões exigidos. Isso pode acontecer por problemas de transparência, como empresas que apenas divulgam algumas das métricas de ESG, focando nos aspectos favoráveis e deixando de fora os que poderiam ser mal vistos. Um exemplo seria uma empresa que mostra que reduziu a emissão de carbono, mas que omite que o número de mulheres que ocupam cargos altos caiu em um determinado período.

    Há ainda os obstáculos de empresas que não conseguem medir o grau de adequação aos critérios ESG por manter parcerias com fornecedores pouco transparentes.

    O alcance do ESG no Brasil

    No Brasil, diferentes reportagens publicadas em jornais mostram que as práticas ESG tiveram um ponto de inflexão: a tragédia de Brumadinho, quando 270 pessoas morreram após o rompimento de uma barragem da Vale em Minas Gerais no início de 2019.

    Uma reportagem da agência de notícias Reuters mostrou como a tragédia de Brumadinho levou muitos agentes de mercado a mudarem a forma como manejam seus investimentos. Muitos buscaram carteiras baseadas nos critérios ESG – não só por uma questão ética, mas também pelos prejuízos a que estavam expostos ao apostar em empresas com alto risco humanitário e ambiental. As próprias empresas também começaram a demonstrar maior preocupação com os três componentes da prática.

    O diagnóstico de investidores ouvidos em uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo é que, no Brasil, o debate sobre as pautas ambientais, sociais e de governança foi visto por muito tempo como ideológico. Ele teria avançado pouco até 2019 em reflexo da polarização política que se firmou no Brasil ao longo da década de 2010.

    A partir de 2019 e, em especial, em 2020, os fundos ESG ganharam impulso no mercado brasileiro. Mas a morte de Beto Freitas no estacionamento do Carrefour em Porto Alegre trouxe novos questionamentos em torno da adoção das práticas no Brasil.

    O caso Carrefour e os limites das práticas

    Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, o executivo Guilherme Athia, ex-vice-presidente da Nike no Brasil, escreveu que governança corporativa teria evitado a morte de Beto Freitas.

    Para Athia, ações como treinamentos, auditorias frequentes e um canal de compliance teriam impedido o assassinato do homem negro de 40 anos. O código de conduta do Carrefour, disponível para o público no site da empresa, fala em “tratamento digno e respeitoso, reconhecendo e valorizando a diversidade estética, diversidade étnico-racial, pessoas com deficiência, diversidade sexual, religiosa, etária e de gênero”.

    A demora dos investidores da bolsa de valores de São Paulo para reagir à morte de Beto Freitas no estacionamento do Carrefour também foi vista como um sinal de que as práticas ESG ainda estão longe de serem consolidadas no Brasil.

    Em resposta à valorização das ações da rede de supermercados na sexta-feira (20), o cofundador e gerente de portfólio da Fama Investimentos, Fabio Alperowitch – um dos primeiros a adotar os critérios no Brasil –, escreveu nas redes sociais: “ESG? No Brasil? Conta outra…”.

    Uma reportagem da revista Exame publicada na sexta-feira (20) ouviu agentes de mercado que fizeram análises no mesmo sentido. Eles argumentaram que o discurso em favor do ESG no Brasil tem avançado em anos recentes, mas que falta a prática acompanhar a fala.

    Segundo informações do blog Radar Econômico, da revista Veja, obtidas em conversas com investidores, a valorização das ações do Carrefour na sexta-feira (20) se deveu parcialmente à percepção de que a defesa do Carrefour teria maior solidez em razão dos antecedentes criminais da vítima. A sessão da bolsa de valores de São Paulo da segunda-feira (23), porém, indica uma mudança no pensamento dos investidores.

    Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo publicada na segunda-feira (23), o economista Pedro Fernando Nery afirmou que “a leitura [inicial] do mercado financeiro para o caso do Carrefour parece ser de que a sociedade não se importa” com o caso de violência racial ocorrida no supermercado. “É uma informação triste, que revela um racismo enraizado na sociedade”, completou Nery, em referência ao fato de que os movimentos na bolsa refletiram uma perspectiva positiva dos investidores com relação à empresa.

    A atitude do Carrefour ao longo dos dias

    Em nota publicada na sexta-feira (20), o Carrefour anunciou que “adotará as medidas cabíveis para responsabilizar os envolvidos neste ato criminoso”. Também comunicou que irá desligar o funcionário que estava no comando da loja e romperá contrato com a empresa responsável pelos seguranças.

    No dia seguinte, em nova nota, o grupo francês afirmou que o dia 20 de novembro de 2020 foi “o mais triste da história do Carrefour” e que “palavras não expressarão nossa angústia com a brutalidade”. Além de oferecer apoio à família de Beto Freitas, a rede também anunciou que doaria todo o resultado das vendas do dia 20 a “entidades ligadas à luta pela consciência negra” e que reforçaria treinamentos antirracistas entre os funcionários.

    Na noite de sábado (21), o CEO do Carrefour Brasil, Noel Prioux fez um comunicado na rede aberta de televisão em horário nobre lamentando a morte de Beto Freitas. Ele pediu desculpas aos clientes, à sociedade e aos colaboradores da empresa.

    O ocorrido de sexta-feira (20) não foi a primeira vez em que o Carrefour esteve no noticiário por atos de violência ou discriminação contra pessoas negras. Em documento enviado à rede de supermercados, o Conselho Nacional de Direitos Humanos convocou a empresa para tratar da morte de Beto Freitas e também de outros três casos: o de Januário Alves de Santana, homem negro de 39 anos que foi agredido em 2009 por cinco seguranças quando tentava entrar no próprio carro; o de Luís Carlos Gomes, homem negro com deficiência física que sofreu agressão em 2018 por seguranças da rede; e o de Moisés Santos, representante de vendas que morreu durante a jornada de trabalho em uma unidade do supermercado no Recife e cujo corpo foi deixado no chão, rodeado por guarda-sóis e engradados de cerveja que o cobriam.

    Além disso, no domingo (22), uma juíza e um defensor público relataram um caso de uma mulher negra que teria sido torturada e estuprada por seguranças do Carrefour após ser pega furtando. O episódio aconteceu no Rio de Janeiro na virada de 2017 para 2018.

    A morte de Beto Freitas no Carrefour trouxe à tona a discussão sobre a responsabilidade das empresas no enfrentamento do genocídio negro. O argumento geralmente levantado é que não basta às firmas apenas adotar o lema “Vidas negras importam” ou falar em aumento de diversidade e inclusão. O combate ao racismo e à violência racial deve ser acompanhado de um compromisso prático e diário por parte das empresas, conforme escreveu a advogada de direitos humanos Sheila de Carvalho em artigo publicado no Nexo.

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