O que leva a população às ruas nos protestos da Guatemala

Manifestantes lançam molotov contra o Congresso e pedem a renúncia do presidente, em meio a temporada de furacões, recessão e pandemia

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    Milhares de manifestantes vêm saindo às ruas da Cidade da Guatemala, capital do país homônimo, na América Central, desde sexta-feira (20) para protestar contra o governo do presidente Alejandro Giammattei.

    No momento mais tenso, no sábado (21), pedras e coquetéis molotov (garrafas com líquido inflamável e pavios improvisados com trapos) foram arremessados para dentro do edifício do Congresso, quebrando vidraças e incendiando escritórios parlamentares. Pelo menos 38 pessoas foram presas só neste dia.

    Os episódios de violência são, entretanto, pontuais. Na maior parte das marchas prevalece um clima pacífico, apesar da raiva que move os manifestantes a tomarem ruas e praças para manifestar o descontentamento com o governo.

    Longa lista de motivos

    O estopim dos protestos foi a aprovação, pelo Congresso, de uma proposta orçamentária enviada à Casa pelo presidente Giammattei, que reduz investimentos em saúde e educação. Mas há uma coleção de outros fatores que, somados, ajudam a explicar a explosão de insatisfação no país.

    Corrupção, cansaço e descrédito

    A Guatemala foi palco de uma gigantesca operação contra a corrupção, que durou pelo menos 13 anos, de 2006 a 2019. Essa espécie de “Super Lava Jato” golpeou todo o sistema político do país, abrindo caminho para a ascensão à Presidência de um comediante neófito na política, Jimmy Morales (2016 a 2020), e, em seguida, para o atual presidente, o direitista linha-dura Alejandro Giammattei, eleito em agosto de 2019.

    A eleição de ambos – do outsider e do linha-dura – representou o ápice do desgaste da classe política tradicional no país. O pleito vencido por Giammattei em 2019 foi marcado pelo cansaço do eleitorado: só 57% das pessoas aptas a votar compareceram na eleição de voto facultativo.

    Tanto Jimmy Morales quanto Giammattei trabalharam para encerrar gradualmente o trabalho na Cicig (Comissão Internacional Contra a Impunidade na Guatemala), coordenada pelas Nações Unidas no país. Giammattei tinha 86% de aprovação em abril, mas esse índice caiu para 21% em outubro, de acordo com pesquisa do instituto ProDatos.

    Com a popularidade já em baixa, e desgastado depois de 11 meses de governo, Giammattei enviou ao Congresso uma proposta orçamentária que, ao mesmo tempo, previa diminuição de investimentos em saúde e educação, e um pacote de socorro a empresas privadas.

    No contexto da pandemia, que até segunda-feira (23) havia deixado 118 mil infectados e 4 mil mortos no país, e do cenário de retração econômica, o pacote de Giammattei foi tomado como uma afronta, por parte de uma opinião pública que já vinha insatisfeita.

    A soma da política com os desastres naturais

    Para piorar o cenário de tensão política, a proposta orçamentária de Giammattei veio a público no momento em que a Guatemala tenta se reerguer da passagem de dois furacões, Eta e Iota, que deixaram 53 mortos, 94 desaparecidos e mais de 100 mil desabrigados, além de um rastro de destruição no mês de novembro.

    O vice, Guillermo Castillo, se afastou de Giammattei, e disse que, diante da sobreposição de crises, o melhor era uma renúncia da chapa e a realização de novas eleições. Castillo disse que mantém “pouca comunicação com o presidente”, que não comentou as declarações de seu vice.

    Nas redes sociais, Giammattei avisou que vai revisar a proposta orçamentária, mas que não tolerará a destruição de patrimônio público, como ocorrido no sábado (21), na sede do Congresso, num sinal de que a ação policial pode recrudescer nos próximos dias.

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