Como navegar a temporada de descontos em meio à crise

Ao ‘Nexo’, especialista em negócios faz recomendações de como encarar as ofertas em um momento de recessão e pandemia

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    O mês de novembro tem se tornado um dos momentos mais importantes do ano para o varejo brasileiro. Por conta da temporada de descontos – tradição importada dos EUA –, consumidores têm antecipado compras do Natal para aproveitar as ofertas.

    Números do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que, desde 2014, o volume de vendas de novembro tem sido superior ao de dezembro. O fenômeno ocorreu em seis anos consecutivos e pode se repetir em 2020.

    Tipicamente, a temporada de descontos é centrada na “Black Friday”, que ocorre na sequência do Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos. O feriado americano é comemorado sempre na quarta quinta-feira do mês de novembro. No Brasil, os descontos geralmente não ficam restritos a um dia – eles podem ocorrer ao longo de toda a semana ou mesmo de todo o mês.

    Em 2020, a possível conotação racista do termo “Black Friday” levou algumas empresas brasileiras a abandonar o uso do apelido da data. A origem da expressão “sexta-feira preta” é incerta, mas pode estar relacionada à escravização de pessoas negras.

    Em 2020, o cenário para quem vende e para quem consome é atípico. Por conta da pandemia do novo coronavírus, as cenas de lojas cheias e filas enormes dificilmente se repetirão. A expectativa é que a temporada de descontos migre fortemente para os ambientes digitais – acompanhando a tendência que se observou no varejo desde o início da pandemia.

    Além das restrições de circulação de pessoas, a pandemia trouxe uma crise econômica de proporções históricas. A recessão levou mais de 12 milhões de brasileiros a perderem o emprego, e outros tantos a terem salários reduzidos. A renda dos brasileiros foi afetada – em muitos casos, o auxílio emergencial do governo ajudou a compensar perdas.

    O Nexo conversou com David Kallás, professor e coordenador do Centro de Estudos em Negócios do Insper, sobre o que deve ficar no radar dos consumidores na temporada de descontos que acontece em meio à pandemia.

    Planejamento antecipado das compras

    Para Kallás, a principal dica para quem vai consumir na temporada de descontos é o planejamento. “A recomendação é já pensar o que quer comprar com antecedência”, ele explica. “Pode ser um bom momento para fazer compras para as quais você consegue se planejar – uma geladeira, uma televisão – ou para antecipar compras de Natal”.

    Segundo o professor do Insper, esse planejamento deve ser feito com semanas ou dias de antecedência. Ao pesquisar antes do período de promoção sobre um produto e seus respectivos modelos, fica mais fácil reconhecer os descontos que representam as melhores oportunidades – e também as ofertas que não valem a pena.

    O planejamento permite conhecer os preços típicos de um determinado produto. “Já comece a se familiarizar com os preços para evitar situações de ‘metade do dobro’”, explica Kallás. Há também sites que possibilitam uma consulta ao histórico de preços de certos produtos, e que ajudam no processo de pesquisa para a temporada de descontos.

    Como evitar as compras por impulso

    O planejamento antecipado das compras também é uma forma de evitar as compras movidas por impulso. De acordo com o professor do Insper, “se você deixar para decidir no dia o que vai comprar e qual modelo, corre o risco de comprar uma coisa que não precisa”. O risco também está em fazer uma compra achando que é um bom negócio, mas que na realidade não traz vantagens financeiras.

    As compras por impulso acontecem tipicamente em lojas físicas, onde o contato com os produtos é direto e permite manuseio, provas, etc. No ambiente virtual, elas tendem a ganhar força durante a temporada de descontos.

    Outra estratégia para evitar compras por impulso é separar o momento da decisão – quando se resolve levar um produto – do momento de efetivação do pagamento. Esse intervalo, que pode ser de cerca de uma hora, é, para Kallás, “uma forma de refletir um pouco se realmente é uma compra que precisa ser feita” e deve ser adotado “principalmente para compras de valores mais altos”.

    Porém, esperar para fechar a compra traz riscos. Em casos de artigos com estoque limitado e com descontos que duram pouco tempo, o produto pode se esgotar durante esse período.

    O que fazer se a sua renda foi reduzida

    Em 2020, um ano de forte crise, muitos brasileiros chegam a novembro com as fontes de renda zeradas ou reduzidas. Em boa parte dos casos, a poupança acumulada não permite fazer grandes compras.

    Para Kallás, quem está com a renda reduzida deve tomar mais cuidado para não fazer compras desnecessárias ou que não tragam vantagem financeira. “É preciso pensar na capacidade de pagamento futuro e pensar se realmente é algo que você precisa ou se é algo que pode adiar”.

    Quem quiser se distanciar dos gastos pode tentar minimizar o contato com as promoções para fugir de tentações. Isso pode ser feito evitando abrir links e e-mails com as ofertas da temporada ou ficando longe da internet na chamada sexta-feira em que os descontos são concentrados.

    Mas a temporada de descontos não necessariamente representa uma cilada para quem está com a renda em baixa. Há oportunidades em outros tipos de produtos que não são tipicamente os mais caros (eletrônicos ou eletrodomésticos).

    Alguns supermercados aderem à iniciativa e oferecem descontos em itens de consumo diário, como alimentos e produtos de limpeza. Para o professor do Insper, “às vezes você consegue reduzir seus gastos tradicionais aproveitando essas ofertas em coisas que normalmente já compra”.

    Se existe o temor de extrapolar com as compras quando não se deve, uma possibilidade é estabelecer um orçamento para a temporada de descontos. Colocar um limite para o dinheiro gasto pode ser uma forma de aproveitar as ofertas sem desembolsar mais do que o adequado.

    Segurança nas compras online

    Por conta da pandemia, a maior parte das compras da temporada de descontos de 2020 será feita em ambientes digitais. Assim, será possível evitar aglomerações em lojas físicas em um momento de escalada dos números do coronavírus no Brasil.

    O consumidor deve atentar para o risco de cair em golpes e fraudes cibernéticas quando faz compras online. A principal forma pela qual os golpes acontecem é pelo uso de links que levam a sites falsos oferecendo ofertas. Se a pessoa faz uma compra nesses ambientes, passa dados pessoas e bancários e pode ser vítima de roubo ou clonagem do cartão.

    O cuidado com links suspeitos deve ser máximo, especialmente aqueles recebidos pelo WhatsApp. Para Kallás, “se há um mínimo de suspeição, em vez de clicar no link, é melhor abrir um navegador e ir direto para a página da loja”.

    Há também outras formas de minimizar os riscos de fazer compras online, segundo Kallás. Uma delas é a ferramenta do cartão virtual – um serviço oferecido por algumas instituições financeiras especificamente para compras online. Nessa modalidade, o banco gera numerações temporárias de cartão de crédito e código de segurança, que são atreladas à conta do cliente. Esse número dura um intervalo pré-determinado de tempo – a janela varia de algumas horas a alguns dias – e só pode ser usado uma vez. “É um número que se você comprar e alguém roubar sua senha, você vai ter uma proteção”, explica Kallás.

    A compra por boleto também é uma alternativa para quem não se sente à vontade informando os dados do cartão em compras online.

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