Como explicar para crianças a pandemia que não termina

Um psicólogo e uma educadora dão recomendações de como voltar a conversar com os filhos sobre o prolongamento da crise sanitária e a eventual necessidade de retomar restrições mais rígidas

A perspectiva de uma segunda onda da covid-19 se intensificou no Brasil em novembro. Dados de aumento de internações hospitalares e casos da doença em várias cidades e estados acenderam o alerta em profissionais de saúde e autoridades.

O cenário se desenha após um período em que a covid-19 pareceu arrefecer no país, e atividades foram retomadas, mas muitas famílias mantiveram algum tipo de distanciamento social. Se adultos estão impacientes e tensos diante da possibilidade de voltar a quarentenas mais restritivas, entre crianças a frustração por uma crise que se alonga pode aparecer com mais força.

Medidas de prevenção como uso de máscaras e atividades online devem continuar a fazer parte do cotidiano por um bom tempo. Na cidade de São Paulo, o prefeito Bruno Covas anunciou na quinta-feira (19) a interrupção do processo de reabertura das escolas municipais, cuja próxima etapa estava prevista para dezembro. Na rede particular, em que várias escolas retomaram as aulas parcialmente, pais e professores debatem como proceder diante de um recrudescimento da covid-19.

Apesar de mais resistentes à doença em si, as crianças formam um grupo bastante vulnerável aos efeitos do isolamento e distanciamento social impostos pela crise sanitária. Um estudo feito na China em maio de 2020, que teve participação de 320 crianças e adolescentes, apontou que a dependência exagerada dos pais e falta de atenção são os principais problemas reportados por participantes em meio à pandemia.

O Nexo conversou com dois especialistas sobre abordagens e estratégias para conversar com crianças sobre o assunto:

  • Lino de Macedo, psicólogo e integrante do Comitê Científico do NCPI (Núcleo Ciência Pela Infância)
  • Camila Fattori, coordenadora pedagógica da Comunidade Educativa Cedac

Lidando com a frustração

Para Fattori, o primeiro passo é poder conversar sobre a situação e deixar claro que isso não está acontecendo apenas com a criança, mas que é uma questão de saúde do mundo inteiro. É importante ressaltar que as medidas estão sendo tomadas para combater esse problema e “dar chão e confiança de que vai passar” para as crianças. Nesse contexto, Macedo sugere explicar, de modo compreensível, os processos relacionados à pandemia, como o isolamento social e o uso de máscaras. O psicólogo também propõe que pais planejem “formas de acolhimento e acompanhamento” para uma eventual retomada da escola online em 2021. Sempre reforçando que o vínculo com a escola “foi alterado drasticamente, mas, aos poucos, será recuperado”.

A importância da escuta

É importante “acolher o que vem da criança, pois podem ter reações muito diferentes. Pode ter crianças tristes, com raiva e crianças que não achem tão ruim assim”, afirmou Fattori. Segundo a educadora, o próprio movimento de defesa da criança pode ser se afastar do que está relacionado à pandemia e dar atenção a outras coisas. Os pais precisam entender que essa criança talvez não esteja querendo ver esse assunto toda hora, o que pode ser mais difícil se em casa a TV fica ligada o tempo inteiro. “Se até a gente ficar deprimido com noticiário o dia inteiro, imagina a criança”, disse.

Sem escola, aulas online

Muitas crianças tiveram dificuldades para participar das aulas online. Mesmo entre as que se adaptaram mais facilmente, a experiência pode ser tumultuada. De acordo com Macedo, este formato deve se tornar mais comum, então pais e crianças devem, pouco a pouco, preparar-se para interagir por esse meio, tanto quanto com o presencial. Já Fattori sublinha a necessidade de explicar para as crianças que “todos sabem que não é o melhor jeito, mas é o único que temos no momento, pois protege a todos”.

Menos preocupação com conteúdo aprendido

Segundo a coordenadora do CE Cedac, os pais precisam “calibrar as expectativas” com relação a estudo e aprendizado e concentrar no fato de que todos estão tentando fazer o seu melhor. “A filha de uma amiga comentou, ‘a escola tá louca, o mundo na pandemia e eles querendo que eu aprenda divisão’”, disse Fattori. Para a especialista, é importante lembrar que se algo não foi aprendido agora, haverá tempo para que isso seja assimilado mais tarde. Macedo vai na mesma linha: “A hora não é de recuperar o conteúdo cognitivo perdido, mas sim de recuperar o sentimento, a afetividade, a confiança, a amizade, o fato de que família e escola estão a serviço do melhor para todas as crianças”, disse.

‘Vamos sair dessa’

Para os especialistas ouvidos pelo Nexo, é essencial manter um olhar positivo. Na visão de Macedo, os pais devem explicar que as dificuldades são passageiras e que soluções virão, lembrando que os cientistas estão pesquisando vacinas e remédios. De acordo com Fattori, vale tentar um exercício de perspectiva com a criança para mostrar como as coisas mudam na nossa vida. A pesquisadora lembra que estudos mostram que uma das características das pessoas resilientes é “conseguir olhar para além do problema”. Fazer a criança pensar que ela vai se proteger agora para poder brincar e ver os amigos depois pode fortalecer a resiliência nela. “Apesar de ser dolorido, a gente precisa lembrar que também se cresce e se aprende coisas na frustração”, pontuou.

Os bons momentos

“Não esquecer que brincar, desenhar, ouvir histórias, fantasiar, sonhar, compartilhar medos e preocupações, acolher, estar presente, sustentar vínculos são recursos vitais para a sobrevivência emocional, psicológica, social e cultural das crianças”, ressaltou Macedo. Na opinião de Fattori, é uma boa prática valorizar os momentos bons do cotidiano, ressaltando as qualidades de se estar, por exemplo, lendo uma história ou cozinhando, além de perguntar para a criança o que ela sente nessas atividades. “Isso ajuda as crianças e adolescentes a reconhecer que mesmo numa situação delicada existem momentos bons”, afirmou a educadora.

Atenção aos sinais

De acordo com os especialistas, existem sinais de comportamento nas crianças que podem alertar os pais para impactos psicológicos negativos trazidos pela experiência da pandemia. Para Macedo, crianças podem ficar com medo de que algo ruim e perigoso possa acontecer com ela ou com os pais. Os mais velhos devem estar atentos ao que chama de “retrocessos”, como, por exemplo, voltar a urinar na cama, pedir para dormir no quarto dos pais, ter dificuldades para comer, ficar com medo ou insegurança. Já Fattori explica que existem sinais graves e outros mais suaves. Entre os mais sérios, ela menciona impaciência, explosões de raiva com maior facilidade e alteração de sono e alimentar. Quanto aos mais leves, ela descreve casos em que a criança cita elementos da pandemia durante uma brincadeira ou uma conversa, o que pode expressar uma preocupação subjacente. “Os pais têm que separar o que é uma reação do dia a dia do que é algo mais grave, procurando ajuda psicológica nesse caso”, recomendou Fattori.

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