Retrato da violência racial: o assassinato em um supermercado

Na véspera do Dia da Consciência Negra, João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, foi espancando até a morte por dois homens brancos. Ao ‘Nexo’, o cientista social Paulo Ramos analisa o caso

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João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, morreu após ser espancado por dois homens brancos no estacionamento de uma unidade do Carrefour em Porto Alegre na quinta-feira (19).

Os dois suspeitos foram presos em flagrante. As primeiras informações são de que um deles é segurança do supermercado e o outro é um policial militar que estava fazendo compras no local.

De acordo com o site GaúchaZH, as agressões começaram após um desentendimento entre Freitas e uma funcionária do supermercado, que ocorreu quando ele passava pelo caixa. A funcionária chamou os seguranças, que o conduziram para fora do local. A esposa de Freitas continuou fazendo compras.

Ao jornal O Estado de S. Paulo, o delegado Leandro Bodoia, plantonista da Delegacia de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), afirmou que as câmeras de segurança do supermercado revelam que a vítima desferiu um soco contra os dois homens. Na sequência, começou o espancamento.

Imagens gravadas da violência no supermercado do bairro Passo dAreia circularam nas redes sociais durante a noite. Elas mostram um dos homens tentando segurar Freitas e outro o agredindo. Próxima ao espancamento está uma mulher branca filmando a cena. A Polícia Civil do Rio Grande do Sul investiga o caso como um homicídio qualificado.

Em nota, o Carrefour anunciou que fechou a loja por um período não informado e disse que “adotará as medidas cabíveis para responsabilizar os envolvidos neste ato criminoso”. Também comunicou que irá desligar o funcionário que estava no comando da loja e romperá contrato com a empresa responsável pelos seguranças.

A morte de João Alberto Silveira Freitas ocorreu na véspera do Dia da Consciência Negra, considerado feriado em seis estados e algumas cidades de São Paulo. A data lembra o assassinato de Zumbi dos Palmares em 1695.

Ainda estamos extremamente consternados pelo que aconteceu na noite de ontem. Foram convocadas algumas manifestações aqui em Porto Alegre e a nível nacional, de maneira espontânea, disse Matheus Gomes, liderança do movimento negro local e eleito vereador da cidade. Gomes também afirmou que terá uma reunião de emergência com o Ministério Público do estado ainda nesta sexta-feira (20).

Nossa primeira ação é de se solidarizar à família. Nos colocamos à disposição de lutar pela justiça e principalmente responsabilização do Carrefour e da empresa de segurança, contou.

As reações nas redes

As reações nas redes sociais foram de revolta e indignação por conta do espancamento de Freitas. A historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto afirmou no Twitter que o espancamento deve ser chamado de linchamento. Ainda segundo ela, “quando nenhum impulso de preservação da vida impede que dois homens brancos linchem um homem negro, estamos diante de uma manifestação cruel de racismo”.

Também pelo Twitter, a pesquisadora Winnie Bueno rebateu os usuários da rede que questionaram as ações da vítima antes da agressão. “Quando você pergunta o que uma pessoa negra que foi assassinada fez, você dá a entender que é possível justificar um massacre contra um ser humano”, afirmou ela.

Já o presidente global da CUFA (Central Única de Favelas), Preto Zezé, usou o caso ocorrido no Carrefour para questionar a ideia de racismo velado: “homens e mulheres pretas vivem risco constante de vida nesse país. E tem quem diga que o racismo à brasileira é velado. Pensando aqui se ele fosse explícito, como seria?”.

Vereadores negros eleitos para a Câmara Municipal de Porto Alegre – que formarão a primeira bancada negra da cidade – organizaram um protesto e um pronunciamento em frente ao Carrefour.

O espancamento de Freitas ocorreu durante o segundo turno da campanha eleitoral para a prefeitura de Porto Alegre. Os dois candidatos se manifestaram sobre o assunto.

Sebastião Melo (MDB) afirmou que a morte foi absurda e que as imagens são chocantes. Ele também lembrou da proximidade do crime com o Dia da Consciência Negra.

Já Manuela dÁvila (PCdoB) disse que “as imagens dizem muito” e informou que haverá um protesto em frente ao Carrefour às 18h da sexta-feira (20).

Usuários das redes também lembraram outros episódios recentes envolvendo o Carrefour. Em agosto de 2020, um representante de vendas morreu durante a jornada de trabalho em uma unidade do supermercado no Recife. O corpo foi deixado no chão, e rodeado por guarda-sóis e engradados de cerveja que o cobriam. O estabelecimento seguiu funcionando normalmente, o que gerou indignação nas redes sociais. Além disso, no final de 2019, o segurança de um Carrefour em Osasco matou um cachorro usando uma barra de ferro. O supermercado foi condenado a uma multa de R$ 1 milhão por maus tratos aos animais.

Uma análise sobre a violência contra negros no Brasil

O Nexo conversou sobre o caso com Paulo Ramos, doutorando em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo), pesquisador do Afro/CEBRAP (Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial) e fellow do Programa de Estudos de Populações Marginalizadas do Center of Africana Studies da Universidade da Pensilvânia.

O que explica recorrência de episódios de brutalidade contra pessoas negras em situações cotidianas?

Paulo Ramos É um dado histórico do Brasil, não é recente. Recentemente, o que temos de novidade não é a ocorrência dessa violência, é a reportagem dela por meio de redes sociais, por meio da multiplicação de registros e, sobretudo, por meio da maior quantidade de pessoas negras capacitadas para poder reverberar esse tipo de assunto.

Historicamente, isso [episódios de violência contra negros] acontece. Quando um caso emblemático ganha notoriedade, como ocorreu neste ano, outros acabam também ganhando certa relevância. Mas o fato em si não é novo.

Existem fatores estruturais que apresentam isso. Este caso específico, dentro de um supermercado, deve ser ao mesmo tempo diferenciado e associado a outras violências cometidas por policiais – sobretudo por policiais militares. Eles são diferentes mas são ao mesmo tempo uma extensão do que é feito pela polícia nas ruas, nas periferias. O que há de diferente é que foi feito em um ambiente privado por uma força privada, uma empresa de segurança. Contudo, a inteligência que ocupa essa empresa privada é uma inteligência articulada e testada dentro da Polícia Militar. Um dos assassinos é policial, com certeza ele aprendeu isso na corporação à qual ele pertence.

Existem fatores que são estruturantes que coordenam isso. O sujeito negro é sempre visto como criminoso. A cena em que os seguranças batem em João Alberto Freitas é tão recorrente, que tem um caráter ritualístico. É o ritual de tortura, suplício e morte. Eu considero que esse tipo de ritual é praticado sistematicamente.

Hoje é Dia da Consciência da Negra. O crime de ontem impacta a reflexão que deve ser feita nesta data?

Paulo Ramos Ele impacta porque ao mesmo tempo que desorganiza a agenda do protesto, estimula uma reação mais rigorosa por parte do movimento negro.

A lição que temos que tirar disso é que durante o ano de 2020, muitos progressos no campo da desigualdade racial foram feitos. Contudo, é possível localizar que existem certas esferas sociais que estão imunes a esses avanços. Não consideram ser antirracistas e não consideram conviver naquela ideia de que é possível excluir sem ser violento – o Brasil fez isso muito e por muitos anos, praticava racismo, mas não um racismo que era comparado com o que ocorria nos EUA ou na África do Sul.

Agora, estamos vendo que o racismo brasileiro é igual ao desses países. Porque os rituais de tortura, suplício e morte que são praticados pela Ku Klux Klan e pelos bôeres da África do Sul também são praticados por aqui. A questão é que essas práticas não conseguem mais ser dissolvidas, porque os registros constroem a materialidade dessa memória.

A lição que temos que tirar é saber que, por mais que muitas vezes empresas de comunicação tenham dado passos adiante na construção de uma maior igualdade racial, existem esferas que continuam praticando a violência assassina contra pessoas negras. Essas esferas continuam imunes a esses avanços.

Estou falando dos aparelhos de repressão: polícia e sistema judiciário. Elas ainda trabalham numa perspectiva de que todo negro é suspeito, todo suspeito é culpado e todo culpado deve morrer. É uma lógica que tem raízes não na ditadura militar, e não tem a ver exatamente com a escravidão – mas tem a ver com uma razão que é colonial, que sempre vai procurar um inimigo interno.

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