O museu digital com o acervo de obra e vida de Itamar Assumpção

Artista morto em 2003 terá um espaço virtual permanente com exposições, loja de produtos em sua homenagem, materiais de pesquisa e depoimentos de personalidades negras

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    No Dia da Consciência Negra (20), entrou no ar o Museu Itamar Assumpção, o primeiro museu virtual dedicado a um artista brasileiro negro. No site, são apresentados 2.100 itens dispostos em exposições permanentes e temporárias, além de uma loja com produtos relacionados ao artista e depoimentos de personalidades negras como Mano Brown, Gilberto Gil e Djamila Ribeiro.

    Trata-se de uma vitrine da obra e vida do cantor, compositor e instrumentista morto em 2003. Ao entrar, o site oferece uma navegação em espiral, com fotografias e ferramentas de interação espalhadas inusitadamente. A tentativa, segundo os curadores, foi de reproduzir uma “cosmovisão afrofuturista”.

    Ao jornal Folha de S.Paulo, Anelis Assumpção, uma das curadoras e filha de Itamar, diz que o afrofuturismo — que converge a negritude num contexto de tecnologia e projeções sobre o futuro — não era muito conhecido nos anos 1970 e 1980, quando Itamar foi mais ativo criativamente. No entanto, ela defende que a estética e comportamentos do pai naquela época já se alinhavam com a filosofia do movimento.

    “Quando olho para a sua obra [de Itamar], consigo ver tudo muito mais dentro do afrofuturismo do que do vanguardismo europeu [ao qual ele foi associado em vida]. Não quero desconsiderar a importância desse movimento, mas precisamos ir além dessa perspectiva branca europeia”

    Anelis Assumpção

    em entrevista à Folha de S.Paulo

    Há também um mecanismo de busca no qual o visitante pode procurar por ano ou pelas pessoas que trabalharam e viveram com ele. Entre elas, está Serena Assumpção, também filha de Itamar, morta em 2016. A seção em sua homenagem é também um espaço para pesquisa de religiões afro-brasileiras e ameríndias.

    O site, inclusive, terá tradução para o iorubá, idioma falado por um dos maiores grupos étnico-linguísticos da África Ocidental e trazido ao Brasil junto a negros escravizados. Em 2018, a língua foi considerada patrimônio imaterial do estado do Rio de Janeiro.

    O museu é mais uma iniciativa que amplia o acesso à obra de Itamar Assumpção em 2020. Em setembro, toda a discografia do artista foi disponibilizada nas plataformas de streaming, com algumas faixas inéditas. No site, o usuário também poderá acessar os álbuns com letra, partitura e cifra.

    A contribuição de Itamar Assumpção

    Nascido em 1949 em Tietê, no interior de São Paulo, Itamar de Assumpção era bisneto de negros escravizados angolanos. Aprendeu a tocar violão sozinho e, a partir de Jimi Hendrix, se apaixonou pelas linhas de baixo.

    Chegou a estudar contabilidade, mas abandonou o curso para fazer teatro e shows no Paraná, onde conheceu o músico e compositor Arrigo Barnabé. Com ele, voltou a São Paulo para participar, no final dos anos 1970, da chamada “vanguarda paulista”, organizando um circuito alternativo de música pop com influências de tropicália, poesia concreta e música erudita.

    Seu primeiro sucesso foi “Nêgo dito”, em 1979, quando apresentou ao mundo Benedito João dos Santos Silva Beleléu. A faixa faria parte do primeiro disco com a banda Isca de Polícia, intitulado “Beleléu Leléu eu” (1980) e lançado de forma independente por um selo da casa de shows que costumava se apresentar. Com esse formato, revolucionou a forma como um álbum podia ser lançado e, por isso, também colecionou inimizades, que o intitulavam de “maldito”.

    “Os parceiros e as pessoas que o acompanharam não conseguem fazer uma leitura do lugar onde o Itamar foi colocado, como marginal e maldito, e como isso tudo tem uma relação com a negritude. (...) A ideia de estar preso a uma gravadora, uma editora, talvez remetesse a um conceito de escravidão que era muito próximo dele”

    Anelis Assumpção

    em entrevista ao jornal O Globo, sobre o lançamento do museu digital

    Só em 1988, no quarto álbum, assinou com uma gravadora grande, a Continental. Não deixou de ser irônico, no entanto, já do título do disco: “Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava!!!”. A empreitada não teve o mesmo sucesso de público dos títulos anteriores e essa acabou sendo a única vez que Assumpção se submeteu aos ditames comerciais. Seus próximos cinco álbuns enquanto vivo seguiram o modelo independente.

    Em suas músicas, agregou sons de MPB, samba, reggae, jazz, funk e rock. Apesar dessa abrangência e domínio instrumental custou para ser reconhecido como um intelectual, muito por conta de um preconceito do cenário musical. Teve mais três álbuns póstumos lançados, e artistas como Ney Matogrosso, Cássia Eller e Zélia Duncan já interpretaram algumas de suas faixas.

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