O 2º turno pela prefeitura em Porto Alegre sob análise

Candidatos obtiveram votação parecida na primeira etapa. Cidade agora vive impacto de assassinato de um homem negro por seguranças brancos de um supermercado

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A disputa para definir quem será o próximo prefeito de Porto Alegre deverá ser uma das mais acirradas no país. O embate ocorre entre Sebastião Melo (MDB), que recebeu 31,02% dos votos válidos no primeiro turno e Manuela D'Ávila (PCdoB), escolhida por 28,9% do eleitorado porto-alegrense.

Os dois candidatos têm experiência política. Manuela foi vereadora na capital gaúcha, deputada estadual e federal pelo Rio Grande do Sul, além de candidata à vice-presidência na chapa derrotada de Fernando Haddad (PT) em 2018.

Melo foi vereador na cidade entre 2000 e 2012 e vice-prefeito no mandato de José Fortunati, na época filiado ao PDT, entre 2013 e 2016. Foi candidato à prefeitura nas eleições anteriores, mas acabou derrotado no segundo turno pelo atual prefeito Nelson Marchezan Jr (PSDB).

Marchezan tentou a reeleição, mas acabou na terceira colocação. Ele foi prejudicado pelo processo de impeachment que o acusa de usar recursos da saúde em ações publicitárias durante a pandemia do novo coronavírus. Ele diz que usou a verba para “esclarecer a população”.

Um crime com comoção social em meio à campanha

As campanhas de Melo e Manuela foram impactadas pelo assassinato de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos que morreu na quinta-feira (19) após ser espancado por dois seguranças brancos no estacionamento de uma unidade do Carrefour de Porto Alegre.

Entre os candidatos, Melo cancelou a agenda de atividades previstas para sexta (20) e pediu justiça em uma rede social. Manuela participou de uma manifestação com vereadores negros da Câmara Municipal na praça do Tambor, região central da capital gaúcha.

Os dois candidatos buscam conquistar os votos em meio à abstenção recorde na cidade no primeiro turno. Um terço do eleitorado (33,08%, ou 358.217 mil pessoas) não compareceu às urnas.

Manuela tenta associar o adversário ao presidente Jair Bolsonaro. Já Mello cola a imagem da oponente à de Dilma Rouseff, presidente que sofreu impeachment em 2016.

O desempenho de MDB e PCdoB nas urnas

O MDB manteve sua capilaridade nacional em 2020, apesar de ter registrado menos vitórias nas prefeituras. O partido elegeu 777 prefeitos no 1ª turno e ainda tem 12 disputas na segunda etapa, incluindo seis capitais além de Porto Alegre: Teresina (PI), Maceió (AL), Goiânia (GO), Boa Vista (RR), João Pessoa (PB) e Cuiabá (MT).

Entre os vereadores, a sigla manteve um desempenho parecido ao registrado quatro anos antes. Foram 7.335 cadeiras conquistadas, contra 7.560 nas eleições de 2016.

Já o PCdoB apresentou queda tanto no Executivo quanto no Legislativo. Em 2016, a sigla elegeu 80 prefeitos, ante 46 agora. Nas Câmaras Municipais, o partido, que havia conquistado 1.121 cadeiras na eleição de 2016, elegeu 638 vereadores em 2020.

A disputa em Porto Alegre sob análise

O Nexo conversou com dois cientistas políticos para analisar a situação dos dois candidatos nas eleições de 2020. São eles:

  • Paulo Peres, professor do programa de pós-graduação em ciência política da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
  • Augusto de Oliveira, professor de ciência política da PUC-RS ( Pontifícia Universidade Católica)

O que o desempenho dos dois candidatos no primeiro diz sobre eles? O que diz sobre seus partidos?

Paulo Peres A competição pela prefeitura de Porto Alegre, desde a redemocratização, estruturou-se de maneira bipolar, com um partido da esquerda e outro da centro-direita. Inicialmente, a esquerda foi representada pelo PDT; depois, em 1988, o PT assumiu a liderança desse nicho ideológico e conseguiu vencer várias eleições seguidas, mantendo-se no poder até 2004. Depois disso, o PT não conseguiu mais conquistar a prefeitura, mas se manteve como a principal força da esquerda que, a partir de 2008, fragmentou-se, com o lançamento das candidaturas da Manuela, pelo PCdoB, e da Luciana Genro, do PSOL.

Isso levou à divisão dos votos desse campo ideológico e à perda de espaço pelo PT, que não obteve nem 10% dos votos, em 2012. Em 2016, embora o PT tivesse voltado a crescer um pouco, o segundo turno foi disputado por dois partidos de centro-direita: PSDB e MDB. Agora, finalmente, PT, sem nomes viáveis, aliou-se ao PCdoB, que não tem muita estrutura partidária, mas dispõe de um nome de maior expressão que foi candidata à vice-presidência em 2018. Isso contribui para o bom desempenho de Manuela D’Ávila no primeiro turno.

De outro lado, o MDB quase sempre foi a força partidária mais competitiva contra a esquerda, tendo vencido, inclusive, a eleição de 2008, além de ter sido o segundo mais votado em 2016, quando chegou ao segundo turno, atrás do PSDB. Esta eleição de 2020, portanto, confirma essa estrutura de competição bipolar que opõe a centro-esquerda à centro-direita, tendo como polo gravitacional o PT, de um lado, e o MDB, de outro.

Melo é uma liderança política experiente, com uma longa trajetória, assim como Manuela. Melo pende mais para a direita, com um discurso mercadista, que preconiza a redução do Estado e o controle fiscal. Aproximou-se de apoiadores vinculados ao bolsonarismo e vem investindo numa polarização mais radical com Manuela.

Por sua vez, Manuela vem explicitando sua pauta mais voltada ao investimento em políticas sociais e às demandas identitárias. Em termos nacionais, o MDB continua um partido bem estruturado. A aliança do PCdoB com o PT, em Porto Alegre, mostrou-se uma estratégia bem-sucedida. O PT manteve o tamanho de sua bancada na Câmara Municipal (quatro vereadores) e o PCdoB, que não contava com nenhum representante, conquistou duas cadeiras.

Augusto de Oliveira O primeiro turno da eleição repetiu uma estrutura comum da política gaúcha recente, com polarização entre candidaturas ideologicamente diferenciadas. Manuela d’Ávila conseguiu mobilizar uma parte importante do eleitorado desde o início do período, enquanto Sebastião Melo superou o atual prefeito Nelson Marchezan no campo oposto.

Manuela ganhou projeção nacional como candidata à vice-presidente na chapa de Fernando Haddad (PT), mas em Porto Alegre ela é lembrada por se contrapor ao PT ao longo de sua trajetória política. Isso permitiu à candidata ampliar seu apoio para além do desempenho petista nas últimas eleições municipais.

Por outro lado, Melo está bastante ligado à figura do presidente Bolsonaro, contando com o apoio de políticos próximos ao governo como os deputados Bibo Nunes (PSL) e Osmar Terra (MDB). O PCdoB de Manuela é muito menor do que o MDB de Melo, mas esta diferença também não deve ser determinante no resultado da eleição.

O assassinato de um homem negro em um supermercado da cidade impacta a disputa? Haverá mais atenção de outras partes do país sobre a eleição de Porto Alegre?

Paulo Peres Esse episódio, embora seja mais um dentre vários desse tipo no país, provocou um impacto bastante grande na opinião pública. Não apenas por estarmos num período de campanha eleitoral, mas também porque, ainda na terça-feira (17), circulou pelas redes sociais e repercutiu na imprensa uma gravação de teor racista de um dos candidatos a prefeito [Valter Nagelstein (PSD)], que lamentava precisamente a eleição de pessoas negras.

Para ele, essas mulheres e homens negros, ligados a movimentos sociais de defesa de seus direitos, e cujas votações foram muito elevadas, não tinham “tradição”, faziam parte do aparelhamento esquerdista das universidades. E isso é ainda mais impactante porque a eleição histórica de mulheres, e de candidatos/as negros/s evidencia o lento avanço, embora expressivo, dos direitos num contexto marcadamente conservador, racista e machista. Isso certamente será discutido nas campanhas, inclusive do MDB, que não pode ficar alheio à gravidade da situação.

Sem dúvida, o assassinato pode chamar ainda mais a atenção nacional para a eleição de Porto Alegre. No primeiro turno, tivemos a maior taxa de abstenção, mas também tivemos a maior proporção de mulheres eleitas para a Câmara Municipal. Agora, temos esses episódios indicativos de racismo, numa disputa eleitoral bastante acirrada.

Augusto de Oliveira O brutal assassinato de João Alberto Silveira Freitas demonstra que a herança escravocrata gaúcha se manifesta em uma sociedade estruturalmente racista. Precisamos que o poder público atue de forma contundente contra o racismo e contra a violência policial.

A Câmara de Vereadores de Porto Alegre contará, em 2021, pela primeira vez, com quatro mulheres negras. Serão cinco vereadores negros e todos eles de partidos que apoiam a candidatura de Manuela. Neste sentido, penso que a candidata do PCdoB possui uma grande responsabilidade em pautar o assunto do racismo.

De qualquer forma, esperamos que os dois candidatos apresentem alternativas para que este tipo de crime não se repita em Porto Alegre e o combate ao racismo seja amplamente considerado nas políticas públicas municipais.

Certamente o eleitorado em geral vai cobrar um posicionamento explícito sobre o racismo e esse tema vai ter um peso ainda maior na campanha. A eleição de vereadoras negras já é resultado de um aumento da preocupação política do eleitor com as questões de gênero e raça, impulsionados pela grande atuação dos movimentos negro e feminista.

O contexto torna-se relevante para despertar a opinião pública, com dramáticas evidências de uma situação mais ampla. Mas a questão só é politizada efetivamente em termos eleitorais quando os movimentos sociais, que já possuem inserção política, apresentam suas respostas, energizam e guiam os eleitores em geral para construção de respostas políticas.

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