As estratégias de Paes e Crivella numa disputa nada acirrada

Dois cientistas políticos falam ao ‘Nexo’ sobre o segundo turno em que o ex-prefeito candidato pelo DEM desponta na frente do atual mandatário, que tenta a reeleição pelo Republicanos

O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. Este conteúdo é exclusivo para nossos assinantes e está com acesso livre como uma cortesia para você experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Apoie nosso jornalismo. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos) disputam em 29 de novembro o segundo turno das eleições municipais do Rio de Janeiro. O primeiro comandou a cidade entre 2009 e 2016, quando era filiado ao MDB. O segundo, eleito na onda de novatos que ganhou as urnas em 2016, tenta permanecer no poder apesar de um alto índice de rejeição.

Paes liderou as pesquisas durante a campanha para o primeiro turno. Crivella, apesar de nunca ter perdido a segunda colocação, teve o posto ameaçado por Martha Rocha (PDT) e Benedita da Silva (PT). Nas urnas, o ex-prefeito foi escolhido por 37% do eleitorado carioca, enquanto o atual mandatário recebeu 21% dos votos.

Para o segundo turno, a situação é semelhante. Os levantamentos realizados até quinta-feira (19) apontam para uma vitória tranquila de Paes. Nesse cenário, cada um dos candidatos calibra a estratégia para a reta final da campanha até o dia da votação.

Como age Crivella no 2º turno

O atual prefeito optou por um estilo mais agressivo. O bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus disse na segunda-feira (16) que a gestão de Paes foi “a mais corrupta da história”. Na quinta-feira (19), atacou a candidatura do adversário tentando associar o PSOL, que apoia Paes no segundo turno, à pedofilia nas escolas. Tanto o partido de esquerda quanto Paes ameaçaram processar o prefeito.

Crivella também quer intensificar a presença do presidente Jair Bolsonaro em sua campanha. Coordenadores de sua candidatura acreditam que a estratégia, com um vídeo gravado logo antes do primeiro turno, foi decisivo para evitar o precoce revés.

O candidato do Republicanos foi a Brasília na quinta-feira (19) tentar convencer o presidente a participar de seus atos de campanha. Segundo o jornal O Globo, Bolsonaro recusou o pedido, para evitar desgastes desnecessários à sua imagem, em um momento de derrota iminente do atual prefeito.

O presidente, que fez transmissões ao vivo para apoiar candidatos em diversas disputas pelo país no primeiro turno, deve ter um posicionamento mais neutro nesta etapa da corrida eleitoral. De forma geral, os nomes que receberam a aprovação de Bolsonaro não tiveram bons resultados no domingo (15).

Ainda segundo O Globo, Bolsonaro gravou vídeos com Crivella para o horário eleitoral do bispo licenciado, mas se recusou a fazer críticas públicas contra Paes, como queria o prefeito.

A opção por apostar todas as fichas na imagem do presidente acontece em um momento em que Crivella não consegue angariar apoios entre os candidatos derrotados. A maioria deles adotou a neutralidade, como o PDT, MDB e o PSL. Na esquerda, PT e PSOL definiram “apoio crítico” a Paes.

Além da ausência de apoios, pesa contra o atual prefeito a alta rejeição registrada às vésperas das eleições. Pesquisas feitas no início de novembro de 2020 mostraram que Crivella é recusado por mais de 60% do eleitorado carioca. Entre o eleitorado evangélico, o sobrinho de Edir Macedo, dono da TV Record e líder da Igreja Universal do Reino de Deus, é rejeitado por cerca de 40%.

Como age Paes no 2º turno

Apostando no favoritismo apontado pelas urnas no primeiro turno e pelas pesquisas de intenção de voto, o ex-prefeito tem procurado comparar as gestões e mostrar o que ele fez quando comandou o município. Foram mandatos com alto volume de investimentos públicos, turbinados pelos governos petistas de Lula e Dilma Rousseff, em decorrência dos grandes eventos realizados na capital fluminense, como Copa do Mundo (2014) e Jogos Olímpicos (2016).

A associação com gestões passadas, no entanto, é feita com moderação pelo candidato. Ele não quer ser vinculado à figura de Sérgio Cabral, ex-governador do Rio enquanto Paes esteve na prefeitura e também filiado ao MDB à época. Cabral está preso desde novembro de 2016 por múltiplas condenações em casos de corrupção.

Como forma de se proteger de eventuais polêmicas e questionamentos, Paes não tem ido a debates. Ele participou do evento promovido pela TV Bandeirantes, na quinta-feira (19) e confirmou presença no encontro organizado pela TV Globo, marcado para 27 de novembro.

Paes deixou o MDB em abril de 2018. No mesmo ano, já filiado ao DEM, concorreu ao governo do estado. No segundo turno, não foi apoiado por PT e PSOL, que hoje endossam sua candidatura à prefeitura.

Ele acabou derrotado por Wilson Witzel (PSC), parte da onda bolsonarista que ajudou a eleger desconhecidos pelo Brasil. Witzel está afastado por supostos contratos fraudulentos na gestão da saúde estadual e é alvo de processo de impeachment na Assembleia Legislativa do Rio.

Apoiado por PT e PSOL, Paes tem feito acenos para todo tipo de eleitorado. “Quero ser candidato de todos os cariocas. Dos eleitores do Bolsonaro, do Lula, do Ciro Gomes [PDT], da Marina [Silva, da Rede]. De todo mundo”, disse em entrevista ao jornal O Globo publicada na quinta-feira (19).

O desempenho dos partidos nas urnas

Tanto o DEM quanto o Republicanos são siglas que avançaram no pleito municipal de 2020. Nas capitais, os democratas venceram em Salvador (BA), Curitiba (PR) e Florianópolis (SC), e estão na disputa no Rio de Janeiro. No total, a sigla elegeu 462 prefeitos, contra 268 eleitos em 2016. O DEM elegeu ainda 4.341 vereadores no país, 49% a mais do que em 2016 (2.905).

O Republicanos não elegeu nenhum prefeito em capitais no primeiro turno, mas está na disputa em São Luís (MA) e em Vitória (ES), além do Rio. No total, a sigla elegeu 211 prefeitos no primeiro turno, mais que o dobro do registrado há quatro anos (104). Entre os vereadores, o partido conquistou 2.601 vagas, mil cadeiras a mais do que em 2016.

A situação de Crivella e Paes sob análise

O Nexo conversou com dois cientistas políticos para analisar a estratégia dos dois candidatos e seus partidos nas eleições de 2020. São eles:

  • Pedro Luiz da Silva do Rego Lima, professor de ciência política da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
  • Ricardo Ismael, professor de ciência política da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica)

O que o desempenho nas urnas dos dois candidatos no primeiro turno diz sobre eles? E o desempenho de DEM e Republicanos de maneira geral pelo Brasil?

Pedro Luiz da Silva do Rego Lima A disputa no Rio envolve um ex-prefeito e o atual prefeito. É normal que, nesses casos, o embate eleitoral gire em torno da avaliação (e da memória) dos governos. O bom desempenho de Paes, que chega ao 2º turno como franco favorito, se deve a essa memória. Como sabemos, a memória costuma ser seletiva – e Paes certamente ganha com o fato de estarmos vivendo um mandato tenebroso do atual prefeito.

Vale lembrar que Paes tem uma trajetória eleitoral vitoriosa na cidade, tendo obtido mais votos do que Witzel no pleito estadual de 2018 — foi derrotado no estado, mas superou seu oponente na capital. Nesse sentido, a provável vitória em 2020 apenas reforça seu evidente favoritismo contra um candidato amplamente rejeitado pelos cariocas.

Crivella, por sua vez, é o candidato de fração importante do neopentecostalismo. Sua carreira política deriva dessa vinculação religiosa. E sua iminente derrota mostra, talvez, os limites dessa forma de fazer política. Com a ressalva de que, em 2020, o campo neopentecostal não esteve unificado, pois a Assembleia de Deus, de Silas Malafaia, não endossou a candidatura do sobrinho de Edir Macedo.

A propaganda eleitoral de Crivella na televisão tem uma estética de culto, com aleluiassendo entoados em coro e grande ênfase na vinculação do candidato com Jair Bolsonaro. Talvez sua derrota marque um limite à política de culto. E implique, potencialmente, um refluxo do eleitorado bolsonarista na cidade. O Rio é, ou foi, um dos principais redutos bolsonaristas. Como se trata de um prefeito muito mal avaliado, e como as eleições municipais têm uma dinâmica muito peculiar, essas duas conclusões de ordem mais geral – limites da política de culto e refluxo dos bolsonaristas – podem rapidamente se desmanchar no ar.

Sobre o desempenho dos partidos no cenário nacional, o DEM avança nas capitais com um dado interessante: são três capitais (Rio, Salvador e Florianópolis) em que o candidato vitorioso pelo DEM é um egresso do MDB. E há parte da mídia, e do próprio DEM, que busca atribuir um aspecto centrista ao partido originário da base de apoio da ditadura militar.

Nesse quadro, essa possível emedebização do DEM pode ser mal lida como sintoma de moderação ou centrismo. Outra leitura, que me soa mais correta, aponta para outra direção: se o DEM passa a ocupar simbolicamente (ou almeja ocupar com alguma plausibilidade) um lugar cativo do MDB, é sinal de que todo o espectro ideológico se moveu para a direita. Não foi o DEM que deixou de estar à direita, e sim o suposto centro que chegou ainda mais para lá.

Ricardo Ismael O Republicanos a nível nacional foi um dos partidos que mais cresceu, assim como o próprio DEM e o PSD, em relação a 2016. É claro que é preciso fazer uma análise qualitativa para saber que prefeituras foram essas conquistadas pelo partido do Crivella. Nesse caso, a cidade do Rio de Janeiro é a mais importante que o Republicanos tem. No Rio, acho que o resultado foi até surpreendente, porque Crivella sofreu tentativas de impeachment no início da campanha, é mal avaliado como gestor e tem uma rejeição altíssima, e ainda assim chegou ao segundo turno.

Ele ainda tem um apoio grande entre os evangélicos, um eleitorado fiel que o mantém vivo nas disputas. E ele tenta se vincular ao Bolsonaro. O presidente já não tem a força de 2018, inclusive no Rio de Janeiro, onde ele cresceu politicamente. Mas ainda há uma base importante, e essa vinculação, a meu ver, foi decisiva na reta final do primeiro turno, quando a Martha Rocha (PDT) se aproximou.

O Eduardo Paes tem uma trajetória com passagem pelo PSDB, MDB e agora está no DEM, tentando se afastar dos problemas que minaram a estrutura do MDB no Rio. Ele foi derrotado em 2018 pelo Witzel em um momento no qual o ex-juiz conseguiu associá-lo fortemente ao Cabral e aos problemas de corrupção no Rio. O DEM deu ao Paes estrutura para que ele pudesse ser candidato novamente e, embalado por duas gestões com investimentos públicos, está conseguindo convencer o eleitor até o momento.

O DEM é um partido que aumentou significativamente o número de prefeituras, também em algumas capitais. É uma partido que se fortaleceu e terá mais espaço e margem para negociações visando as eleições de 2022, especialmente entre os partidos de centro-direita.

Qual influência os apoios dos candidatos podem ter neste segundo turno?

Pedro Luiz da Silva do Rego Lima Uma influência diminuta. No segundo turno, os elevados índices de rejeição de Crivella e as altas taxas de desaprovação de seu mandato dão a tônica de uma eleição praticamente decidida. O único elemento que julgo ser capaz de alterar esse quadro seria uma eventual interferência do Ministério Público ou do Judiciário no processo eleitoral, com a eclosão de novas denúncias e atos espetaculosos por parte dos operadores do sistema de Justiça.

Sem isso, é pequena a margem para reviravolta. Não podemos descartar, tampouco, um possível impacto de última hora que venha a ser causado pela atuação de gabinetes do ódio e afins. De todo modo, o apoio presidencial a Crivella já mostrou seus limites no 1º turno. E, do outro lado, o apoio crítico dos partidos de esquerda à candidatura de Paes não tem qualquer influência em termos programáticos. Trata-se, em grande medida, de um eleitorado que já tenderia a se dividir entre o voto em Paes e a abstenção/voto nulo.

Ricardo Ismael O Crivella vai apostar no Bolsonaro. Crivella tem um percentual de votos de 23%, o que está abaixo do percentual ótimo/bom destinado a Bolsonaro (cerca de 34%), segundo as últimas pesquisas. O atual prefeito acha que tem margem para crescer nesse eleitorado. Agora, essa é uma estratégia complicada, porque há um teto. Bolsonaro também é rejeitado no Rio. Isso dificilmente vai fazer com que ele vire o jogo e ganhe a eleição.

Uma segunda hipótese é que o Crivella quer sair da eleição como um candidato que chegou ao segundo turno e com uma derrota honrosa. Ele sairia da eleição fortalecido nesse eleitorado bolsonarista. Nessas condições, ele pode tentar uma candidatura em 2022, ao Senado, por exemplo, aproveitando a provável candidatura à reeleição do Bolsonaro.

O Paes é um sujeito que gosta de fazer alianças. Isso aconteceu em 2008 e 2012. Neste ano, ele percebeu que os apoios vão vir naturalmente, porque a maioria rejeita o Crivella. Das duas, uma: ou vão apoiá-lo ou ficarão neutros. Nas duas hipóteses ele não sai prejudicado.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.