O acordo entre Austrália e Japão que confronta a China no Pacífico Sul

Tratado inédito de cooperação militar nipo-australiana é visto como ameaças pelos chineses, que prometem retaliar

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    Os governos dos primeiros-ministros australiano, Scott Morrison, e japonês, Yoshihide Suga, firmaram um acordo de cooperação militar inédito, na terça-feira (17), em Tóquio. O texto, que prevê treinamento conjunto de tropas nos territórios de ambos países, provocou reações da China, que ameaçou retaliar economicamente os vizinhos.

    O movimento nipo-australiano é o capítulo mais recente de um complexo rearranjo de forças no Pacífico Sul, onde a China projeta seu crescente poderio econômico e militar, rivalizando com os interesses americanos e de seus aliados na região.

    Acordo comercial com China. Acordo militar sem China

    A negociação para o acordo militar entre Japão e Austrália levou seis anos para ser concluída. Com o RAA (sigla em inglês de Acordo de Acesso Recíproco), os japoneses deram aos australianos a primeira autorização para a presença de tropas estrangeiras em seu território, desde os acordos firmados com os EUA no fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e atualizados em 1960.

    O gesto é ainda mais significativo quando se leva em conta que os japoneses possuem uma Constituição que tenta limitar ao máximo as possibilidades de emprego de sua força militar.

    Esse cenário de autocontenção vem mudando à medida que os japoneses sentem seus interesses geopolíticos cada vez mais ameaçados no entorno. Um dos gestos mais agressivos é a construção de ilhas artificiais chinesas, destinadas a justificar as demandas de ampliação das águas territoriais sob o comando de Pequim no Pacífico Sul.

    Precaução com erros do passado

    A presença militar americana no Japão do pós-Guerra deixou lições que parecem ter sido bem assimiladas no acordo com a Austrália. Exemplo disso é o artigo que impõe pena de morte para militares australianos que sejam acusados de cometer “sérios crimes” em solo japonês. No passado, militares dos EUA foram acusados de cometer estupros no Japão.

    O discurso de ambos é o da promoção e da defesa do livre comércio no Pacífico Sul, da democracia e do estado de direito, numa clara mensagem de antagonismo com o governo chinês.

    O texto deve servir de base para a assinatura de outros acordos similares no futuro, à medida que o Japão busca ampliar seu arco de alianças diante de um entorno percebido como crescentemente hostil – além da desconfiança em relação ao poderio chinês, o país enfrenta ainda os testes nucleares da Coreia do Norte e as disputas territoriais com a Rússia pelas ilhas Hoppo, no norte do arquipélago.

    Na contramão da integração econômica

    A assinatura do acordo militar entre Austrália e Japão, em Tóquio, aconteceu apenas dois dias depois de ambos os países terem firmado, junto com outras 13 nações, um tratado econômico de integração dos países do Pacífico.

    O acordo foi batizado de Parceria Econômica Regional Abrangente – referido pela sigla RCEP em inglês (Regional Comprehensive Economic Partnership), e engloba uma área na qual vivem 2,2 bilhões de pessoas, onde está concentrado 30% do PIB global.

    O texto trata da redução gradual das tarifas aplicadas no comércio entre os 15 países envolvidos, ao longo de 20 anos. Além disso, o tratado propõe criar padrões de regras comerciais e sanitárias, para uniformizar as trocas no interior do grupo.

    Ameaças de retração

    No dia seguinte à assinatura do acordo militar nipo-australiano, o jornal chinês Global Times, que expressa as posições oficiais do governo da China, disse que ambos países “pagarão um preço correspondente” por sua aliança militar.

    A declaração vai na contramão do acordo comercial assinado dias antes, ao considerar que a aliança entre Austrália e Japão “dá novas ferramentas para os EUA dividirem a Ásia”. Na visão do periódico chinês, a aproximação militar entre os dois países tem por intenção lesar uma terceira parte, a China.

    O jornal não especifica quais medidas o governo pretende tomar em retaliação, mas a imprensa europeia vê possibilidades de restrições no comércio entre esses países. O tom do Global Times também sugere disposição para fazer frente militar à cooperação entre Austrália e Japão, o que agrega ainda mais tensão em uma região do mundo que é considerado o próximo palco de disputas geopolíticas que tendem a mudar o eixo das superpotências.

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