Quem é o novo presidente do Peru. E o que ele tem pela frente

Apresentado como político de centro e de perfil técnico, Francisco Sagasti assume governo peruano interinamente, para conduzir o país até a próxima disputa presidencial

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    Francisco Sagasti foi eleito na segunda-feira (16) presidente do Congresso do Peru, ao receber 97 dos 130 votos possíveis entre seus colegas parlamentares. O político centrista terá a missão de assumir automaticamente a Presidência da República, que ficou vaga após duas renúncias e uma deposição.

    O órgão legislativo que Sagasti presidirá é unicameral – ou seja, os 130 parlamentares concentram em si as funções que são desempenhadas em outros países, como o Brasil, pela Câmara de Deputados e pelo Senado.

    A escolha de Sagasti para presidir a Congresso coloca-o automaticamente no cargo de presidente interino do Peru também. Isso ocorre porque o país mergulhou numa sucessiva troca de presidentes desde março de 2018, e o posto estava vago.

    O presidente Pedro Paulo Kuczynski, conhecido pela sigla PPK, renunciou à Presidência em março de 2018; o vice dele, Martín Vizcarra, foi destituído no dia 9 de novembro; e o presidente do Congresso que antecedeu Sagasti, Manuel Merino, renunciou ao cargo em 15 de novembro, dias depois de ter assumido a presidência interina do país no lugar de Vizcarra.

    A sucessão vertiginosa de presidentes – foram quatro no intervalo do atual mandato, iniciado em 2016 – é apenas o capítulo mais recente da instabilidade política que marca o Peru nos últimos 20 anos. Desde 2000, com o fim do governo do autocrata Alberto Fujimori, todos que assumiram a presidência do país tiveram problemas com a Justiça após sair do cargo ou foram destituídos antes do fim do mandato.

    Caberá a Sagasti conduzir interinamente o Legislativo e o Executivo peruanos, ao mesmo tempo, até a próxima eleição presidencial, que está marcada para 11 de abril de 2021. O eleito deve assumir o cargo em 28 de julho de 2021.

    Os quase seis meses que separam a posse de Sagasti da próxima eleição presidencial devem ser atribulados. O Peru liderava o ranking mundial de mortes pela covid-19 até terça-feira (17), na comparação dos números absolutos por grupos de 100 mil habitantes. Além disso, o FMI (Fundo Monetário Internacional) projeta um encolhimento de 14% na economia do país até o fim de 2020.

    Por fim, Vizcarra – que era vice de PPK – questiona na Justiça a perda do mandato e tenta voltar ao cargo, o que poderia provocar nova reviravolta.

    Costura delicada pelo centro

    Sagasti é membro do partido de centro Frente Ampla, que possui apenas 9 dos 130 assentos do Congresso. Sua sigla é a menor entre as nove existentes na Casa, ao lado do Partido Morado, que também tem nove assentos.

    A costura para levar Sagasti à presidência foi feita entre os partidos que compõem o bloco de oposição ao anterior presidente do Congresso, Manuel Merino, que pertence ao partido de centro-direita Ação Popular – legenda que é dona da maior bancada, com 25 parlamentares.

    Após os violentos protestos de rua que se seguiram à queda de Vizcarra e à ascensão de Merino, o Congresso optou por apoiar a formação de uma mesa diretora de oposição, numa tentativa de aplacar a violência das ruas, que chegou a provocar a morte de dois jovens, em confronto com a polícia.

    Por um acordo feito entre os líderes dos partidos, ficou combinado que apenas os parlamentares que não votaram pela destituição de Vizcarra participariam da escolha do novo presidente do Congresso.

    As opções mais à esquerda foram descartadas, e Sagasti acabou emergindo como a alternativa de ponte entre os diferentes setores. Sua candidatura foi apoiada pela Ação Popular, de Merino e pelo Somos Peru, além da própria sigla de Sagasti, a Frente Ampla. Juntos, esses três partidos têm 45 dos 130 assentos.

    A história do perfil técnico

    Na imprensa peruana e internacional, Sagasti, de 76 anos, tem realçadas as típicas credenciais de “perfil técnico”: um engenheiro industrial com pós-graduação na Universidade da Pensilvânia, nos EUA. Além disso, ele tem destacada sua “origem austríaca” e de “amante da música clássica”.

    Outro dado biográfico de destaque é o fato de ele ter sido um dos reféns na tomada da Embaixada do Japão em Lima, em 1996, por membros do grupo armado Tupac Amaru que irromperam numa festa dada pelo corpo diplomático na capital peruana.

    No blog que mantém na internet, com versões em inglês e espanhol, ele se apresenta como professor na Universidade do Pacífico e membro de diversas organizações da sociedade civil, como centros de estudo em políticas públicas, entidades privadas e organismos internacionais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento e Organização dos Estados Americanos. Sagasti lista 25 livros de sua autoria, além de 150 “papers e capítulos de livros”.

    O jornal “El Comercio”, um dos mais influentes do Peru, diz que “é difícil encaixá-lo numa área de especialidade, ainda que ciência e tecnologia sejam seus campos de destaque”.

    Ao longo da carreira política, figurou como assessor de segundo escalão em governos tão distintos quanto o de Alan García (2006 a 2011), de centro-direita, e de Ollanta Humala (2011 a 2016), de centro-esquerda.

    Em 2020, candidatou-se pela primeira vez a um cargo público, na renovação do Congresso que se seguiu à dissolução constitucional da Casa, por ordem do então presidente Vizcarra. Sagasti foi eleito pelo Partido Morado e passou a presidir a Comissão de Ciência, Inovação e Tecnologia. Eleito para presidir o Congresso nesta segunda-feira (16), ele anunciou que desiste de ser candidato à vice-presidência na chapa que será encabeçada por Julio Guzmán, também do Partido Morado, na eleição presidencial de abril de 2021.

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