Público menor, poucas estreias: a retomada dos cinemas no Brasil

Empresas do setor enfrentam dificuldades na crise e buscam alternativas para driblar a falta de lançamentos e as restrições na pandemia 

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    A Academia Brasileira de Cinema vai revelar na quarta-feira (18) o longa escolhido para representar o Brasil em uma das vagas para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2021. Com a pandemia, as regras para a elegibilidade das obras mudaram e a cerimônia, que ocorreria em fevereiro, foi adiada para abril. Para um filme disputar uma das categorias do Oscar, ele precisava ser exibido em uma sala de cinema de Los Angeles por no mínimo sete dias consecutivos, em três sessões diárias. Agora, títulos exibidos apenas em plataformas digitais também podem concorrer.

    As mudanças na premiação refletem o quadro geral dos cinemas, que têm como única certeza a necessidade de adaptação. Um mês após a reabertura das salas na maioria das capitais do Brasil, os estabelecimentos enfrentam a crise econômica, o medo do público em meio à pandemia e a falta de filmes para preencher suas programações.

    Desde quinta-feira (12), redes como Cinemark e UCI abriram a agenda para sessões privadas de amigos e familiares no Brasil todo. Já o cinema de rua Petra Belas Artes, na capital paulista, anunciou que vai encerrar as atividades. A falta de bilheteria impede a manutenção do espaço, que vai suspender os contratos de 49 funcionários e fechar em 7 de dezembro, segundo André Sturm, diretor do local.

    Protocolos de reabertura

    Entre as capitais brasileiras que já têm permissão para reabrir os cinemas estão Aracaju (SE), Belém (PA), Belo Horizonte (MG), Campo Grande (MS), Cuiabá (MT), Fortaleza (CE), Macapá (AP), Manaus (AM), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), São Paulo (SP) e Vitória (ES).

    Cada cidade do país determinou um protocolo próprio de segurança para a reabertura dos cinemas, mas entre as medidas mais comuns estão:

    • Ocupação limite de 60% das poltronas de cada sala;
    • Uso obrigatório de máscara;
    • Medição de temperatura na entrada do cinema;
    • Distanciamento em filas na bilheteria, saguão e entre as poltronas;
    • Higienização das salas no intervalo entre as sessões.

    Estreias adiadas

    Além da dificuldade de convencer o público de que as salas são seguras, os cinemas também tropeçam na falta de filmes para preencher a programação. Incapacitados de começar novas produções e de finalizar as que estavam em andamento, os estúdios se adaptaram e mudaram suas agendas de lançamento.

    A certeza de que na maior parte do mundo a bilheteria seria limitada pela estipulação de que só 60% das poltronas podem ser ocupadas pesou no momento em que as produtoras e os estúdios decidiram adiar estreias aguardadas pelo público.

    Assim, filmes como “007 – Sem Tempo para Morrer”, 25º longa da saga Bond, que iria estrear em abril deste ano, foi transferido para novembro e adiado novamente — agora ele só chega às telonas em 2 de abril de 2021. O novo longa de Denis Villeneuve, “Duna”, que ia entrar em cartaz em 18 de dezembro de 2020, foi transferido para 1º de outubro de 2021.

    “Tenet”, de Christopher Nolan, liderou pela 3ª semana consecutiva a bilheteria nacional e já arrecadou R$ 4,56 milhões no Brasil desde a estreia, no dia 29 de outubro. Entre os dias 12 e 15 de novembro, a renda das bilheterias brasileiras foi de R$ 3,29 milhões. Em comparação com os dias 12 a 15 de março, último fim de semana antes do fechamento das salas, o valor corresponde a menos de metade: na época, os cinemas arrecadaram R$ 8,4 milhões em venda de ingressos.

    Para o CEO global da rede Cinemark, Mark Zoradi, os cinemas só devem voltar ao ritmo normal em 2022. A rede vê como uma alternativa a reformulação dos formatos de lançamento, como deixar os filmes em cartaz por mais tempo.

    Alternativas de renda

    No setor, buscam-se alternativas para evitar demissões e a falência. Alguns cinemas recorreram ao formato drive-in no início da quarentena, no primeiro semestre deste ano. Em São Paulo, o Petra Belas Artes foi um deles. Com um espaço montado no Memorial da América Latina, a iniciativa recebeu quase 15 mil carros de junho a novembro.

    Apesar da limitação de horário que os drive-ins enfrentam, já que só podem funcionar à noite, foram eles os responsáveis pela existência de bilheteria no país durante a fase mais restritiva da quarentena. De acordo com a Ancine, em julho, havia 34 novos cinemas a céu aberto no Brasil. Com a reabertura das salas, entre outubro e novembro, a maioria desses cinemas já foi desmontada.

    O aluguel das salas para sessões privadas foi outra maneira encontrada por redes para gerar renda. Na UCI e Cinemark, por exemplo, esse serviço custa entre R$ 200 e R$ 600 e permite que até 20 pessoas se reúnam para assistir a filmes novos ou antigos.

    À espera da vacina

    Em outubro, o Datafolha e o Itaú Cultural divulgaram pesquisa realizada por telefone com 1.521 pessoas que mostrava que o cinema é a atividade cultural de que os brasileiros mais sentiram falta durante o período de fechamento dos espaços. Além disso, 44% dos entrevistados afirmaram que assistir a um filme no cinema seria a principal atividade que realizariam com a retomada da agenda cultural.

    Para as maiores redes, a esperança veio com os anúncios de resultados preliminares que indicam a eficácia de vacinas em testes contra a covid-19. Com o comunicado da farmacêutica Pfizer e da empresa de biotecnologia BioNTec, por exemplo, as ações de muitas empresas afetadas pela pandemia dispararam nos Estados Unidos. Em Nova York, no dia 9 de novembro, os papeis da AMC subiram 61%, da Cinemark, 54%, e da Cineworld, 40%.

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