O tamanho de Boulos na esquerda após ir ao 2º turno em SP

Dois cientistas políticos analisam o desempenho do candidato na maior cidade do país e falam sobre o lugar do PSOL após o resultado

A chegada de Guilherme Boulos ao segundo turno em São Paulo é um fato inédito para o PSOL. Com o resultado, o ativista conhecido por sua atuação junto ao movimento sem-teto ocupou um espaço na cidade que, antes, estava nas mãos do PT, maior partido de esquerda do Brasil.

Boulos terá pela frente o prefeito Bruno Covas (PSDB), que tenta reeleição. Esta é a segunda vez que o psolista sai candidato a um cargo público. Em 2018, lançou-se para a Presidência, sem atingir 1% dos votos válidos. Agora, ao obter um milhão de votos no primeiro turno, tem diante de si uma chance de vitória.

Petistas históricos embarcaram em sua campanha ainda na primeira etapa da disputa, mesmo com o partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tendo candidato próprio, Jilmar Tatto, que acabou registrando o pior desempenho de um nome do PT na corrida pela prefeitura paulistana.

Boulos tem como vice a deputada Luiza Erundina, também do PSOL. Ela tem ligações históricas com o PT, pelo qual já foi prefeita de São Paulo. Ele também é próximo de Lula. Participou ainda de atos contrários ao impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e considerou que o ex-presidente foi vítima de uma ação política ao ser preso pela Lava Jato entre 2018 e 2019.

Tatto e Lula já declararam apoio a Boulos no segundo turno. O movimento foi acompanhado por Orlando Silva, candidato do PCdoB que também não atingiu 1% dos votos válidos no primeiro turno, e Ciro Gomes, do PDT.

O partido de Ciro havia apoiado Márcio França (PSB) no primeiro turno. França chegou a fazer acenos ao bolsonarismo no primeiro turno e tem ligações antigas com os tucanos paulistas.

O PSOL nas urnas em 2020

Além de Boulos em São Paulo, o PSOL tem Edmilson Rodrigues no segundo turno de Belém. Na primeira etapa, o partido conquistou a prefeitura em apenas quatro do mais de 5.500 municípios do Brasil: Marabá Paulista (SP), Potengi (CE), Ribas do Rio Pardo (MS) e Janduís (RN). Em 2016, haviam sido dois.

Nas Câmaras Municipais pelo país, o PSOL elegeu 89 vereadores em um universo de 58 mil. Em 2016 foram 56. Em São Paulo, a bancada do partido foi de dois para seis vereadores, entre as 55 cadeiras da Câmara Municipal.

A título de comparação, os petistas venceram em 178 municípios no primeiro turno e estão no segundo turno em duas capitais: Recife (PE) e Vitória (ES). Em 2016, o partido obteve a vitória em 256 cidades e garantiu uma capital: Rio Branco (AC).

O PSOL, apesar de ter surgido como uma dissidência do PT em 2003, no primeiro ano do governo Lula, voltou a se aproximar dos petistas durante o processo de impeachment de Dilma. Integrantes dos dois partidos veem o episódio como um golpe usado para tirar a esquerda do poder.

O tamanho de Boulos e do PSOL sob análise

O Nexo ouviu dois cientistas políticos para entender como os resultados até o momento das eleições municipais impactam Boulos, o PSOL e a esquerda brasileira. São eles:

  • Cicero Romão Resende de Araújo, professor da USP (Universidade de São Paulo)
  • Francisco Fonseca, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) e da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica)

Independente do resultado do segundo turno, Boulos sairá da eleição municipal como uma figura da política nacional?

Cicero Romão Resende de Araújo Mesmo que não vença o segundo turno, Boulos sairá maior dessas eleições. Desde 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff, o PT vem perdendo a liderança do campo que vai da esquerda ao centro. Esse campo se encontra, hoje, em disputa.

O fracasso do PT em São Paulo coloca mais água nesse moinho. O interessante é que esse fracasso não significou que o campo ficou sem candidato para ocupá-lo. Boulos é a expressão disso.

O candidato do PSOL vai precisar ir da esquerda para o centro se quiser vencer a eleição. Ele já está fazendo esse movimento de maneira muito hábil, porque ele não pode perder ou trair o seu eleitorado à esquerda. Mas é uma dificuldade calibrar o discurso.

Francisco Fonseca Boulos tem ganhado projeção desde as eleições de 2018. Neste momento, isso aumenta significativamente na principal capital do país e, por consequência, eleva sua participação na vida política nacional.

Parte do sucesso em sua guinada na campanha em São Paulo se dá porque ele consegue unir uma série de características difusas entre si. Consegue conciliar uma aderência na periferia, com os movimentos populares, e também na juventude, com atuação nos meios digitais.

Isso faz com que Boulos seja um candidato moderno na esquerda atual, dialogando com públicos diferentes e construindo um eleitorado diverso, o que é fundamental em qualquer disputa política.

Uma eventual vitória em São Paulo o projeta a uma postulação à Presidência da República em 2022, ainda que seja improvável um abandono de cargo por parte dele.

Qual é o lugar do PSOL no campo da esquerda hoje?

Cicero Romao Resende de Araújo Pequeno, mas em crescimento. É importante dizer, no entanto, que o campo da esquerda ao centro não tem mais um partido hegemônico.

Em tese, para que outros grupos ocupem espaço, o partido que detém a liderança do campo precisa enfrentar uma crise. Isso é uma condição necessária, mas não suficiente, porque a ocupação desse espaço depende das características dos substitutos.

O PSOL está em processo de consolidação porque está disputando em centros importantes, como São Paulo. O partido que busca projeção nacional, e por consequência liderança em um campo, precisa ter um candidato conhecido a nível nacional e estar nas principais capitais do país, principalmente São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Mesmo que o PSOL não vença no segundo turno em São Paulo, ele tem um candidato pronto para as eleições presidenciais de 2022. Mas essa é uma definição que não deve acontecer rapidamente, porque o PT com certeza terá candidato, e isso fragmenta o campo.

Um outro fator importante é o PDT. Ciro Gomes, apesar de não ter disputado com muita força em São Paulo, apenas apoiando Márcio França, construiu pontes com partidos de centro no Nordeste. É um aceno para pessoas indecisas.

O PSOL, para avançar como partido, vai precisar encarar isso em algum momento. Não significa trair o eleitorado, mas deixar alguns setores da sigla de lado para caminhar em outro sentido, que consiga abranger mais gente.

Francisco Fonseca O PSOL é um partido pequeno, com uma base pequena, então o seu crescimento é exponencial. É uma sigla que já existe há algum tempo e está crescendo, ocupando alguns espaços, inclusive do PT.

O cenário atual é de pulverização, com PT, PDT, PSB e o próprio PSOL. Todos esses partidos estão buscando espaço. Mas o PT ainda é o maior partido da esquerda. Tem a maior bancada na Câmara dos Deputados, uma boa bancada no Senado, elegeu prefeitos.

Em São Paulo, ainda que Tatto tenha feito menos de 9%, o partido tem a maior bancada na Câmara Municipal. Isso significa que há um voto do eleitor na legenda do PT, a despeito do baixo rendimento que o candidato ao Executivo teve.

O PSOL está construindo o seu espaço na esquerda. No Rio, apesar dos poucos votos no Executivo, tem um bom número de vereadores no Legislativo. Se ganhar em São Paulo e Belém, onde também disputa o segundo turno com Edmilson [Rodrigues], muda o panorama e esse status se amplia fortemente.

Esses resultados são importantes, mas isso não significa que o PSOL já possa tomar o lugar do PT na esquerda.

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