As derrotas, as vitórias e as possibilidades que saem das urnas

Cientistas políticos ouvidos pelo ‘Nexo’ apontam revés para Bolsonaro, num momento em que discurso extremista perde força

No primeiro turno das eleições municipais, realizado no domingo (15), 7 das 25 capitais em disputa tiveram o resultado selado, com vitórias do DEM, PSD e PSDB, partidos ligados à centro-direita. Para o segundo turno, há representantes de todos os espectros políticos, do PSOL de Guilherme Boulos em São Paulo ao PROS de Capitão Wagner em Fortaleza.

Sem partido, Jair Bolsonaro empenhou apoios a uma série de candidatos em 2020. Dos seis nomes que receberam apoio explícito do presidente em capitais, apenas dois foram para o segundo turno, marcado para 29 de novembro. Abaixo, o Nexo traz duas análises de cientistas políticos sobre o resultado das urnas até aqui. São eles:

  • José Álvaro Moisés, professor aposentado da USP (Universidade de São Paulo)
  • Fernando Guarnieri, professor da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)

Qual foi a grande novidade destas eleições municipais até aqui?

José Álvaro Moisés A maior novidade foi um recado que o eleitorado brasileiro deu no sentido de que ele não embarcou na polarização política que se arrasta no país desde 2016 e que teve muita força nas eleições de 2018. O eleitorado, na verdade, está premiando prefeitos e líderes políticos que atuaram bem na pandemia. Desse ponto de vista, afastou-se a ideia que parecia ter emergido nas eleições presidenciais de crítica ferrenha à velha política. O eleitorado, totalmente autônomo, mostrou que está crítico à essa nova política, que, por sua vez, não correspondeu às promessas feitas nas eleições passadas.

Fernando Guarnieri Essa foi uma eleição marcada pela continuidade, principalmente para os candidatos que buscam a reeleição. Com exceção de Porto Alegre, onde [Nelson] Marchezan não foi para segundo turno, muitos prefeitos conseguiram se reeleger ou seguem na disputa. E um outro fator importante é que as avaliações de governo em pesquisas feitas antes das eleições deram um retrato que se confirmou. Se você analisar os percentuais de ótimo/bom de prefeitos como [Bruno] Covas [São Paulo, no segundo turno contra Boulos] e Alexandre Kalil [eleito no primeiro turno de Belo Horizonte], você vai perceber que esses números se repetiram nas urnas.

Tem um fato importante que é a chegada de Boulos no segundo turno em São Paulo ocupando um espaço que sempre foi do PT na esquerda da capital paulista. Isso é algo que não acontece desde 1985 e que parece ter mudado nesse momento.

Quais partidos e figuras nacionais foram os grandes vencedores?

José Álvaro Moisés Alguns partidos tiveram muito bons resultados: DEM, MDB, PP e PSD tiveram ótimos desempenhos, seja porque conseguiram reeleger prefeitos com boa atuação nos últimos quatro anos, como Kalil, do PSD, seja pelo desempenho em capitais, como o foi o caso do DEM, ficando com as capitais de Salvador, Florianópolis e Curitiba, além de disputar o segundo turno em outros lugares, como no Rio [com Eduardo Paes].

O DEM é um caso emblemático, porque foi um partido que tem feito um processo de renovação dos seus quadros e tem conseguido colher resultados por isso. É algo feito pelo ACM Neto [atual presidente nacional do DEM e prefeito de Salvador], que já declarou que o partido precisava voltar a disputar as prefeituras pelo país, para depois buscar posições nacionais.

É um partido que ainda tem a presidência da Câmara dos Deputados [com Rodrigo Maia] e do Senado [com Davi Alcolumbre]. É uma articulação exitosa, e não estou entrando no mérito se o partido é de direita, centro-direita. É uma análise baseada no resultado dessas eleições.

Na esquerda, PDT e PSOL conseguiram se sobressair, especialmente o PSOL, com um desempenho que pode apontar para um rearranjo na política brasileira. A esquerda não morreu, e os resultados do PSOL demonstram isso. É um partido que se distanciou do PT em alguns aspectos, e faz um esforço de reforçar sua posição democrática, com uma posição progressista acentuada. A cada eleição, o partido tem colhido os resultados no campo da esquerda com mais ímpeto.

Essa eleição está demonstrando uma reacomodação dos partidos que estavam em crise nos anos anteriores, especialmente após 2018. Essas siglas mostraram que não estão mortas e podem de alguma maneira influenciar o jogo político, retomando seu próprio desempenho.

Fernando Guarnieri Eu acho que você tem alguns destaques importantes, como a Manuela D'Ávila, do PCdoB, que está no segundo turno em Porto Alegre, a Marília Arraes, do PT, quase empatada com o João Campos, do PSB, também no segundo turno em Recife. E há um desempenho importante de partidos como PP, PSD e DEM. O MDB é um partido com muita capilaridade, que tem um alcance muito bom nas disputas municipais.

O PSD é uma braço do antigo PFL [que mudou o nome para DEM]. O PSDB nasce de uma fragmentação do MDB. São partidos que estão na disputa desde os anos 1980, com algumas modificações. Mas são siglas com organização em nível nacional, alguma estratégia desenhada e que conseguem, a despeito de algumas quedas, manter importância na política brasileira.

Quais partidos e figuras nacionais foram as grandes derrotados?

José Álvaro Moisés O grande derrotado dessa eleição é o presidente Jair Bolsonaro. Para além do candidato em Fortaleza [capitão Wagner] e de [Marcelo] Crivella, no Rio, que já tem a máquina pública a seu favor porque é o atual prefeito, todos os candidatos que ele apoiou não foram bem. E o PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu em 2018, teve um desempenho muito ruim, mesmo com o dinheiro do fundo eleitoral. A sigla foi destroçada por Bolsonaro e agora também nas urnas.

E veja, ao que tudo indica, não dá para dizer que esse é um resultado que pode afetar os partidos do centrão [grupo com práticas de fisiologismo no Congresso], porque o PP e o PSD, por exemplo, tiveram um bom desempenho. Ao que parece, a chave da rejeição está mesmo em Bolsonaro.

Fernando Guarnieri Jair Bolsonaro sai derrotado. Mesmo que ele tenha dito que não fez campanha e que sua participação seja pequena nas candidaturas, ele apoiou pessoas que não se elegeram e que tiveram desempenho ruim. Ele não tem partido e não tinha estratégia, que se concretizou nessa participação pífia. Foi um pouco de omissão, com um misto de incompetência, que não o favorecem em nada daqui para frente.

Como o resultado até aqui pode impactar os planos dos partidos para 2022?

José Álvaro Moisés O grande recado dessa eleição até aqui é que existe espaço para uma alternativa de centro na política brasileira. Um centro moderado, equidistante à extrema direita e à esquerda mais radical. São as posições moderadas do centro-direita e da centro-esquerda que, na sua maioria, estão sendo confirmadas nas urnas.

Do ponto de vista macro, o recado é um ataque à polarização e à retórica do presidente Bolsonaro, que tende a dividir o país entre ele e seus apoiadores, e o restante do país. Essa divisão, que é útil para uma liderança populista, não foi corroborada pela população, e isso é algo que os partidos precisam estar atentos pensando na eleição de 2022.

O desenho da política brasileira a partir dessas eleições é novo: ele é mais pluralista, diversificado e que contempla, a meu ver, um nome que esteja mais ao centro do debate. Agora, é cedo para definir isso. As articulações estão acontecendo, mas eu imagino que esse nome esteja mais vinculado à centro-esquerda liberal do que a um nome propriamente de direita.

Fernando Guarnieri Você tem Bolsonaro que vai abocanhar uma parte do eleitorado da direita, e eventualmente mais uma candidatura desse campo. As articulações já começaram. Um exemplo é o encontro entre Luciano Huck [apresentador de TV] e Sergio Moro [ex-ministro da Justiça de Bolsonaro e ex-juiz da Lava Jato], que pode vir a ser uma candidatura. É preciso ver como a esquerda vai responder a esse processo: se com união ou fragmentação.

Tudo tem se movido muito rápido. Mas existem sinais que foram dados nas eleições municipais. O fato de o ex-presidente Lula não se contrapor a Boulos durante a campanha, mesmo com um candidato do PT em São Paulo, é um indicativo.

Acho que há uma chance de aliança, incluindo o PDT [de Ciro Gomes], mas é preciso controlar o ego. O Rio de Janeiro viveu um caso emblemático com a Benedita da Silva, do PT, e a Martha Rocha, do PDT. As duas tinham percentuais que, juntos, poderiam ter tirado Marcelo Crivella do segundo turno. É uma falta de coordenação que pode ser corrigida.

No arranjo de forças para 2022, três blocos podem se formar: um à esquerda e que depende de negociações. PDT e PSB já estão juntos. Resta saber se PT e PSOL vão aderir e em quais circunstâncias. Há um bloco de partidos como DEM, PSDB, MDB, PSD, com uma centro-direita ganhando força. E uma extrema direita centrada na figura do Bolsonaro, com partidos orbitando na figura do presidente, mesmo sem ele ter uma sigla até o momento.

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