A extensão que retira o Google dos resultados do Google

Ferramenta para navegadores bloqueia elementos como anúncios e boxes da empresa. Prática da gigante de buscas é alvo de ação antitruste movida pelo governo americano

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    Quando você faz uma busca por “Alzheimer” na ferramenta do Google, os resultados começam com links patrocinados, uma caixa que lista sintomas, tratamentos e visão geral da doença, e outro espaço com as dúvidas mais frequentes.

    Desses resultados, os primeiros são anúncios de empresas que pagam à gigante de buscas para aparecer em destaque. Os demais são paineis formulados pelo próprio Google, usando informações coletadas em sites de terceiros. É só após descer um terço da página que aparece o primeiro resultado realmente externo da busca.

    A extensão Simple Search foi criada para tentar deixar a experiência em ferramentas de busca mais direta, e bloqueia todo o tipo de painel interativo nos resultados. Ela pode ser instalada em navegadores, e usada em buscadores como o Google e o Bing.

    A sensação é de acessar o buscador com um layout próximo do que era o padrão visual em 2010. Além dessas mudanças, ferramentas do Google como o Tradutor, Mapas, Shopping, Ads, Finanças e Voos deixam de aparecer automaticamente. Para acessá-los, é preciso entrar no link de cada um.

    A extensão foi desenvolvida pelo site de jornalismo investigativo de tecnologia The Markup, e está disponível para navegadores Chrome (do próprio Google) e Firefox. Uma vez instalado, toda pesquisa abre um box simples com dez resultados e a contagem de páginas no pé. Para ver a mesma busca no layout real, basta fechar o box no topo.

    Foto: Reprodução
    Sob página normal do Google, box com alguns resultados do termo ‘Alzheimer’
    Print de página de pesquisa do termo ‘Alzheimer’ com a extensão ativada

    As acusações de truste ao buscador do Google

    O buscador do Google é alvo de acusações de práticas de truste, quando há uma tentativa de controlar um setor do mercado combinando companhias ou produtos. Os críticos dizem que a empresa privilegia resultados próprios em detrimento de outros sites.

    Por exemplo, ao pesquisar um restaurante de culinária japonesa, Google Mapas e Shopping entregam o resultado num painel próprio que aparece em destaque no topo. Enquanto isso, plataformas como a Yelp, especializada na avaliação de estabelecimentos comerciais, aparecem em meio aos resultados normais e recebem menos visibilidade.

    O CEO da Yelp, Jeremy Stoppelman, é uma das vozes mais assíduas nessas acusações contra o Google. Outros mercados virtuais, como o de viagens, também enfrentam o mesmo desafio. Em outubro, o Departamento de Justiça dos EUA entrou com um processo antitruste contra a empresa, acusando-a de abusar do poder de mercado nos segmentos de busca na internet e publicidade digital. A ação é considerada a maior do tipo desde 1998.

    Em julho, o site The Markup analisou mais de 15 mil termos populares consultados no Google e revelou que, em média, 41% dos resultados da primeira página eram de propriedades do próprio Google. Observando apenas aos primeiros 15% da primeira página — o equivalente a uma tela toda de um iPhone X —, essa proporção salta para 63% dos resultados.

    Em pesquisas sobre temas da área de saúde, os paineis do Google aparecem antes de informações de universidades, por exemplo. Esses paineis compilam dados de várias fontes e muitas vezes trazem links para outras buscas no Google. Em alguns casos, o usuário precisava descer mais de 40% da página para encontrar o primeiro link externo de fato. A descoberta motivou o site a criar a extensão Simple Search.

    92,7%

    é a fatia de mercado do Google no setor de buscadores online em outubro de 2020, segundo o site de análise de tráfego de dados StatCounter

    3,5 bilhões

    é o número de buscas que o Google processa por dia em outubro de 2020, segundo o site de análise de tráfego de dados Internet Live Stats

    83,9%

    da receita do Google em 2019 veio de anúncios veiculados nos próprios produtos da empresa

    Em resposta à reportagem do The Markup, Lara Levin, porta-voz do Google, disse que “como um buscador, a missão do Google é direcionar seus usuários rapidamente para boa informação, seja qual for a origem dela”. Segundo ela, o uso desses paineis “não foram pensados para privilegiar o Google”, mas desenvolvidos em função dos “interesses dos usuários, e validados seguindo testes rigorosos”.

    Em audiência sobre práticas de truste em julho no Congresso americano, o CEO do Google, Sundar Pichai, também se defendeu dizendo que a empresa oferece o que seus usuários desejam.

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