Quem é o vereador baleado no Rio. E outros casos no estado

Zica Bacana foi alvo de ataque a tiros, mas sobreviveu. Crimes similares já vitimaram pré-candidatos e candidatos no Rio de Janeiro desde o início de 2020

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Candidato à reeleição para vereador na cidade do Rio de Janeiro, Jair Barbosa Tavares, conhecido como Zico Bacana (Podemos) levou um tiro na segunda-feira (2) durante um evento de campanha no bairro Ricardo Albuquerque, na zona norte da capital fluminense.

Ele estava em um bar e foi atingido por uma bala de raspão na cabeça, mas não corre risco de morrer. Durante o ataque, outras quatro pessoas foram baleadas e dois morreram no local.

Zico Bacana, que está no primeiro mandato, é presidente da Comissão de Defesa Civil da Câmara Municipal e integrante da Comissão Permanente de Segurança Pública da Casa.

Após o ataque, ele prestou depoimento na Delegacia de Homicídios do Rio. Na manhã de terça-feira (2), Zico Bacana disse à TV Globo que foi vítima de uma tentativa de homicídio e lamentou o ocorrido. “O parlamentar não pode passar por isso, o parlamentar é para o povo, é para ajudar a população”, afirmou.

O passado de Zico Bacana

Zico Bacana é policial militar e foi citado no relatório final da CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio em 2008. No documento, ele foi apontado como líder da milícia que atuava nas favelas da Palmeirinha e Eternit, em Guadalupe, na zona norte do Rio. Ele sempre negou as acusações e disse não estar envolvido com milicianos.

A CPI das Milícias durou cinco meses e foi conduzida em âmbito estadual, com investigações e depoimentos para apurar a interação entre políticos, servidores públicos e o crime organizado no estado. No relatório final, a CPI, presidida na época pelo então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) – hoje deputado federal pediu o indiciamento de 226 pessoas. Apesar da citação, Zico Bacana não foi indiciado por falta de provas.

Em abril de 2018, Zico Bacana foi convocado a prestar depoimento no contexto do inquérito que apura o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do seu motorista Anderson Gomes, ocorrida um mês antes, em 14 de março, no centro do Rio.

Na época, o jornal O Globo informou que a Polícia Civil havia recolhido imagens do circuito de câmeras interno da Câmara Municipal carioca para saber quem esteve no local no dia do assassinato da vereadora.

As gravações obtidas pela investigação mostraram a presença do ex-vereador e suspeito de envolvimento com a milícia Cristiano Girão no sétimo andar da Casa, onde ficava o gabinete de Zico Bacana.

Além disso, Marielle havia feito críticas aos policiais militares do Batalhão de Irajá poucos dias antes da sua morte. Oficiais desse batalhão foram homenageados por Zico Bacana na Câmara Municipal. Zico sempre negou qualquer relação com o assassinato da vereadora do PSOL.

O assassinato de Marielle e Anderson ainda não foi solucionado. Os ex-policiais militares Ronnie Lessa e Elcio Queiroz foram denunciados pelo Ministério Público do Rio como autores dos disparos que vitimaram a vereadora e seu motorista. Entretanto, ainda não se sabe quem foi o mandante do crime. Em setembro de 2020, o delegado Moisés Santana assumiu a chefia do caso.

Outros casos de violência contra candidatos no estado do Rio

Dados compilados pelo pesquisador Pablo Nunes, doutor em ciência política pela Uerj e coordenador do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania vinculado à Universidade Candido Mendes, dão um panorama da violência contra políticos no Brasil.

Ele tem reunido dados nacionais sobre crimes envolvendo políticos desde o início de 2020, entre pré-candidatos, candidatos, políticos eleitos e aqueles com mandato encerrado.

Entre pré-candidatos e candidatos, o Rio de Janeiro soma cinco mortes. O primeiro caso foi o de Ubirajara Moraes Pereira, conhecido como Bira da Saúde (PSDC), que disputava uma vaga em São João do Meriti, na Baixada Fluminense. Ele foi morto com dez tiros na cabeça.

Em maio, outros três casos foram registrados. No dia 13, o pré-candidato Leonardo Pinheiro (Patriota) foi alvo de um ataque por arma de fogo em Araruama. No dia 28, Carlos Ritter (Solidariedade), conhecido como Carlão Nova Brasília, foi alvejado na porta de sua casa em Campos de Goytacazes.

Entre setembro e outubro, mais três casos apareceram nas páginas policiais: Sandra Silva (PSB), candidata a vereadora em Magé, foi encontrada morta no rio Roncador, no início de setembro.

No mês seguinte, dois candidatos a vereador em Novo Iguaçu, na Baixada Fluminense, morreram em ataques a tiros: Mário Miranda (PTN) e Domingos Cabral (DEM). Todos os casos estão em fase inicial de investigação.

Um panorama do Brasil

Em nível nacional, ao menos 15 candidatos – 14 vereadores e 1 prefeito – foram mortos desde o dia 17 de setembro, primeiro dia após o fim das convenções realizadas pelos partidos políticos que oficializaram as candidaturas para 2020.

Reportagem do jornal Folha de S.Paulo mostra que as mortes aconteceram em cidades do interior de 12 estados pelo país, como Minas Gerais, Pará, Bahia, São Paulo, entre outros.

No mesmo período foram registrados ao menos 19 tentativas de assassinato de candidatos com armas de fogo, mas que acabaram sobrevivendo, como foi o caso de Zico Bacana.

As nuances do problema

Segundo Nunes, não é possível diferenciar crimes convencionais e crimes com motivação política no Brasil. “O país tem um problema grave sobre a resolução de inquéritos. Órgãos de segurança pública têm imensa dificuldade para concluir as investigações. Sem isso, nós não sabemos quais são as motivações para o crime e, por consequência, não podemos delimitar o que é um crime com viés político”, disse ao Nexo.

Ainda assim, o pesquisador afirma que existe um padrão nos ataques que ajudam a identificar as ocorrências. “Via de regra, as ações têm uma dinâmica parecida: dois homens em uma moto ou homens em um carro efetuando disparos, sem levar nenhum pertence. Esse é o padrão básico de emboscada e que pode apontar para o crime político”, afirma.

Essa descrição, comum em ataques a pré-candidatos e candidatos, também pode acontecer em situações que não necessariamente têm a ver com o contexto eleitoral, como vinganças ou crimes envolvendo tráfico de drogas. Por isso a definição de crime político fica prejudicada sem que as investigações e a conclusão do inquérito de fato apontem isso.

Um exemplo disso aconteceu na eleição de 2016. A Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense registrou 14 homicídios envolvendo pré-candidatos e candidatos entre novembro de 2015 e setembro do ano seguinte.

Apesar das similaridades entre os casos – ataques a tiros em locais públicos – a polícia afirmou na época que apenas duas mortes tinham relação com o período eleitoral. O restante estava inserido em disputas locais entre milicianos e pessoas envolvidas com tráfico de drogas.

Autoridades identificam a Baixada Fluminense como reduto de maior ascensão de grupos milicianos no estado do Rio nos últimos dez anos. Esse cenário pode ter um impacto eleitoral.

Em 13 de outubro, a Secretaria da Polícia Civil do Rio criou uma força-tarefa para combater o crime organizado na Baixada e permitir uma "eleição livre", segundo o secretário Allan Turnowski.

Para Nunes, o fenômeno das milícias tem papel fundamental nas eleições locais do Rio. "As milícias são compostas por pessoas muito próximas do Estado. Em muitos locais, as milícias são o Estado. Então, essas pessoas disputam cargos para vereadores e prefeitos. Ou defendem amigos envolvidos nas eleições", disse.

O pesquisador conclui: “uma das práticas primeiras das milícias é a utilização da violência para resolver seus conflitos. A presença das milícias deixa as eleições mais vulneráveis, e é isso que nós temos visto no Rio de Janeiro”.

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